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Educação

“Nós inventamos a reprovação”

Entrevista com José Francisco Soares, do Grupo de Avaliação e Medidas Educacionais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Sala de aula do Colégio Estadual Nirlei Medeiros: evasão dia após dia | Marcelo Elias/Gazeta do Povo
Sala de aula do Colégio Estadual Nirlei Medeiros: evasão dia após dia (Foto: Marcelo Elias/Gazeta do Povo)

Para o especialista em Educação José Francisco Soares, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), as retenções são uma criação brasileira. Além de combatê-la, o país tem de enfrentar outro problema – tornar o ensino médio interessante e não apenas uma revisão de conteúdos para o vestibular. "O adolescente olha para aquelas disciplinas e percebe que aquilo não tem conexão com a realidade dele. Por isso, desiste." Confira trechos da entrevista dada à Gazeta do Povo.

Qual a sua percepção sobre o ensino médio no Brasil?

A primeira coisa é nos perguntarmos qual a porcentagem de jovens entre 14 e 18 anos que está no médio. É um número muito baixo. Municípios onde a taxa é maior chegam a ter 65% dos adolescentes matriculados. É pouco, temos muito a avançar.

Por que a taxa de distorção série e idade é tão grande?

O problema está no ensino fundamental, no qual temos uma retenção enorme de alunos. A reprovação sinaliza que algo não está funcionando. Digo que ela é uma invenção nossa. Em outros lugares do mundo, a criança recebe a atenção que precisa na medida em que tem problemas de aprendizado. Quando um sistema não consegue fazer com que o aluno aprenda, por algum motivo o sistema está falhando.

As porcentagens mostram que muitos adolescentes não se mantêm no ensino médio. Por quê?

Nosso ensino médio está direcionado para ser um ensino generalista. O problema é que estamos aprendendo Física, Química, Biologia porque existe um vestibular no meio do caminho. É pura decoreba. Mas entrar na universidade não está nos planos de todos os jovens brasileiros. A maioria consegue um emprego em um supermercado, oficina e abandona os estudos porque não percebe conexão daquilo que aprende com a vida em que vive. Em outros países, apenas 30% dos alunos estão na proposta de ensino generalista. Os outros freqüentam o ensino técnico (profissionalizante): só que isto no Brasil é complicado, porque significa ter um salário baixo. Você faz Administração na escola particular da esquina e sabe que não vai ganhar mais de R$ 900. O currículo disciplinar brasileiro atende à formação que leva ao vestibular. Em outros países há um ensino médio diversificado.

O senhor é a favor de tornar obrigatório o ensino médio?

Sobre isto não há dúvidas. É obvio que existem as conseqüências, como ofertar o ensino gratuito a todos. Mas se faz necessário. Nossa sociedade se tornou razoavelmente complexa. As pessoas que não têm ensino médio encontram dificuldades de inserção no mercado, independentemente do que vão fazer. Sou a favor, entretanto, de um novo modelo de ensino para que este se torne obrigatório.

Como seria o novo método de ensino? O que será preciso fazer para que ele seja atraente?

Não sou um especialista em Currículo, mas em avaliar os resultados. Quando vejo que 30%, 40% da população está desistindo do médio, falo que tem alguma coisa errada. Tem um filme feito aqui em Belo Horizonte em que acontece um diálogo muito interessante. Os jovens dizem: "Nossa escola, sempre nos ensinando o que não queremos aprender". É bem complicado ir para a escola e estar submetido a um tipo de programação que não tem conexão com o que se pretende. Recentemente, temos falado do acelerador de partículas que está em teste na fronteira entre Suíça e França (o equipamento pode viabilizar descobertas notáveis e tem o objetivo de reproduzir, em laboratório, a origem do Universo). A Ciência poderia nos dar uma idéia melhor de como estas coisas funcionam, ao invés de ficar resolvendo exercícios de química orgânica. É claro que alguém tem que saber sobre química orgânica, mas não é preciso que todos saibam. Precisamos ter esta formação mais científica que esteja ligada ao mundo em que vivemos.

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