
A diferença de preço entre uma droga e outra e o perfil do traficante de cada uma delas criaram uma divisão de classes no mercado de entorpecentes. Crack e maconha são mais populares entre usuários de baixa renda, consumidos na rua mesmo, enquanto ecstasy e LSD são mais comuns entre viciados das classes média e alta, em casas noturnas e festas rave.
O perfil do traficante segue esse padrão. O tráfico de drogas populares é regido por homens e mulheres pobres, de baixa escolaridade, cujo ingresso no mundo do crime se dá, em geral, pela dificuldade de acesso ao mercado de trabalho. Já o de drogas sintéticas é feito por gente de alta escala social. De acordo com a Polícia Federal, este é jovem de classe média, tem entre 20 e 27 anos, em geral cursa universidade, não trabalha e é sustentado pela família, trafica para poder consumir as pílulas e viaja muito. Costuma comprar as pílulas na Holanda, Espanha e Inglaterra.
Uma das maiores ações de combate a esse tipo de drogas se deu em março do ano passado, com a apreensão de 3 mil comprimidos de ecstasy e 3 mil micro-pontos de LSD trazidos da Espanha e da Holanda. Foram presos quatro homens e duas mulheres com idade entre 23 e 36 anos, todos moradores de bairros nobres da capital. Eles venderiam a droga para pessoas de alto poder aquisitivo em casas noturnas. A polícia também apreendeu R$ 30 mil e 600 euros em dinheiro, haxixe e dois quilos de cocaína.
Seis meses antes, a polícia já havia desmantelado outra quadrilha que distribuía drogas sintéticas em casas noturnas e raves em Curitiba. Três homens foram presos em Curitiba, um em Colombo e uma mulher em Guarapuava. Entre os presos estavam um bailarino de casa noturna, um organizador de eventos e um estudante de Direito, apontado como um dos principais fornecedores de ecstasy nas festas noturnas realizadas na capital.
Em novembro de 2006, uma operação integrada da polícia prendeu em Curitiba e no Rio 10 pessoas que atuavam havia três anos nos estados do Rio, São Paulo, Goiás e Paraná. A quadrilha era formada por jovens de 26 a 28 anos de classe média e só em Curitiba vendia 3 mil comprimidos por semana. Eles atuavam como mulas, agenciadores, vendedores e financiadores do tráfico de LSD e ecstasy. Usavam as redes de relacionamentos na internet para divulgar e vender as drogas. Eles levavam cocaína e trocavam por ecstasy e LSD na Holanda.
Consumidores
Conforme pesquisa divulgada em 2007 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), quem se declara consumidor de droga no Brasil é jovem, homem, solteiro e seis entre dez são da classe A. De acordo com o levantamento O Estado da Juventude: Drogas, Prisões e Acidentes, 86% deles têm entre 10 e 29 anos, 99% do sexo masculino. O trabalho foi embasado na Pesquisa de Orçamento Familiar do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), de 2003. A pesquisa levou em conta quatro tipos de drogas: maconha, cigarros de maconha, lança-perfume e cocaína. Foram ouvidas182 mil pessoas em todo o país.
O economista Marcelo Néri faz uma ressalva ao estudo que coordenou. Para ele, a percepção de impunidade pode fazer com que os usuários mais ricos tenham menos medo de se expor do que os mais pobres. No estudo, ele defende que os governos estaduais tenham autonomia para elaborar políticas direcionadas aos jovens em pelo menos três áreas: ensino médio, segurança pública e trânsito. "Seria muito importante que deixassem os estados mudarem o parâmetro da sua legislação estadual sobre trânsito e violência para a gente até aprender em termos nacionais e ter uma noção do impacto da medida."







