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O chef e restaurateur Beto Madalosso na Forneria Copacabana Iguaçu: “Político não é celebridade”. | Fotos: Julio Cesar Souza
O chef e restaurateur Beto Madalosso na Forneria Copacabana Iguaçu: “Político não é celebridade”.| Foto: Fotos: Julio Cesar Souza

“Políticos corruptos NÃO são bem vindos”. A frase salta aos olhos nos cardápios dos dois restaurantes do chef curitibano Beto Madalosso, as badaladas fornerias Copacabana – uma no Alto da XV e outra na Avenida Iguaçu. O aviso está lá faz algum tempo, mas só agora ganhou ampla repercussão após ele postar um desabafo, nesta semana, em sua página pessoal no Facebook, contra o descalabro na política nacional. A postagem viralizou na rede social imediatamente, conquistando muitos apoios. Empreendedor de sucesso e membro proeminente do clã que comanda o maior restaurante do Brasil, o Madalosso, de Santa Felicidade, Beto se diz farto da roubalheira e decidiu barrar os malversadores de dinheiro público de suas duas casas, sempre lotadas. “O que tem de acabar de uma vez por todas é o hábito de tratar político como celebridade. Político tem síndrome de celebridade”, diz indignado. Na sexta-feira, a coluna conversou com Beto Madalosso por e-mail.

Por que você decidiu recusar os políticos corruptos nos seus restaurantes?

Corruptos não são bem-vindos em lugar nenhum. Aliás, essa “bandeira” deveria ser aplicada por eles mesmos, dentro de repartições públicas e das “casas da lei” – câmaras, assembleias, Senado. Nós, brasileiros, lamentamos a corrupção o tempo todo, em todos os lugares. Estamos fartos disso. A única coisa que fiz foi imprimir a frase no meu cardápio e deixar claro o que eu penso.

A frase polêmica impressa no cardápio das duas casas.

Como a ideia surgiu?

Restaurantes, muitas vezes, são usados como veículos para campanhas educativas como “Se beber não dirija” ou “denuncie a exploração infantil”. Acontece que a corrupção, no Brasil, é tão grave quanto os problemas citados acima. Então essa atitude deve partir de nós, da população, porque protesto não se faz apenas em dias de passeata. Essa frase deveria estar em mais restaurantes, em embalagens de produtos, em pontos de ônibus, aeroportos etc. Assim como é lei uma foto chocante na embalagem do cigarro, essa frase deveria ser uma determinação legal.

Algum político notoriamente corrupto passou pelos seus restaurantes ultimamente?

Não sei e não procuro saber. É importante deixar claro que não cabe a mim selecionar meus clientes e muito menos puni-los. Meu papel é pura e exclusivamente conscientizar as pessoas sobre o assunto, gerar reflexão. Imagino que uma criança de dez anos, ao ler essa frase, pode questionar e indignar-se desde cedo e, no futuro, teremos pessoas politicamente mais esclarecidas.

Se um corrupto notório entrar e pedir uma mesa, como será tratado?

Não sou um cara brigão, não vou arrancá-lo à força. Minha posição está clara em meu cardápio. Acredito que, ao ler a frase, o malandro não apareça mais, já que para bom entendedor meia palavra basta.

Você teve uma breve passagem por um cargo público recentemente, como diretor-presidente da Paraná Turismo do governo Beto Richa. Por que aceitou e por que saiu?

Fiquei quatro meses no cargo. Aceitei porque eu gosto da política, sou um idealista desde criança e quero sempre fazer algo que possa mudar o país pra melhor. Trabalhei no turismo, pois minha profissão está diretamente ligada a essa área. Mas o poder público é moroso, a burocracia é absurda, e logo percebi que levaria muito tempo pra conseguir atingir grandes objetivos ali dentro. Além disso, eu administrava meu restaurante paralelamente e era impossível conciliar as duas coisas.

Você pertence a uma tradicional família de donos de restaurantes famosos da cidade, como o Madalosso, o preferido por políticos de todos os partidos para realizar grandes almoços e jantares em anos eleitorais. Não teme que essa sua postura possa afetar uma das fontes de renda da família?

De jeito nenhum. Primeiro, porque não se pode generalizar dizendo que “politico” e “corrupção” são sinônimos, apesar de existir essa tendência por conta da infinidade de escândalos pelos quais o Brasil vem passando. Eu, particularmente, acredito que a corrupção seja prática da minoria e não da maioria. Atender eventos políticos ou pessoas da política não significa apoiar a corrupção. Atendemos a todos sem fazer distinção de raça, religião, classe social, partido político ou estilo de vida. Como eu disse, essa frase tem caráter educativo, para que as pessoas de modo geral reflitam sobre o assunto. Nenhum político corrupto vai mudar de postura ao ler isso, mas talvez as pessoas mudem de postura ao verem um político corrupto, como já vem acontecendo por aí.

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