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Traços de Freire

Plano de Augusto Cury para educação troca conteúdo por gestão da emoção e método soft

Com avanço nas pesquisas, o candidato à presidência Augusto Cury (Avante) propõe método SOFT e gestão da emoção para reformar a educação. (Foto: Andre Borges/EFE)

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Enquanto a educação brasileira enfrenta dificuldades em habilidades básicas como leitura e matemática, o presidenciável Augusto Cury propõe uma reformulação pedagógica centrada na gestão da emoção, no protagonismo estudantil e na participação em sala de aula – uma abordagem com semelhanças às correntes defendidas por Paulo Freire.

O psiquiatra e escritor Augusto Cury, candidato à presidência da República pelo Avante, alcançou 11% nas intenções de voto no cenário estimulado da pesquisa Nexus/BTG Pactual divulgada no final de agosto.

Na comparação com a pesquisa Nexus/BTG Pactual divulgada em 24 de agosto, Cury tinha avançado nove pontos percentuais. A alta em apenas uma semana colocou suas propostas de governo sob os holofotes.

A premissa central do plano no âmbito educacional é que a crise brasileira não decorre apenas do desempenho acadêmico dos estudantes, mas também da formação emocional e comportamental. A partir desse diagnóstico, Cury propõe mudanças pedagógicas, curriculares e estruturais.

No plano de governo com estética e conceitos de livro de autoajuda, o candidato defende uma reformulação pedagógica baseada no chamado método SOFT, desenvolvido por ele ao longo da carreira como escritor e psiquiatra. Na sala de aula idealizada pelo método desenvolvido por Cury, o professor deve despertar a dúvida inteligente e estimular a curiosidade dos alunos. A memorização e a repetição mecânica de conteúdos seriam substituídas por atividades voltadas à resolução de problemas, debates e incentivo à criatividade.

“O professor não elogiará apenas quem acerta. Valorizará quem pergunta, tenta, coopera, argumenta, cria e participa. [...] O elogio saudável à participação combate a cultura da comparação e fortalece o sentimento de pertencimento”, afirma o documento.

A proposta parte da ideia de que o desenvolvimento intelectual depende menos da transmissão de conteúdo e mais da capacidade do aluno de refletir, questionar e participar. Essa abordagem vai na direção oposta a modelos de ensino mais estruturados, que, comprovadamente, possuem resultados mais positivos.

Uma meta-análise publicada em 2018 na Review of Educational Research, reunindo 50 anos de pesquisas sobre o método de instrução direta, concluiu que abordagens baseadas em instrução explícita do professor produziram ganhos significativos em áreas como leitura e matemática.

Indicadores internacionais expõem crise da aprendizagem brasileira

Enquanto o método soft enfatiza gestão da emoção, participação e protagonismo estudantil, avaliações internacionais mostram que a educação brasileira ainda enfrenta dificuldades em competências elementares. O país aparece entre os piores colocados em exames internacionais como o PIRLS e o TIMSS, que medem habilidades fundamentais de leitura, matemática e ciências.

No PIRLS 2021, que avalia leitura, o Brasil apareceu entre os últimos colocados em comparação a outros países. No TIMSS 2023, mais da metade dos alunos do 4º ano ficou abaixo do nível básico em matemática. Os resultados evidenciam que uma parcela expressiva dos estudantes ainda não domina habilidades essenciais de leitura, escrita e cálculo nos primeiros anos da educação básica.

Nesse contexto, as propostas de Cury guardam semelhanças com correntes pedagógicas centradas no protagonismo estudantil, incluindo aspectos associados à pedagogia de Paulo Freire. Ambas criticam o modelo tradicional de ensino baseado na transmissão unilateral de conhecimento, conferindo ao professor o papel de mediador do aprendizado.

Para ambos, o estudante deve assumir um papel ativo na construção do conhecimento. Outro ponto de convergência é a valorização do diálogo como instrumento para fortalecer a relação entre professores e alunos e estimular a reflexão crítica em sala de aula.

Educação financeira e empreendedorismo compõem o plano

A filosofia educacional proposta por Cury não se restringe à dinâmica da sala de aula. Ela também orienta mudanças na organização das escolas e no conteúdo ensinado aos estudantes.

A proposta para as escolas em tempo integral – modalidade que está crescendo em âmbito federal e estadual – prevê a criação de unidades com identidade de "Clube de Desenvolvimento Humano". O tempo adicional na escola seria utilizado para transformar o ambiente escolar em um espaço de pertencimento e criatividade, com atividades voltadas à oratória, debates, teatro, música, esportes, práticas de reconhecimento entre os alunos e eventos culturais.

Sobre o ensino médio, que passou por recentes mudanças nos últimos anos, Cury defende que o período não seja focado em vestibular, mas na formação técnica, na preparação para o trabalho e na construção de projetos futuros.

A reestruturação também transformaria os currículos escolares a partir de três pilares: gestão da emoção, educação financeira e empreendedorismo. Buscando desenvolver “equilíbrio psicológico, decisões econômicas responsáveis ao longo da vida e inovação no surgimento de oportunidades para começar o próprio negócio”. 

Augusto Cury também foca em carreira de professores

Apesar das inovações no campo socioemocional e nas mudanças pedagógicas, o plano de Cury também inclui propostas presentes em programas educacionais de outros candidatos, como alfabetização na idade certa e valorização dos professores.

Uma das prioridades de um eventual governo Cury seria garantir a alfabetização nos primeiros anos escolares. O documento descreve essa etapa como estratégica para a transformação da educação e a ampliação das oportunidades de desenvolvimento econômico e social do país.

Os professores também ocupam posição central na proposta. Cury afirma que a categoria enfrenta um cenário de desvalorização, sobrecarga e pressão constante. Entre as medidas previstas estão ações tradicionais, como melhorias salariais e de carreira, além de iniciativas ligadas ao Método SOFT, voltadas à redução do estresse e ao fortalecimento da saúde emocional dos educadores.

Metodologia das pesquisas citadas:

  • Nexus/BTG Pactual 24/8/2026: 2.006 entrevistados pelo instituto Nexus de 21 a 23 de agosto de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Banco BTG Pactual. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE nº BR-09028/2026.
  • Nexus/BTG Pactual 31/8/2026: 2.005 entrevistados pelo instituto Nexus de 28 a 30 de agosto de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Banco BTG Pactual. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE nº BR-08900/2026.

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