Fotografia parcial de tela de telefone celular, tendo ao centro o logotipo do aplicativo do Twitter.| Foto: Pixabay
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Às 13h02 de 9 de maio de 2022, a jornalista Paula Schmitt publicou um post em sua conta no Twitter a respeito dos testes da vacina da Pfizer. Poucas horas depois, recebeu a notificação de que não poderia publicar, nem curtir, nem compartilhar posts na rede social por um período de sete dias.

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Paula tem mestrado em Ciências Políticas e Estudos do Oriente Médio pela Universidade Americana de Beirute. Foi correspondente no Oriente Médio para o SBT e Radio France e colunista de política dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo. O post recebeu um selo oficial da empresa, reforçando seu compromisso com a divulgação e dados considerados por eles como confiáveis sobre a pandemia de Covid-19.

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Procurado pela reportagem, o Twitter não explicou os motivos específicos para a punição. Apenas declarou: “O perfil teve seus recursos limitados por violação às regras do Twitter. As funções do perfil já foram restabelecidas”. De fato, passados os sete dias da suspensão, a jornalista voltou a utilizar a rede social.

O link informado pela assessoria de imprensa lista como passíveis de suspensão posts que incentivem violência, terrorismo, exploração sexual de menores, abuso e assédio, conduta de propagação de ódio, ataques violentos, incentivo a suicídio ou automutilação e propagação de conteúdo adulto ou serviços ilegais.

Não há nenhuma indicação de que Paula tenha promovido qualquer post com conteúdo deste tipo de teor. Ainda assim, a punição foi comemorada por uma série de pessoas, incluindo um professor da Universidade de Campinas (Unicamp).

“Eu acho fascinante – e assustador – ver como certas pessoas renunciaram ao que lhes restava de inteligência, e não só deixaram de questionar a censura, mas passaram a apoiá-la”, afirmou a jornalista em nota para a Gazeta do Povo.

“E quando a gente se dá conta que essas pessoas defendendo a censura estão protegendo uma ‘ciência’ que se desmente diariamente sem o menor pudor, contradizendo hoje o que jurou ser verdade ontem, você entende que esses autômatos humanos não estão defendendo ciência alguma. Eles estão apenas sendo obsequiosos, e se arrastando publicamente para mostrar sua obediência – a obediência de quem segue ordens, não evidência científica. Nesse sentido eu até entendo o ódio reservado àqueles que não se dobram: porque a cada vez que eu declaro minha liberdade de pensamento, eu exponho também a mediocridade dos seres mais covardes e intelectualmente subalternos”, apontou.

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Ataque à liberdade de expressão

Não é a primeira vez que um profissional de imprensa é bloqueado por uma rede social. O jornalista americano Jason Whitlock, por exemplo teve um post bloqueado por comentar a notícia de que a ativista Patrisse Khan-Cullors, cofundadora do movimento Black Lives Matter, possuía uma casa de valor estimado de US$ 1,4 milhão.

André Gonçalves Fernandes, pós-doutor em Antropologia Filosófica pela Universidade de Navarra, na Espanha, questiona a decisão de punir uma jornalista no exercício de seu ofício. “Este tipo de censura, além de representar um desvalor do ponto de vista jurídico, fere o direito da jornalista de trazer ao debate público um questionamento a respeito de uma pesquisa, que é saudável e necessário no ambiente da produção científica”.

A liberdade de expressão, avalia ele, deveria permitir “o embate duro, porém aberto, de ideias”. As exceções, que poderiam ser revisadas por medidas judiciais, pedido de indenização ou punição no nível penal, são os casos extremos, imbuídos de má-fé, por exemplo a defesa da pedofilia e do terrorismo. A livre manifestação de uma profissional de imprensa, nesse contexto, não se enquadra, ainda que as ações contra o setor venham se tornando mais constantes, diz Fernandes. “Recentemente, dentro e fora das redes sociais, a liberdade de imprensa e a religiosa são as mais atacadas”.