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Patrimônio

Era uma casa muito engraçada

Sem telhado? A primeira construção modernista de Curitiba deixou os cidadãos mais conservadores com a pulga atrás da orelha

  • Pollianna Milan
Arwed, herdeiro da primeira casa modernista de Curitiba |
Arwed, herdeiro da primeira casa modernista de Curitiba
 
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Ela foi tão incompreendida pelos moradores de Curitiba dos anos 1930, que os vizinhos chegaram a juntar dinheiro para dar a Frederico Kirchgässner. O objetivo? Dar à casa que o arquiteto edificara a decência de um telhado grande e inclinado. A verdade é que aquela residência da Rua Jaime Reis, no Centro, como afirmou o arquiteto Irã Dudeque em seu livro Espirais de Madeira, não parecia suficientemente séria aos olhos dos curitibanos. Uma casa sem telhado, apenas com laje e com pórticos emoldurando paisagens, só podia ser obra de alguém maluco. É que a provinciana Curitiba não tinha ideia do que era o modernismo que já aflorava na arquitetura europeia e tinha brotado na Semana de Arte Moderna em São Paulo. Em verdade, o modernismo por aqui, depois de Kirchgäsnner, só chegou lá pelos anos 50 e 60.

A relação que a população manteve com a obra foi bizarra. A porta de vidro com as duas janelinhas pequenas ao lado, que tinham o formato de uma cruz, fizeram com que os pedestres passassem se bezendo por ali, acreditando estar diante de uma igreja. Não tardou para que o alemão, indignado, transformasse a porta em janela e mudasse a entrada principal da casa para a lateral. “Várias pessoas paravam diante da obra em construção para perguntar o que era aquilo e aconselhavam que era uma estupidez investir dinheiro numa obra de aspecto tão medonho”, escreve Irã. Houve quem recomendasse a Kirchgässner um carpinteiro para resolver o problema da falta de telhado.

Ao mesmo tempo em que a casa assustava, a população também não se continha diante da curiosidade de saber o que havia no interior. É de se imaginar a reação dos curitibanos – que geralmente tinham a latrina, de madeira, nos fundos da residência – ao receber a notícia de que a casa de Kirchgässner dispunha de um banheiro ao lado do quarto do casal. Com um detalhe: tinha até banheira e armários embutidos, algo impensável para a época. “Quando fui estudante do Colégio Estadual do Paraná, anos depois de a casa ser construída, meus colegas pediam todos os dias para ir lá e conhecer o banheiro. A curiosidade ainda persistia”, conta Arwed, o filho mais velho de Frederico, herdeiro da casa modernista.

Quarto na entrada

A disposição dos cômodos foi mais um escândalo, digno de balançar as famílias tradicionalistas. Da porta de entrada principal da casa, o visitante se depara com o único quarto da residência, o do casal. As paredes listradas de cinza, azul, verde e com reflexos dourados dão o tom do ardente amor compartilhado pelos dois artistas e ao mesmo tempo primos – Frederico e Hilda – que parecem ter sido inspirados em musas gregas para criar o seu próprio ninho de amor. Sim, existe um único quarto nesta residência, o que pressupõe que o casal apaixonado não tinha planos de ter filhos. Mas eles tiveram. E foram dois. Arwed, o primogênito, dormiu os primeiros anos com os pais até que Frederico transformasse a sala de música em um quarto. Quando Frederico Rüdiger surgiu, não lhe restou outra alternativa, a não ser ficar com o ateliê do pai, no último andar da casa, que também foi adaptado para ser um dormitório. “Eu e meu irmão chegávamos depois das festas, animados, e precisávamos ir ao banheiro. Precisávamos passar pelo quarto dos pais e meu irmão, quando estava mais alegrinho, ainda tinha de se equilibrar bem para subir as escadas (de madeira) até o quarto sem fazer barulho”, conta Arwed, do terraço da residência que, desde 1963, deixou de ser um mirante para a serra do mar porque um edifício foi erigido no terreno vizinho.

Residência pode virar casa-museu

Não há arquiteto que se preze que não tenha ouvido falar ou visitado a casa Kirchgässner, localizada nas esquinas das Ruas Jaime Reis e Portugal, no Alto São Francisco. É uma referência isolada do modernismo em Curitiba nos anos 1930. O lugar lembra muito a casa do poeta chileno Pablo Neruda, outro inspirador modernista. Apesar de mais conhecida e muito visitada (está aberta ao público em geral), a casa Chascona de Neruda, que fica em Santiago, no Chilem, foi construída em 1953, bem mais tarde que a de Kirchgässner. As coincidências não param por aí. O alemão também adorava poesia e foi, a partir delas, que ele pintou diversos quadros com ares surrealistas.

A residência modernista de Curitiba, pioneira deste tipo na cidade, hoje é mantida pelo herdeiro Arwed, que tira do bolso o dinheiro que precisa para reparos. Por fora, ela sofre com a violência de Curitiba: está toda pichada e a cerca elétrica precisa ser revisada, porque ora ou outra é cortada. Por dentro, há pequenas infiltrações e alguns cupins que atacaram as escadas de madeira. Desde que a mãe, Hilda, se foi e deixou a casa vazia, em 1999, Arwed mantém a residência intacta e limpa. “Só não pinto mais por fora porque não sei o que fazer com tanta pichação”, lamenta.

O filho de Frederico, porém, anda com novas ideias e resolveu entregar a casa às mãos da arquiteta e restauradora Giceli Portela para que a residência possa ser restaurada e, quem sabe, vire uma casa-museu. “Ela só tem sentido do jeito que está, toda montada, com os móveis projetados por Kirchgässner. Será um sonho abri-la ao público”, diz Giceli. Hoje a residência é uma UIP (Unidade de Interesse de Preservação). A venda do potencial construtivo dela, porém, não seria suficiente para restaurar tudo. Por isso, Giceli entrou com um pedido na prefeitura para transformá-la em UIEP (Unidade de Interesse Especial de Preservação) – a venda do potencial, desta maneira, seria calculado em cima do custo do restauro, o que garantiria a recuperação integral do imóvel.

“A prefeitura tem interesse em ver esta casa restaurada. Não há mais impedimentos para transformá-la em UIEP”, explica Ana Márcia Gonzalez, da comissão de avaliação do patrimônio cultural de Curitiba.

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