• Carregando...
Dona Juril comemorou o aniversário de 91 anos no Castelo do Batel, em maio. Estava, como sempre, muito elegante e ficou firme, em pé, na porta do castelo para recepcionar todos os convidados | Iko Eventos
Dona Juril comemorou o aniversário de 91 anos no Castelo do Batel, em maio. Estava, como sempre, muito elegante e ficou firme, em pé, na porta do castelo para recepcionar todos os convidados| Foto: Iko Eventos

Opinião

Entrevista à base de bolo e música clássica

Durante a entrevista para a produção do livro Todo dia nunca é igual, que conta a história da Gazeta do Povo, Juril Carnasciali abriu uma cortina que escondia dezenas de diplomas. Eram provas físicas da participação dela em eventos realizados em pontos variados do país. Juril viajava, e muito. Falou sobre o tempo em que ajudava a família na Editora Guaíra e comentou que recebia os originais, de autores como Dalton Trevisan e Rubem Braga. Ao mesmo tempo, perguntava se os repórteres, o José Carlos Fernandes e eu, estávamos com fome. Ofereceu comida, bolos, café, suco, água. Não parava de falar. Não foi preciso fazer perguntas. Ela contou, em linearidade, mas com alguma precisão, a história de seu pai, Plácido e Silva, um dos fundadores da Gazeta do Povo. Como se mudasse de assunto, foi até o piano, que estava na mesma sala onde conversávamos, sentou em um banco. Aquela senhora loquaz executou com vitalidade uma música clássica, sem partitura. Imediatamente após a última nota, fecha o tampão do piano e retoma as memórias, comentando que foi uma das primeiras mulheres a circular em uma redação no Paraná. Demonstrava admiração de ídolo pelo pai. Parecia, mais que tudo, disposição para viver, estar no mundo. Contou piada, nos ofereceu comida para levarmos para casa. Me considerou magro demais e insistiu para eu levar para casa bolos e até salgado. Não levei, mas saí daquele apartamento com a sensação de que eu tinha tido a oportunidade, rara, de conhecer uma personagem de um tempo que parece não existir mais.

Marcio Renato dos Santos,jornalista

Opinião

Foi um grande prazer tê-la conhecido

Dona Juril, como costumava chamá-la, sempre foi gentil, atenciosa e com muita história de vida para contar. Poderia se sentar ao lado dela por horas para ouvir causos interessantes, engraçados ou sérios. Com memória privilegiada, ela trazia para a roda de conversa detalhes da infância que espelhavam uma outra Curitiba.

Meu último contato com ela foi na cobertura que fiz do aniversário dela, comemorado com uma festa para amigas, no Castelo do Batel, no fim de maio deste ano.

Alegre e faceira, aguentou firme, em pé, na porta do Castelo, para receber todas as amigas. Por mais que o cerimonial e a família insistissem para que ela se sentasse, em pé era a posição mais honrosa para receber quem lhe queria bem.

E como a queriam. Abraços, beijos e afagos não foram poupados. E ela toda faceira, impecável (no tailleur, na maquiagem e no cabelo) comentava a linda festa e que, em breve, seria bisavó.

Lembro de, ao fim da festa, ela olhar a pilha de cobertores dados pelas amigas, como "presente", e dizer que muita gente seria ajudada neste inverno graças à generosidade das que estiveram lá. Bons momentos para guardar. Um evento sem ela, principalmente se fosse beneficente, não tinha o mesmo peso ou importância. Sua figura colocava a solidariedade como elemento das boas relações humanas.

Marialda Pereira, jornalista

  • A jornalista Juril Carnasciali, filha de Oscar Joseph Placido e Silva, fundador da Gazeta do Povo
  • A colunista Juril Carnasciali era colaboradora da Gazeta do Povo há mais de 50 anos
  • Juril era filha de Oscar Joseph De Plácido e Silva
  • Desde a infância ela frequentava a sede da Gazeta do Povo
  • A colunista foi fotografada para reportagem dos 90 anos da Gazeta do Povo, em 2009
  • A colunista foi a primeira jornalista mulher em uma redação
  • Juril foi fotografada em seu apartamento, no Centro de Curitiba
  • Juril recebe homenagem no Shopping Crystal, em 2004
  • No escritório de casa, ela fazia a coluna semanal

Há pouco mais de duas semanas, a jornalista Juril Carnasciali, 91 anos, deu um "chega para lá" no mal-estar que a vinha perseguindo. Aviou-se, marcou salão – para manter a tradição do penteado impecável –, escolheu um traje clássico, de bom corte, e se preparou para um evento no Centro de Letras do Paraná. Eventos, afinal, eram sua especialidade por nada menos do que seis décadas – não seria uma tonturinha que a derrubaria. Era comum vê-la brincar com as amigas: "Hoje tenho 16 festas para ir", cifra impossível até para um campeão de triathlon. Além do mais, o compromisso daquele dia tinha sabor especial: era 12 de junho e Juril seria a homenageada numa instituição centenária, que chegou a dirigir.

