Último caso ocorreu no domingo (9), próximo ao Palácio Piratini, sede do governo gaúcho | Fernando Teixeira/Futura Press
Último caso ocorreu no domingo (9), próximo ao Palácio Piratini, sede do governo gaúcho| Foto: Fernando Teixeira/Futura Press

Porto Alegre vive tempos de um despudor público e espetacular. O radar das conversas de grupos do WhatsApp, das timelines do Facebook e da audiência dos sites de notícias aponta para a mesma coisa: mulheres nuas correndo pelas ruas da capital gaúcha.

Foram três casos em 11 dias – o primeiro no Parcão, o segundo, na Terceira Perimetral, e o terceiro, no Centro. Este, do último domingo, não está esclarecido – não há registro na Brigada Militar, e uma testemunha relata ter sido uma corrida de pouco mais de uma quadra. Descartando a hipótese de uma ação publicitária, o que leva uma pessoa a tirar a roupa e correr na rua?

É um caso clínico?

"Não dá para dizer que todos são doentes ou que têm patologias mais definidas. Tem de tudo, inclusive doentes", diz o psiquiatra Gabriel Camargo. "Esse tipo pode precisar de alguma ajuda médica para recuperar o equilíbrio e a autoestima perdida por causa da exposição", completa.

A professora de psiquiatria da Faculdade de Medicina da PUCRS Nina Furtado recorre à teoria freudiana: as normas sociais e culturais que formam o superego (uma espécie de síndico chato do condomínio da mente) individual e grupal não aceitam a nudez pública e a reprimem. Expor os genitais é uma agressão à convenção cultural vigente.

"Existe um transtorno de exibicionismo, que é a exposição dos órgãos para chocar os outros. A necessidade de ser visto e chocar, que é uma forma de constranger, chamar atenção ou de controle sobre os outros pela nudez. No momento em que (a nudez) começa a causar algum tipo de sofrimento para a pessoa ou para outros, a exposição em excesso começa a entrar na área da doença", diz a professora.

Os dois psiquiatras concordam que a divulgação dos episódios de nudez na imprensa e nas redes sociais pode estimular o comportamento, mas é preciso que haja uma pré-disposição a esse tipo de postura, ou seja, que as pessoas já tenham uma vontade de se expor.

"Pode ser uma ansiedade social por notoriedade. Pessoas com nítidos traços neuróticos, muito desejosas de publicidade e sem muito controle dos impulsos. Os psicóticos, que estão fora da realidade, são os mais suscetíveis", diz Camargo.

Pode ser um protesto?

Para Nina Furtado, ficar nu como forma de protesto tem sentido porque traz bastante exposição para a mensagem. Os nus públicos grupais, segundo Gabriel Camargo, são mais um movimento de natureza sociológica do que patológica, que rendem compartilhamentos no Facebook e uns bons cliques aos portais de notícias.

Um exemplo que teve bastante repercussão foi a Pedalada Pelada, em dezembro do ano passado em Porto Alegre. Ciclistas andaram nus pelas ruas da cidade para, segundo eles, "mostrar a fragilidade daqueles que utilizam a bicicleta no trânsito".

E se for uma ação publicitária?

Ao contrário dos primeiros dois casos, a pelada que correu no Centro domingo não teve imagens registradas pelo público – há apenas aquelas feitas pelo fotógrafo da agência Futurapress Fernando Teixeira - que não atendeu as ligações da reportagem –, o que levantou a suspeita: seria o caso de uma ação de marketing? Marcelo Aimi, professor da pós-graduação da ESPM-Sul, acha estranho não haver mais referências, o que corrobora a tese de ação comercial.

"Se for uma campanha, é o momento do teaser, a marca lança uma peça de comunicação sem assinatura. Produz apenas o conceito", explica Aimi.

Caso seja revelada uma marca por trás disso, estaríamos diante da chamada ação de guerrilha, que usa poucos recursos e aposta em uma ideia inovadora capaz de chamar atenção da imprensa. "O objetivo é criar um viral e tornar a marca conhecida pelo compartilhamento de conteúdo pelo público". No entanto, o efeito pode ser reverso. "Tu estás trabalhando com a confiança. A pessoa compra isso como verdade e depois descobre que era mentira. Pode se sentir enganada. É uma estratégia de risco".

O que diz a lei

De certo modo, o Direito exerce o papel de superego oficial. "Nossa civilização tem uma forte influência cristã. A questão da obscenidade se torna aguda. Isso acaba se traduzindo na legislação", diz Lúcio de Constantino, advogado criminalista e professor universitário.

O artigo 233 do Código Penal Brasileiro diz que quem "praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público" pode receber pena de "detenção, de três meses a um ano, ou multa". Mas a lei, vale lembrar, é de 1940.

"Hoje, dificilmente alguém vai cumprir pena de prisão", garante Constantino. "Se (o nu) está correto ou não, é outra coisa".

Em entrevista ao programa Gaúcha Repórter, o advogado e professor universitário Rodrigo Moraes de Oliveira citou o caso de um porto-alegrense que saía para assobiar, nu, nos fundos de casa. Uma vizinha registrou ocorrência, mas a Justiça considerou que não havia espaço aberto ao público – era o quintal da casa do sujeito.

"A lei não é mais que a vontade do povo em determinada época", comenta o advogado e professor de direito penal Amadeu Weinmann. "Os hábitos mudam com a sociedade. Talvez, no futuro, a gente estranhe ver alguém vestido na rua. Hoje, a roupa ainda faz parte da prova da civilização".

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