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Instagram decide que jornalista Rica Perrone não pode existir
| Foto: Divulgação

Hoje você verá a lacrosfera indignada por uma "censura" no Instagram. Muitos jornalistas estão profundamente indignados, afinal é algo que pune uma vítima e ninguém vê. Claro que não é sobre o calvário judicial de Rica Perrone para conseguir trabalhar e a interferência indevida de uma Big Tech no mercado do jornalismo esportivo brasileiro. Como ele não é do identitarismo, ele que lute.

A briga de hoje está sensacional. Alguém com raiva de alguma coisa postou "fogo nos racistas". Foi condenada na Justiça a remover o post e pagar multa. A lacração defende que ela tem todo o direito, afinal foi vítima de uma injustiça no atendimento médico. E foi mesmo. Ocorre que incitar discriminação, violência e hostilidade contra uma pessoa ou grupo é a definição técnica de discurso de ódio.

Agora eu não entendi mais nada. O identitarismo passa dia e noite dizendo que todo mundo tem de ser expulso do planeta porque fez discurso de ódio. Dizer amigos em vez de amigues eles já dizem que é discurso de ódio e tem de derrubar o perfil. Mas o discurso de ódio na sua definição clássica não é discurso de ódio e seria censura que o Poder Judiciário diga que é e não pode ser tolerado.

O jornalismo kamikaze resolveu fechar os olhos deliberadamente para a interferência promíscua, covarde e indevida do Instagram no mercado jornalístico esportivo. Rica Perrone, um dos únicos que não faz pregação de identitarismo para comentar futebol, foi indevidamente banido da rede várias vezes. Quem disse é a Justiça, que mandou o Instagram devolver o perfil com 350 mil seguidores. O que o Instagram fez hoje? Derrubou mais um perfil do jornalista e deu uma nova banana para o Poder Judiciário brasileiro.

Eu gostaria muito de saber do pessoal do TSE e do STF se o acordo contra desinformação isentou o Instagram de cumprir sentença no Brasil. É indecente que empresas com acordo formal com as mais altas cortes do país tenham passe livre para desobedecer decisões judiciais e interferir na livre concorrência do mercado de comunicação esportiva. É o que está ocorrendo à luz do dia com zero indignação do Ministério Público, do Judiciário e até mesmo do glorioso mercado kamikaze de jornalismo.

Já vivemos uma sociedade digital. Diversos profissionais dependem das redes para trabalhar. No caso da comunnicação, a relação é ainda mais evidente. O Instagram pode, sem nenhuma justificativa, impedir um profissional de trabalhar e dar o espaço dele aos concorrentes? Pode. Quer dizer, é ilegal, é imoral, é escandaloso e tem decisão judicial contra. Mas está acontecendo e não há indignação. Os acordos da plataforma com STF e TSE continuam de pé. Então pode sim.

Rica Perrone tinha um perfil verificado com 350 mil seguidores. Foi derrubado no ano passado sem qualquer explicação. Teria conteúdo impróprio, mas ninguém sabia qual o conteúdo nem por que era impróprio. Ele fez mais um, derrubaram também. Depois devolveram o perfil com um pedido de desculpas.

Fez então um terceiro. Quando chegava a 50 mil seguidores, foi derrubado. Ele resolveu entrar na Justiça. Durante o processo, o Instagram deu a @ricaperrone, o nome dele que era do perfil verificado, para outra pessoa. Em nenhuma das vezes houve nenhum tipo de justificativa do Instagram sobre o motivo para derrubar a conta do jornalista. A empresa alegou que ele tinha diversas punições, mas era uma mais estapafúrdia que a outra.

Aqui não estamos falando mais só de liberdade de expressão, mas de livre mercado e de existência. É escandaloso que o CADE e o Ministério Público ainda não tenham emparedado o Instagram sobre a mão grande que está metendo num dos mercados mais rentáveis na área da comunicação, o esportivo. Por que se sabota deliberadamente um player desse mercado, Rica Perrone? O espaço será ocupado por outros, que são indiretamente, no mínimo, beneficiados pelo Instagram. Quem paga a conta?