Não fez feio. Ouviu a discurso emocionado da vice-presidente do Centro – a empresária e amiga Vânia França de Souza Emmes; discursou em seguida, como gostava; e antes que o encontro acabasse, ofereceu um bônus – tocou piano, deixando os convidados encantados com tanta vivacidade numa nonagenária. "Inigualável", resume Vânia, sobre aquela que foi a última grande aparição pública da decana do colunismo social no Paraná: Juril Carnasciali morreu no início da tarde de ontem, em seu apartamento, no Centro de Curitiba, em decorrência de complicações cardíacas. Era viúva. Deixa a filha Julieta e três netos.

Herdeira

É impossível separar a vida de dona Juril, como a chamavam, da trajetória de seu pai – o jornalista, empresário, advogado e intelectual Oscar Joseph De Plácido e Silva. O alagoano De Plácido teve quatro filhas com a paranaense Julieta Calberg – Jusil, Juril, Jusita, Juci. Mas era Juril uma espécie de extensão do homem que se tornou uma referência do mundo jurídico e fundador do mais longevo jornal paranaense, a Gazeta do Povo.

Foi fácil? Não. Ela seguiu a sina de impedimentos sofridos por outras herdeiras de jornais, cujo símbolo maior é Katharine Graham, do Washington Post. Mas fez avanços. Em 2009, num depoimento dado à Gazeta, por ocasião dos 90 anos de fundação da casa, Juril confidenciou que ela e o pai tinham tamanha identidade que mantinham mesas coladas no escritório da casa em que viviam, na Rua Dr. Muricy, 73.

De Plácido era seu formador e a teria apontado para a vida pública, livrando-a, em parte, dos espartilhos domésticos. Numa época em que mulheres não eram só raras nas redações, mas também malvistas se frequentassem um ambiente tão masculinizado, o advogado não só permitia que a filha trabalhasse como que frequentasse a Gazeta.

Foi desse modo que entrou para o jornalismo, em 1956, com a coluna "O que se passa na sociedade". Estreou bem – nada menos no ano de um dos casamentos do século, o de Grace Kelly com o príncípe Rainier. Em paralelo, participou da Guaíra, editora de sua família que chegou a ser, ao lado da Editora Globo, a mais importante casa publicadora do Sul do país. Tinha nada menos do que John dos Passos no seu cast.

Sua maior marca, contudo, acabou sendo o colunismo, cujo estilo cruzou a segunda metade do século 20. Embora conhecida por não mandar recados, no jornalismo imprimiu a marca da delicadeza, da etiqueta, do familismo. Chegou a publicar em sua coluna pequenos textos de Selene do Amaral di Lenna Sperandio, cujo codinome era "Mme. Felicidade". Não era ela, mas bem poderia ser: Juril tinha todos os requisitos para ser chamada assim.

"Ela conhecia as pessoas pelo nome. Acompanhava do batizado ao casamento", elogia a jornalista Nadyesda Almeida, filha do colunista Dino Almeida, com quem Juril dividiu o pódio da Gazeta por três décadas. Tinham estilos absolutamente diferentes. Juril era capaz de descrever os tafetás de seda pura de cada demoiselles d’honneur de um casamento. As mulheres da qual falava tinham modos de garotas do Sion. Dino não deixaria passar em branco uma "locomotiva" de trajes e personalidade incomuns. Mesmo assim, ele fazia questão de tê-la no júri do Glamour Girl. Ela jamais negava o regateio do amigo.

Os que a acompanhavam de perto sabiam de todas essas mil vidas de Juril. E viam outra mais – a da mulher dada à filantropia. "Visitou mais de 20 instituições de caridade em Curitiba. Adotou outras tantas", conta a amiga Marialva Pontes. Nos últimos anos, Juril pedia que não lhe dessem presentes no dia 13 de maio – data de seu concorridíssimo aniversário: que gastassem comprando alimentos e cobertores para os pobres. "Ela enchia Kombis com doações", lembra Vânia Emmes. Madame era assim.

Vídeo

Assista à entrevista com Juril de Plácido e Silva Carnasciali feita para a comemoração dos 90 anos da Gazeta do Povo, em 2009:

Galeria

0 COMENTÁRIO(S)
Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]