Entre as rodovias federais que podem ser repassadas para o governo do Paraná estão dois trechos da BR-476, como o que liga Curitiba a Adrianópolis.| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

A decisão de aceitar R$ 122,8 milhões do governo federal em 2002 pode custar caro agora para o Paraná. Em troca do dinheiro, o governo estadual, à época, concordou em receber a responsabilidade de cuidar de 945 quilômetros de rodovias federais. O governo atual não quer aceitar o “presente de grego”, combinado há mais de uma década. Os gastos seriam bem maiores do que os valores repassados. A estimativa é de que seriam gastos R$ 200 milhões ao ano para fazer a manutenção dos trechos. Em 2002, o governo estadual recebeu o equivalente a R$ 265 milhões (em valores corrigidos pela inflação).

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INFOGRÁFICO: Veja o mapa das rodovias

Trecho da BR-476 está em obras, que podem ser suspensas.  
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Crise econômica

O governo estadual vive um dos seus piores momentos financeiros. O Paraná alega não ter recursos para pagar despesas básicas e não está investindo em grandes obras de infraestrutura. Não teria dinheiro para arcar com um gasto adicional: a manutenção de mais rodovias.

Mas estas eu quero

Enquanto o governo do Paraná rejeita a ideia de assumir algumas rodovias federais, negocia para que outras sejam estadualizadas. São 1,8 quilômetros de BRs que fazem parte do Anel de Integração, para a negociação de prorrogação dos contratos de pedágio.

Anel de Integração

Nenhum trecho do Anel de Integração (que forma o sistema paranaense de concessões) está entre as rodovias federais que poderiam ser estadualizadas por força da Medida Provisória 82. É que o acordo foi fechado em 2002, cinco anos após à formação do Anel.

O prazo para que as estradas sejam estadualizadas vence em 31 de dezembro de 2015. O caso pode ter reflexos imediatos, como a suspensão de obras em andamento. Algumas ações de recape, terceiras-faixas e operações tapa-buracos estão sendo executadas. Também os policiais rodoviários federais que atuam nessas rodovias podem ser transferidos. Outro efeito colateral seria o enfraquecimento, no Paraná, do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). O órgão federal – que acabou de ser reforçado com a contratação de servidores por concurso público – ficaria responsável por menos de 700 quilômetros no estado.

O Paraná é um dos “prejudicados” pelo acordo firmado em 2002. Outros 14 estados também aceitaram dinheiro em troca de rodovias federais. Minas Gerais, por exemplo, deve “herdar” seis mil quilômetros da malha federal. Ao total, 14,9 mil quilômetros seriam estadualizados em todo o Brasil. Diante da determinação de absorver uma malha rodoviária em estado precário, cujos investimentos necessários seriam extremamente maiores do que os recursos repassados, o Paraná entrou na Justiça para contestar o acordo. Contudo, ainda não houve uma decisão sobre o assunto.

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A coordenadora de Gestão de Planos de Programas da Secretaria Estadual de Infraestrutura e Logística, Rejane Karam, comenta que não há vantagem nenhuma para o Paraná em herdar as rodovias federais.

Segundo ela, o fluxo de veículos é baixo e não comportaria concessões à iniciativa privada. Assim, o estado precisaria suportar todo o custo de manutenção. Rejane argumenta ainda que os trechos a serem estadualizados foram escolhidos sem qualquer critério. Há áreas de fronteira, na região Oeste, próximos a Guaíra, e outros que estão em corredores federais de escoamento de safra.

Trecho prestes a ser pedagiado está entre os que podem ser estadualizados

Entre as rodovias federais que podem ser estadualizadas – caso nada reverta os efeitos da Medida Provisória 82 – está a ligação entre a Lapa e Paula Freitas, pela BR-467. O trecho foi oferecido à iniciativa privada no mais recente pacote de concessões do governo federal. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) abriu para consulta pública, no dia 14 de julho, o edital para consulta o corredor de 460 quilômetros da Lapa a Chapecó. Contudo, caso haja empresas interessadas em administrar a via e a concessão seja mesmo feita, a rodovia não poderá ser estadualizada. Ainda não está claro se o governo federal pretende trocar o trecho por outro.

O dinheiro repassado pelo governo federal deveria ser aplicado na realização de obras de infraestrutura no Paraná. Contudo, o repasse da verba não era vinculado – ou seja, caiu na conta do estado e pode ter sido aplicado para pagar qualquer despesa. A Gazeta do Povo procurou Wilson Justus Soares, secretário estadual de Transportes em 2002, que disse não lembrar os detalhes sobre a negociação e que acredita que os valores foram aplicados em obras.

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Bancada federal promete se articular para reverter decisão

Além da Justiça – que poderia avaliar os processos que questionam a legalidade do acordo – somente duas ações seriam capazes de impedir que os estados sejam obrigados a assumir, no fim do ano, 14,9 mil quilômetros em rodovias federais. Seria necessário alterar, no Congresso, a Medida Provisória 82 que estabelece a troca ou apresentar e votar um projeto de lei, anulando os efeitos do negócio fechado em 2002.

O líder da bancada do Paraná na Câmara Federal, deputado João Arruda (PMDB), ao ser informado da situação pela Gazeta do Povo, disse que vai mobilizar a base parlamentar para evitar a transferência das rodovias (com um projeto de lei ou com pressão para mudar a Medida Provisória). “Não faz sentido, num momento desses de crise, o estado ficar com essa responsabilidade que representa apenas mais despesas”, declarou. Ele pretende também articular as demais bancadas, já que a situação envolve 15 estados.