
A mão amiga da Justiça tornou-se o melhor remédio no combate ao uso de drogas. Das 388 pessoas atendidas num projeto inovador do Juizado Especial Criminal de Curitiba no período, apenas seis voltaram à côrte por consumo de entorpecentes. A reincidência caiu de cerca de 70% para 1,54% nos anos de 2005 e 2006, segundo o Tribunal de Justiça (TJ). O resultado é fruto da Oficina de Prevenção ao Uso de Drogas, que nasceu há cerca de dois anos e meio e se tornou referência no país. Hoje, no Dia Nacional de Combate às Drogas, a boa notícia é que o projeto será adotado no Rio de Janeiro, Espírito Santo e Santa Catarina.
A receita do sucesso são os cinco encontros semanais para trabalhar o problema. Neles a pessoa recebe ajuda, ouve testemunhos, assiste a palestras com médicos, psicólogos e assistentes sociais. Depois, vem a reflexão sobre os efeitos negativos das drogas e ajuda para reconstruir a vida. Na conclusão, o usuário recebe do juiz um certificado de multiplicador, que o habilita a trabalhar o tema com outras pessoas.
Big Brother
Foi o caso do ex-big brother Edílson Buba, que morreu de câncer no estômago ano passado. Ele freqüentou a oficina, tornando-se multiplicador. Logo após o Big Brother de 2004, Buba foi detido com 18 comprimidos de ecstasy e cinco gramas de maconha. Passou 95 dias na prisão, mas a Justiça entendeu que ele era apenas usuário. Depois de solto fundou a ONG Vida Limpa, Vida Livre e virou voluntário da oficina.
Repercussão
O projeto ganhou notoriedade a partir da sua apresentação no 21.º Fórum Nacional dos Juizados Especiais (Fonaje), em Vitória (ES), que terminou no início do mês. A repercussão o transformou em projeto piloto da Secretaria Nacional Anti-Drogas, a partir do segundo semestre deste ano, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP).
De acordo com o magistrado Roberto Portugal Bacellar, juiz-auxiliar da 2.ª vice-presidência do TJ, a oficina também conquistou a confiança de seus freqüentadores. "Ela é tão importante que um usuário foi ao meu gabinete e pediu para voltar. Ao verificar a situação, descobri que ele tinha recaído e o caso ainda estava na delegacia, mas ele resolveu se antecipar e pedir ajuda", afirma. O juiz é um dos idealizadores do projeto.
Já a psicóloga Karin Andrzejewski dos Santos, da equipe multidisciplinar que atua no juizado, diz que a meta é levar os usuários a refletir sobre o efeito dos entorpecentes. A equipe trabalha dentro da nova visão da política nacional sobre drogas, que alterou a lei antidrogas em 2006.
A reflexão já provocou efeitos na vida do pintor José (nome fictício), 30 anos, usuário de drogas há 15 anos. Ele esteve ontem no terceiro encontro no juizado, com a certeza de que vai mudar de vida, largar o crack e freqüentar o grupo de auto-ajuda Narcóticos Anônimos (NA). "Minha mulher falou que dos nossos sete anos de casamento, a situação melhorou muito nas três semanas que passei a freqüentar a oficina", revela.