A questão nem é ter ou não liberdade de falar o que quer, mas ter liberdade de existir. O jornalista sem acesso a redes sociais perde inúmeras possibilidades profissionais. A tecnologia anda evoluindo tanto que chegamos a um ponto em que ela é a própria existência da pessoa em vários aspectos de sua vida. Convido a um exercício de imaginação em torno de um filme que me marcou em 1995.

É um suspense de ficção científica que está na Neflix, tem umas duas horas de duração e a estrela principal é Sandra Bullock, que interpreta uma especialista em informática. Ela recebe um disquete de um amigo morto há pouco tempo informando sobre uma conspiração para infectar computadores e tirar pessoas de circulação. Se a pessoa não está na rede, não tem como provar que existe, ela deixa de existir.

Imagine que desliguem a internet do universo hoje e apaguem tudo o que foi armazenado nela. Quais partes da sua vida deixariam de existir? Vou começar com o que faz meu coração bater mais forte: dinheiro. Como você vai provar quanto tem no banco e que o dinheiro é seu? E os pagamentos que realizou ou não? Que conta está paga e qual não está? Quem deve pagamentos a você? E suas declarações de imposto, onde estão? Sua carteira de motorista, a prova de que você tomou vacina, seu título de eleitor, tudo isso está lá.

Agora vamos ao enredo desse filme de 27 anos atrás e por que ele me apavorou tanto. Se desligassem toda a internet do mundo todo claro que seria um desastre, mas estaria todo mundo no mesmo desastre. Haveria a compreensão de que algo ocorreu e todos passam por grandes dificuldades. Desajustes aqui e ali ocorreriam, mas a sensação coletiva de que é preciso analisar situações específicas com cuidado salvaria muitos do pior.

Mas imagine que desapareçam só as suas informações e as de mais ninguém. E ninguém acredita quando você diz o que ocorreu porque sumiu tudo da internet, você não tem como provar. É a sua palavra contra um sistema que está funcionando bem para todo mundo. O jornalista Rica Perrone está vivendo isso agora e a falta de instinto de sobrevivência explica o silêncio eloquente dos colegas.

Estamos falando aqui de mercado e de dinheiro, não só de liberdade de expressão. Eu vou fazer cálculos para você compreender quanto o Instagram pode ter tungado do Rica Perrone nesses diversos "enganos" que coincidentemente só acontecem com ele no mercado dele. E daí vamos começar a imaginar para quem foram as verbas publicitárias que ele não pôde faturar devido ao banimento.

Primeiro vamos ao valor global de uma conta com 350 mil seguidores. Se você usa o Instagram como comunicação pessoal apenas, talvez não saiba que existe um mercado enorme na área de publicidade de venda de perfis prontos. Passe a reparar agora que as eleições se aproximam que vão aparecer para você, sem ser em publicidade paga, perfis políticos que você não se lembra de ter seguido. É este mercado.

Após a pandemia, houve uma expansão das vendas de perfis prontos com a falência de pequenos negócios em diversas áreas. Suponha que a pessoa tivesse um restaurante legal com uns 10 mil seguidores e ele fechou. Ela pode fazer dinheiro vendendo o perfil. Agências de publicidade comercializam isso e há até empresas que só vivem de venda de perfis prontos do Instagram.

Gente que perdeu emprego na pandemia passou a viver de comprar e vender perfis do Instagram. Quem tem mais de 10 mil seguidores ganha a função "arrasta para cima" nos stories, o que possibilita colocar links para vender produtos. Você pode comprar um perfil de alguém que faliu, por exemplo, e vender produtos relacionados ao nicho daqueles clientes. Agora, no período eleitoral, as campanhas compram perfis com o nicho de eleitor que pretendem atingir.

Por isso irão aparecer perfis de grupos políticos ou até do que parecem ser legítimas paquitas de político que você não seguia. Até ontem, eles poderiam ser um restaurante, uma academia de ginástica, um influencer, qualquer outra coisa que você seguia e mudou de mãos.

