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Será que esfria?

  • José Carlos Fernandes
 
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Anos atrás, durante um show no Teatro Avenida, os carioquíssimos Ro­­berto Menescal e Wanda de Sá deram uma pausa na cantoria para fazer um ritual que se repete entre os artistas “de fora”: incensar Curitiba. E o fizeram esbanjando bossa, no melhor do estilo um banquinho e um violão. Até que um deles se saiu com essa: “A cidade é bonitinha, mas a gente vira a esquina e não vê o mar”. Ai.

Pois é – ao contrário da maioria das capitais plantadas na Costa Brasileira – Curitiba não tem mar. Chego a pensar que teria sido esse o motivo do baita complexo de inferioridade que nos castigou até meados do século 20. Podíamos nos consolar pensando em São Paulo, Porto Alegre ou Teresina, igualmente privadas das benesses da praia, mas as três compensam a falta do oceano com rios largos e fundos: o Tietê, o Guaíba, o Poti e o Parnaíba.

Um a zero no placar: restava para nós o feio, sujo e malvado Rio Belém, que não bastasse ser sem graça vivia fazendo aguaceiro nos nossos paralelepípedos, estragando nossos assoalhos, enchendo de sapos nossos imensos quintais e traumatizando nossas galinhas. Vai ver, foi por castigo que o pobre do Belém entrou quase todo pelo cano, nos idos da década de 1960.

Quem nasceu na “era das canaletas” não sabe, mas num tempo não muito distante o esporte mais praticado por essas bandas era falar mal de Curitiba. Nem precisava se abalar à Boca Maldita. Bastava se debruçar no muro da vizinha e maldizer as jardineiras e as valetas, a Saúde Pública e a maloqueiragem à solta – da Praça Tiradentes à Rui Barbosa.

Não à toa, entre os antigos, há quem use a expressão “fulano é de uma maldade curitibana”. Faz sentido: suponho que na mesma conversa em que se descia a lenha na capital, feia como uma capivara recém-nascida, aproveitava-se para fofocar sobre o prefeito e o bispo, o polaco da Barreirinha e o forasteiro do Capão Raso.

A falta de encantos naturais mexia com os bofes da população. Tanto que de nada adiantava chamar a capital de “Cidade Sorriso” ou encher o peito para cantar o hino de Bento Mossurunga e Ciro Silva no pátio da escola (“Cidade linda e amorosa da terra de Guairacá. Jardim luz, cheio de rosa capital do Paraná.”). Da porta para fora, tinha friagem de sobra e calçada de menos. Como dizia Millôr Fernandes, ninguém sabia a etimologia da palavra “Curitiba”, apenas que, em bom guarani, “ritiba” significava “do mundo.” Hum, hum.

Creiam, a autoestima municipal foi recuperada a duras penas, com o uso da “lei da compensação”: onde a paisagem não compareceu, supriu-se com avenidas, parques, táxis laranjas, ônibus vermelhos e um gosto especial pela surpresa. Num dia se colocava o Bondinho da XV. Noutro um relógio de flores na Praça Gari­baldi. Noutro ainda se remontava uma bela moradia de lambrequins no melhor ponto da Rua José de Alencar.

Não se sabe ao certo quando se deu o milagre. O fato é que numa manhã chuvosa qualquer, o povo deu de achar Curitiba o maior barato. Acho que nesse dia paramos de chorar a falta de litoral e as temperaturas siberianas. E o Belém, guria, até que passa.

A propósito, não precisou de nenhum Nisan Guanaes para que transformássemos nossos maiores infortúnios – o frio, seguido de umidade e bolor –, na mais alta das glórias. Simples: primeiro abrimos uma farmácia em cada esquina. Depois, vestimos o gorro com pompom e enfrentamos a cerração. E vinde a nós os cariocas.

Não causa espanto que a foto de geada de Aniele Nascimento tenha sido eleita uma das sete maravilhas de Curitiba. Cá entre nós – é nossa paisagem interior. Nosso mar prateado. Ao vê-la, nos sentimos em casa.

Falando nisso, será que esfria?

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José Carlos Fernandes é jornalista e curitibano da gema

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Veja as 7 maravilhas de Curitiba:

1º Lugar: Lembrança das estepes (1.949 votos)

2º Lugar: Água que vem do céu (1.597 votos)

3º Lugar: Espelho, espelho meu (1.581 votos)

4º Lugar: Aos pés de um pinheiro (1.352 votos)

5º Lugar: Tomando fôlego (1.229 votos)

6º Lugar: Caleidoscópio urbano (1.014 votos)

7º Lugar: A florada dos ipês (1.013 votos)

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