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"Programação especial"

O que mostra (e o que omite) o documentário do 8 de janeiro do STF

Produção do STF busca fragilizar funcionários que estavam presentes no 8/1 e omite grupos de manifestantes que não praticaram vandalismo. (Foto: LUIZ SILVEIRA/STF)

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“Atenção! Este documentário contém cenas de [...] atentados à democracia”. É com essa frase, em fundo preto, que começa o documentário “8 de janeiro: Mãos da reconstrução”, lançado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no último dia 8. A produção não surpreende: segue a linha de outras iniciativas que buscam atribuir heroísmo à Corte, ignorando circunstâncias de manifestantes condenados a 17 anos de prisão por se abrigarem ou orarem dentro dos prédios públicos invadidos.

Produzido pela TV Justiça, o filme apresenta depoimentos de funcionários que estavam no prédio durante os atos, como vigilantes, bombeiros civis e profissionais da limpeza. A estética escolhida – com imagens da manifestação projetadas sobre o rosto dos entrevistados – reforça o tom cinematográfico que tenta transformar os atos de vandalismo em tentativa de golpe contra a democracia. O intuito da produção não é informar, mas consolidar a imagem política do STF como protagonista do “combate a golpistas”.  

“Esse documentário me parece mais uma ação institucional totalmente inadequada”, avalia Alessandro Chiarottino, professor de Direito Constitucional e doutor em Direito pela USP. Ele acrescenta que não cabe ao STF fazer documentários em defesa de si mesmo. “A Corte não é uma empresa que precisa fazer marketing para ganhar mercado dos concorrentes. A função do tribunal exige uma sobriedade e uma autocontenção que não se coadunam com a propaganda”, completa.

A produção integra uma série de eventos organizados pelo STF para relembrar o 8 de janeiro.

Produção foca em imagens que reforçam narrativa de golpe

“A qualidade audiovisual é péssima. Parece que foi editado por alguém que nunca trabalhou com montagem. Documentário, vale lembrar, é gênero cinematográfico e, como tal, precisa ter forma. ‘8 de Janeiro: Mãos da reconstrução’ não é um documentário. É ruim até como filme de propaganda”, critica Ian Maldonado, cineasta e documentarista.

O documentário é voltado a relatos de profissionais que estavam trabalhando naquele dia ou atuaram na limpeza e restauração, descrevendo suas experiências. Há cenas impactantes, como a de vândalos utilizando gradis para quebrar portas de vidro. No entanto, outras imagens ficaram de fora, como a da ex-estudante de medicina da USP, Roberta Jérsyka, que comprovou, com as imagens das câmeras de segurança, ter apenas orado durante o trajeto que fez dentro das instituições públicas.

Vídeos publicados na internet mostram também manifestantes felizes ao verem policiais dentro dos prédios e acatando as ordens com naturalidade, o que indica que havia grupos com posturas distintas: alguns destruíam estruturas públicas, outros não.

Durante as primeiras etapas das investigações, Flávio Dino, então ministro da Justiça e atualmente membro da Corte, informou que as imagens das câmeras de segurança haviam sido perdidas por "razões contratuais". Das 185 câmeras instaladas, o ministro entregou registros de menos de dez.

Fragilidade dos funcionários é explorada

As falas enfatizam o medo da aproximação dos manifestantes, que não poderiam ser contidos, e destacam a destruição dos prédios públicos. "Lembrando que o STF é 360 graus vulnerável. Não tem como você proteger isso aqui com 70 homens. Utilizamos de todos os recursos não letais e conseguiram romper. Restou pra nós a marquise”, afirma um agente policial judicial no filme.

Mensagens trocadas entre um dos vigilantes e sua mãe, revelando a preocupação materna, aproximam o espectador da sensação de medo. “A gente tenta acalmar as suas mães, então você não vai falar que você está na linha de frente. Mas a gente estava”, enfatiza um entrevistado.

Segundo Maldonado, a escolha de entrevistados de cargos de baixo escalão aproxima o público do acontecimento, enquanto a presença do agente policial judicial dá tom de ordem e segurança. “Fica evidente que a produção tenta sugerir que os manifestantes do dia 8 não apenas eram mais numerosos, mas atuavam como estrategistas militares. Enquanto os funcionários do STF aparecem como criaturas frágeis e indefesas, que supostamente foram pegas de surpresa”, avalia.

Discurso político de Rosa Weber e “abraço coletivo” finalizam produção

Após cenas de vandalismo, surgem imagens de reconstrução e a narrativa passa a reforçar a ideia de pertencimento ao STF. Os entrevistados relacionam o prédio como uma “segunda casa”.

“Porque todo mundo encarou como se fosse a própria casa. Quebraram a nossa casa, destruíram a nossa casa. Vai ser difícil lá, mas a gente vai conseguir”, diz um funcionário. Em seguida, outro completa: “Todos aqui tiveram que unir. [...] Então, nesse exato momento, eu vi que nós somos o Supremo. Nós representamos o Supremo”.

O encerramento traz o discurso em tom político de Rosa Weber, na sessão solene de abertura dos trabalhos do STF, classificando os atos como uma “invasão criminosa” realizada “por uma turba insana movida pelo ódio e pela irracionalidade”. Imagens em câmera lenta, trilha sonora épica e funcionários formando uma corrente em volta do prédio dão à produção um tom vitorioso.

Maldonado explica que esses elementos deixam claro o caráter político da obra. “A fala da Rosa Weber, que aparece como sentinela da democracia, e o ‘abraço coletivo’ ao redor do prédio do STF sintetizam bem o caráter político e performático que foi assumido pela própria Corte. Tudo ali é uma pantomima. É a mesma afetação histérica dos hippies que abraçam árvores”, conclui o cineasta.

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