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Vício

Como as bets afetam e remodelam o cérebro do apostador

O vício em bets corrói a capacidade de dizer não aos próprios impulsos, ao afetar o córtex pré-frontal responsável pela inibição.
O vício em bets corrói a capacidade de dizer não aos próprios impulsos, ao afetar o córtex pré-frontal responsável pela inibição. (Foto: Imagem criada por Gemini IA/Gazeta do Povo)

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As plataformas transformaram o cenário dos jogos de azar no país e estão se tornando um problema de saúde pública. Embora as apostas existam há muitos anos, antes era preciso se deslocar para um espaço de jogos ou aguardar o resultado da loteria. Agora, na palma da mão, a promessa de dinheiro fácil a um clique é capaz de alterar o funcionamento do cérebro humano.

Intensamente divulgadas por influenciadores, surgindo em meio a anúncios nas redes sociais, presentes em camisas de times de futebol e mais recentemente com publicidade escancarada nas partidas da Copa do Mundo e intervalos da TV aberta, as bets são um fenômeno perigoso na opinião de Marcelo Heyde, médico psiquiatra e professor do curso de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Ele explica que as apostas online causam um impacto tão forte no indivíduo que é capaz até de remodelar o cérebro. 

Heyde aponta que estudos de neuroimagem já demonstram alterações estruturais e funcionais claras em pacientes viciados em apostas online. "Existem alguns estudos pequenos que mostram uma redução volumétrica em córtex pré-frontal e hipocampo (responsável pela memória). Mas o mais importante é a diferença de ativação, em que o sistema de recompensa (o circuito relacionado ao prazer) é hiperestimulado e o córtex pré-frontal, que é o freio mental, fica com a ativação reduzida", detalha o especialista. Segundo ele, isso gera a grande armadilha das dependências em geral: "um desejo alto com freio prejudicado".

O professor ressalta, ainda, que a facilidade digital agrava o quadro em comparação às apostas tradicionais. “Essa alteração não é comum em apostas de loterias normais, em que o tempo até o desfecho é maior. Mas é muito semelhante em apostas em cassinos. A diferença é o acesso, já que as bets estão no celular, a poucos cliques, o que inclusive facilita uma percepção errada de quanto já foi gasto”, sinaliza ele. 

Caio Etchichury, terapeuta especialista no atendimento de homens com vícios digitais e em apostas, e professor do Instituto de Psicologia Tomista, corrobora a fala de Heyde. Ele explica que as plataformas conseguem ludibriar o cérebro ao criar uma ilusão de controle. “Elas ‘hackeiam’ o cérebro porque existe um jeito de você ficar brincando e burlando o sistema de recompensa com a chance de que você pode ganhar algo. O fato de você apostar e arriscar dá a sensação de que você está no controle, multiplicando o seu dinheiro”, diz.

Segundo o terapeuta, é esse movimento que traz a sensação grande de recompensa para o cérebro, especialmente porque é algo escalável. “Eu estou com R$ 100 e se eu passo para R$ 500, dos R$ 500 em diante a imaginação é o limite. Eu posso transformar esses R$ 500 em R$ 1000 e os R$ 1000 em R$ 10000”, exemplifica.

O problema é que a engrenagem toda não opera sozinha ou é fruto apenas do que o indivíduo faz ao acessar a plataforma. Do outro lado da tela do celular, lembra Etchichury, equipes formadas por dezenas de profissionais trabalham ativamente para moldar o comportamento do usuário.

“A gente não pode achar que se trata de uma inteligência ou um cérebro contra uma máquina não pensante. Por trás dessa máquina ‘não pensante’ existe um time inteiro de engenheiros focados em experiência de usuário e em maximizar a percepção de chance de ganho”, alerta.

Função inibitória do cérebro vai sendo enfraquecida

O córtex pré-frontal atua como o "freio mental" e o centro do autocontrole do ser humano. É ele quem inibe nossos impulsos, de acordo com Heyde, e funciona silenciosamente todos os dias. O psiquiatra explica que realizar comportamentos funcionais ativa circuitos cerebrais de forma harmônica, mas quando uma pessoa é viciada essa harmonia é perdida.

“Nas apostas, a expectativa de ganho (não necessariamente o ganho) hiperativa o mecanismo de recompensa, gerando uma certa euforia. Ao mesmo tempo, o freio pré-frontal está prejudicado, assim como a memória, que vai lembrar mais das vezes em que houve o ganho (mesmo esses sendo mais incomuns que as perdas)”, diz.

Etchichury complementa a explicação detalhando como o vício corrói essa capacidade de dizer “não” aos próprios impulsos. “O córtex pré-frontal tem a função inibitória. Se a gente fala com uma pessoa, ela nos xinga e temos vontade de atacá-la, esse impulso é inibido. O que acontece com o vício em bets e com outros vícios? Ele vai desabilitando aos poucos o córtex pré-frontal, aquela função inibitória específica daquele ato. É como se ele enfraquecesse.”

Ele acrescenta que, quando o hábito de jogar evolui para um vício, a pessoa passa a apostar com frequência cada vez maior, torna-se progressivamente dessensibilizada e perde a capacidade de controlar os próprios impulsos. “O vício vai desarmando o sujeito e deixando ele escravo daquilo. Ele passa a agir mais pela emoção e pelo impulso do que pela razão e pelo equilíbrio”, afirma.

E assim, como acontece com outras dependências, até mesmo químicas, quando o jogo é interrompido abruptamente, a falta desse estímulo artificial resulta em sofrimento físico e mental. “A interrupção abrupta das apostas gera uma síndrome de abstinência real, caracterizada por irritabilidade intensa, insônia, inquietação e sintomas físicos e emocionais de ansiedade, sensação de vazio, muito semelhante à dependência química com uma substância ativa”, adverte Heyde.

O enfrentamento do problema

Clinicamente, o impacto real das bets na vida do indivíduo é o que divide o jogador “social” daquele que já desenvolveu o chamado Transtorno do Jogo. “Todo comportamento ou substância que se tornam dependências se baseiam no mesmo conceito: prejuízo funcional (financeiro, familiar, trabalho, tempo gasto, por exemplo), mas mesmo assim o comportamento é mantido. Algumas pessoas não percebem o prejuízo, outras percebem, mas a fissura altera o autocontrole”, diz Heyde.

O especialista faz inclusive uma ressalva quanto aos critérios diagnósticos tradicionais, que precisam se ajustar à velocidade atual imposta pelas bets nos celulares. “Os manuais diagnósticos incluem o acompanhamento da perda financeira, tentativas frustradas de parar e mentiras, por um período de 12 meses. Mas esse tempo é altamente questionável, visto que existem diversos casos de patrimônios dilapidados em poucos meses.”

O enfrentamento do transtorno é complexo e exige cuidados especializados. “Não existe nenhum medicamento aprovado pelos órgãos regulatórios. O principal é o tratamento comportamental, multidisciplinar, mas alguns medicamentos podem ser utilizados. O mais estudado é a naltrexona, que serve como um inibidor do estímulo do mecanismo de recompensa”, finaliza o professor da PUCPR.

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