Pandemia reduziu o número de cirurgias de mudança de sexo no Brasil
Pandemia reduziu o número de cirurgias de mudança de sexo no Brasil. Imagem ilustrativa| Foto: Unsplash

Um dos debates recorrentes na comunidade da Medicina diz respeito às chamadas cirurgias de redesignação sexual, ou simplesmente cirurgias de mudança de sexo. Enquanto parte da academia afirma que esse tipo de operação melhora a saúde mental dos pacientes, outros profissionais apontam que muitas intervenções estão acontecendo sem que haja um controle adequado sobre os riscos envolvidos no procedimento. Pois, em 2020, o tema ganhou um elemento imprevisto: a pandemia do coronavírus. Com a propagação da Covid-19, o número de cirurgias de mudança de sexo realizadas no Brasil em 2020 foi quase 60% menor do que em 2019. Por causa das limitações na realização de cirurgias eletivas (não-emergenciais), pacientes que desejavam se submeter à chamada redesignação sexual passaram a ter uma espera mais elevada.

De acordo com os dados oficiais, foram realizadas 39 cirurgias na categoria “redesignação sexual no sexo masculino” em 2017, 34 em 2018 e 37 em 2019. Em 2020, houve apenas 15 - redução de 59,4% em relação ao ano anterior.

Ao mesmo tempo, houve quatro cirurgias de “redesignação sexual no sexo feminino” em 2020 ante apenas uma em 2019. Mas esta comparação é falha porque o Ministério da Saúde incluiu essa categoria no SUS apenas em meados de 2019. Ainda assim, é possível checar que houve queda abrupta no número de mastectomias (remoção das mamas) em processo de transição sexual no ano de 2020. De três em 2017, onze em 2018 e sete em 2019, o número caiu para uma cirurgia em 2020. Houve também uma queda semelhante na categoria “cirurgias complementares de redesignação sexual”: foram nove em 2020, contra 26 em 2019.

Os números foram compilados pela Gazeta do Povo com base nos dados do DataSus - a plataforma de dados do Sistema Único de Saúde.

Uma das principais unidades de referência no atendimento a transexuais que pretendem fazer a transição é o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. O coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual na unidade, Alexandre Saadeh, afirma que a redução no número de cirurgias de mudança de sexo foi diretamente causada pela pandemia: “O número dessas cirurgias despencou porque são cirurgias eletivas”, diz Saadeh.

O HC é um dos poucos hospitais no Brasil autorizados a fazer esse tipo de intervenção. De acordo com Sadeeh, em todos eles a demanda tem estado no limite.“Em São Paulo, o tempo de espera é bem longo, de 5 a 8 anos, o que é algo preocupante”, avalia. Segundo o especialista, cujo trabalho lida principalmente com crianças e adolescentes, a falta de atendimento presencial também prejudicou muitos pacientes. “Fazer uma psicoterapia de uma criança pequena online, pela internet, não é a forma adequada”, afirma.

Em nota, o Hospital das Clínicas da UFPE, que também realiza cirurgias de redesignação sexual, confirmou a diminuição nos atendimentos no ano passado. Mas, segundo a unidade, o atendimento começou a ser normalizado ainda em julho: "Com o objetivo de diminuir a transmissão do novo coronavírus e seguindo os protocolos de saúde determinados pelas autoridades estaduais, o Hospital das Clínicas da UFPE/Ebserh, de março a julho de 2020, suspendeu as cirurgias consideradas eletivas e os atendimentos ambulatoriais, mantendo os serviços essenciais e as cirurgias de urgência", diz o texto.

O SUS passou a oferecer o “processo transexualizador” em 2008, durante o segundo governo do presidente Lula. A Gazeta do Povo procurou o Ministério da Saúde para tratar do tema, mas não obteve resposta.

Questionamentos

Recentemente, estudiosos críticos da eficácia das terapias de mudança de sexo (que incluem, além da cirurgia, tratamentos hormonais) têm apontado que, em vez de realizar intervenções irreversíveis no corpo do paciente, o caminho mais adequado é priorizar o tratamento psicológico ou psiquiátrico. De acordo com a U.S. Transgender Survey, um dos maiores levantamentos feitos sobre a população transgênero americana - e que é favorável à causa LGBT - 8% (um em cada 12) das pessoas que passam pela redesignação sexual acabam revertendo a transição.

Em um dos livros mais recentes sobre o tema, a escritora Abigail Shrier mostra o crescimento de um fenômeno chamado “disforia de gênero de desenvolvimento rápido”, que é movido sobretudo pela influência de amigos e das redes sociais, e tem grandes chances de desaparecer com o tempo. De acordo com o livro “Irreversible Damage” (Dano Irreversível, em uma tradução livre), lançado por Abigail Shrier no ano passado, o número de adolescentes que afirmam ser transgêneros cresceu 1.000% nos Estados Unidos e cerca de 4.000% na Inglaterra em poucos anos.

Pelos critérios do DSM-5, o manual de referência para transtornos mentais como a disforia de gênero, o paciente só pode ser enquadrado nesta categoria caso demonstre sintomas consistentes, por pelo menos 6 meses contínuos, de que se identifica como alguém do sexo oposto.

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