
Nas ruas esburacadas da Vila Ana Maria, em Colombo, região metropolitana de Curitiba, uma criança portadora de paralisia cerebral viaja amarrada à poltrona, amparada por alguns travesseiros que improvisam uma proteção contra o sacolejar do microônibus. Ela e mais 45 alunos com diferentes deficiências dependem desse veículo, desprovido de equipamentos básicos de conforto e segurança, para chegar à escola especial. O transporte também não é garantido todos os dias, porque freqüentemente o ônibus quebra e as crianças ficam aguardando socorro mecânico às margens da BR-116.
"Na última quinta-feira, meu filho chegou em casa às oito da noite porque furou um pneu", relata Mariane Ferreira de Carvalho, mãe de uma das crianças, destacando o atraso de três horas. "O freio não funciona direito, o motorista já ficou com o câmbio na mão. Meu filho já ficou uma semana sem ir para a escola porque o microônibus estava na oficina", conta. "Hoje perguntei pro motorista como estava o freio e ele respondeu que estava mais ou menos", ressalta Júlia Alcântara, mãe de outra criança.
Quando está funcionando, o microônibus faz o transporte de alunos da Escola Especial Santa Gema Galgani são 23 crianças no turno da manhã e outras 23 à tarde. O veículo é cedido pela prefeitura e também é gratuito, como prevê a lei orgânica do município, mas suas condições gerais são precárias: quando a equipe de reportagem entrou no veículo, constatou a ausência de cintos de segurança tanto para os passageiros quanto para o motorista. O sistema elétrico interno estava em curto, e vários buracos "decoravam" o painel do motorista. Apoiada no pára-brisa, uma garrafa de refrigerante cheia de água representava uma sutil garantia de que o radiador continuaria funcionando.
Além das más condições mecânicas do veículo, chamava a atenção o fato de se tratar de usuários que efetivamente precisam de equipamentos especiais de acessibilidade, como rampa para acesso, corrimão e cintos de segurança delicados. Apesar de alguns terem autonomia de locomoção, pelo menos sete das crianças do turno da tarde precisam ser carregadas no colo para subir e descer do ônibus. A assistente da escola que acompanhava os passageiros preferiu não dar declarações à equipe, mas muitas vezes precisou da ajuda de terceiros para erguer os deficientes pela estreita escada. As crianças mais frágeis são amarradas à poltrona pelas próprias mães, para evitar que se machuquem no balanço do veículo.




