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Com simulador, tirar CNH ficará até 35% mais caro

Exigência começa a partir de janeiro e impactará o custo da carteira de habilitação. Autoescolas menores temem falência

  • PorDaniel Zanella,
  • 29/07/2015 22:00
Estima-se que o investimento médio de cada autoescola com o aparelho será de mais de R$ 600 mil. | Brunno Covello/Gazeta do Povo
Estima-se que o investimento médio de cada autoescola com o aparelho será de mais de R$ 600 mil.| Foto: Brunno Covello/Gazeta do Povo

Depois de achar que haviam ganhado a batalha, as autoescolas voltam à guerra contra o simulador de direção. Por determinação do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), órgão do Ministério das Cidades, o protótipo de ares futuristas se torna obrigatório a partir de 1.º de janeiro de 2016. A resolução levará cada centro de formação de condutores a ter no mínimo um aparelho e a oferecer a todos os candidatos à obtenção de Carteira Nacional de Habilitação (CNH) cinco horas/aula de simulação, sendo uma com conteúdo noturno.

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A medida está preocupando os donos dos centros de formação por dois motivos: o equipamento custa entre R$ 30 mil e R$ 40 mil e tornará mais caro o processo de obtenção da CNH.

Veja um vídeo que mostra como o simulador funciona

“Calculamos que aumentaremos, por baixo, em R$ 300 o custo de cada nova habilitação. Mas não temos uma ideia precisa disso. Do que temos certeza: o simulador é uma coisa inútil”, diz Braz Aguiar, proprietário da Autoescola Fox, no Pinheirinho, Região Sul de Curitiba. O processo para obtenção de uma CNH para carros – categoria “B” – custa atualmente, em média, R$ 1.650.

Anteriormente, somente Rio Grande do Sul, Acre, Paraíba e Alagoas exigiam as aulas nos simuladores. Agora o Contran também decidiu que as aulas em ambiente virtual devem ser realizadas em todo o país, entre o curso teórico e o prático.

Inicialmente, a determinação vale para carros de passeios. Posteriormente, será obrigatório o uso do simulador para veículos comerciais, caminhão, ônibus e motos.

“Qual o sentido de exigir isso? O negócio parece um videogame. O que realmente é necessário no trânsito brasileiro são as aulas práticas, maior perícia dos motoristas na vida, estrada e sinalização em melhores condições”, afirma Karla Martins, diretora da Autoescola Belo e especialista em trânsito. “Isso me cheira a lobby e a extorsão. Como pode um carro de mentira ser mais caro do que a maior parte dos veículos novos?”, questiona.

A empresária também aponta para uma dificuldade que ainda não foi calculada: as filas. “As autoescolas terão de comprar mais de um simulador. Hoje um processo de CNH demora 120 dias. Se comprarmos apenas um equipamento, a coisa toda pode demorar até nove meses. Para cada 60 veículos de verdade, a estimativa é que teremos de comprar 20 equipamentos de mentira, um investimento de mais de R$ 600 mil. Sem contar nas adaptações de espaço”, alega.

“As autoescolas menores correm o risco de quebrar”, enfatiza Braz Aguiar. “Sabemos que os nossos custos aumentarão em mais de 35%. Só que ainda não contabilizamos alguns gastos. Certamente, o candidato sentirá o impacto dessa nova medida”, completa.

Uma solução ainda pouco estudada na categoria é o regime de aluguel dos simuladores. “Alguém terá de fazer um investimento de vulto para o mercado não parar. E pode ser que algumas autoescolas menores acabem sugerindo alugar os protótipos das autoescolas maiores. Ainda assim, é certo que isso deixará tudo bem mais caro ao candidato”, diz Aguiar.

Número de fornecedores subiu, mas não há padrão de modelos

As autoescolas e sindicatos da categoria também estão insatisfeitos com a falta de opções para adquirir o protótipo. No Paraná, apenas a Indra Esteio Sistemas S.A., de Curitiba, está autorizada a fornecer o material. Ao todo, são três empresas no país. Até junho, apenas uma delas estava homologada, o que levou a Federação Nacional das Autoescolas (Fenauto) e os sindicatos estaduais da categoria a orientar os donos de autoescolas a não comprar o simulador – o Contran recuou da obrigatoriedade em junho, mas voltou à carga em 21 de julho, com novas homologações de fornecedores.

Para o engenheiro paulista Paulo Guimarães, diretor técnico do Observatório Nacional de Segurança Viária, o problema não está no simulador, nem nos fornecedores. “Temos um problema gravíssimo de padronização dos protótipos. Isso precisará ser revisto. Eles não são homogêneos. Em alguns casos, eles ainda contam com peças de madeira, o que é muito rudimentar”, alega.

Em abril de 2014, representantes do Observatório participaram de audiência pública na Câmara dos Deputados sobre o tema. A organização não governamental entregou um relatório, a partir de quatro meses de estudos, sobre os prós e contras do simulador. “Ele traz modernidade ao sistema, apresenta situações de risco difíceis de serem reproduzidas, como condições de chuva intensa e neblina, além de geração de dados e informações estatísticas através da telemetria. Isso permitirá medidas corretivas nas aulas práticas”, avalia Guimarães.

Consagrado

Os simuladores são utilizados em diversas áreas de alta performance, da medicina à aviação. “Não é inteligente questionar um conceito que já é consagrado. O que precisa, sim, é aprimorar a ferramenta, não anulá-la. Falta padrão, sim, e a metodologia de ensino precisa ser pensada para que o conteúdo seja realmente uma ponte entre a teoria e a prática. E as autoescolas não precisam, em todos os casos, adquirir os simuladores”, reitera Guimarães. Ele lembra a naturalidade de pilotos de automobilismo no reconhecimento de autódromos pelos simuladores.

Por sua vez, Karla Martins enxerga contradição nas normas do Contran. “Não há como comprovar a eficácia dessa nova ferramenta. Exige-se aula noturna, mas por que não há exames de habilitação no período noturno, por exemplo? O Contran finge que preza pelo motorista e a gente finge que acredita”, afirma.

Segundo a assessoria de comunicação da Contran, a utilização do simulador de direção veicular está condicionada ao atendimento de diversas exigências, de laudo técnico às vistorias.

As garantias não convencem Welinton Antunes, da Autoescola Curitiba. “Desde o começo desse imbróglio já se passaram três anos. Nenhum empresário quer correr o risco de investir esse montante. O negócio é deixar para a última hora e ver se realmente a coisa vai vigorar”, insinua.

O Contran afirma que caberá ao Detran emitir as multas aos estabelecimentos que descumprirem a obrigatoriedade do simulador. “Mas se a medida for colocada em prática mesmo, iremos nos adequar. Mais um custo que teremos de repassar ao contribuinte”, diz Antunes.

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