Uma conta com mais de 10 mil seguidores já vale algum dinheiro. Se for verificada, vale mais ainda. Há empresas que cobram entre R$ 5 mil e R$ 35 mil para verificar perfis médios, com até 200 mil seguidores. Imagine o valor do perfil verificado de 350 mil usuários que o Instagram resolveu tungar do Rica Perrone. E isso só porque o perfil existia. Agora vamos ao cálculo de quanto ele ganharia usando o perfil, um potencial em torno de R$ 100 mil ao mês.

Um perfil usado apenas profissionalmente para fazer parcerias com marcas é medido de acordo com o tamanho. O do jornalista Rica Perrone é considerado "influenciador macro", o que tem entre 200 mil e 500 mil seguidores. Nas mãos de uma agência que comercialize conteúdo e vendas, um perfil desses fatura, em média, R$ 100 mil por mês. E sem ter o apelo de já ser reconhecido num nicho de comunicação fora das redes, algo que poderia aumentar o valor.

O Instagram está pagando para Rica Perrone ficar fora da rede. A Justiça determinou multa diária de R$ 1000 enquanto o perfil verificado de 350 mil seguidores dele não for devolvido. Nossa, R$ 30 mil por mês parece muito? Dinheiro de pinga para um perfil que poderia faturar mais de R$ 100 mil por mês. Já sabemos quem perdeu, mas quem está ganhando com isso e qual a relação entre o Instagram e quem saiu ganhando no mercado esportivo? Tirem o shake de Lexotan do Ministério Público que um dia saberemos.

O desprezo do Instagram pelo Judiciário brasileiro é tão flagrante que, mesmo pagando a multa diária por não devolver o perfil original do jornalista, a empresa derrubou mais um. Veja no vídeo abaixo o que aconteceu depois que ele reclamou num texto do calvário judicial e da zombaria do Instagram com a Justiça do Brasil e o livre mercado da comunicação.

Já vi liberais argumentando que, se a empresa decidiu assim, ela tem direito e é natural buscar outra plataforma. Não estamos falando de uma padaria, estamos falando de gente com poder para impedir o livre mercado. Um comunicador cancelado em qualquer das grandes plataformas vai perder espaço de mercado como um todo, não só naquela plataforma. E tem alguém que vai ganhar. É preciso esclarecer por que justo os queridinhos das agências lacradoras saem beneficiados. Isso é manipulação do mercado e falta resposta à altura.

Denunciar alguém por "discurso de ódio" é um recurso do identitarismo para manipular diversos mercados. Falo da comunicação, que entendo melhor. O meu caso foi com o YouTube, que pagou advogado para anônimos dificultarem minha atuação no mercado de jornalismo. Na mesma época, meu canal ficou 3 meses sem fazer lives, derrubado por denúncia de direitos autorais do UOL. O vídeo em questão estava há 2 anos na área privada do canal, era meu arquivo. Nunca mais o canal teve o mesmo alcance e isso tem impacto financeiro em cascata.

Primeiro é o tanto que você ganha com a monetização do canal em si, mas o seu alcance impacta todos os outros trabalhos, principalmente envolvendo publicidade. Some-se a isso a dificuldade criada pelo grupo de anônimos que o YouTube alegou não conhecer mesmo sendo canal monetizado. Pagavam para quem? Esses anônimos iam a todos os lugares em que eu aparecia fazer comentários pornográficos. Isso fez com que eu passasse a ser evitada. Quem ficou com essa fatia de mercado? O YouTube sabe e poderia responder.

A questão é que alguém está levando o que eu perdi. Como Rica Perrone e eu não somos do identitarismo nem da lacração, com a gente pode. É só inventar uma mentira qualquer e dizer que foi justo. A gente pode ter sido racista, fascista, homofóbico, transfóbico, ter feito discurso de ódio. Basta um monte de gente do seu ramo se juntar e denunciar isso que toma o seu mercado, com a bênção de uma Big Tech. Ministério Público, CADE e Judiciário permanecem agachados.

Rica Perrone poderia ter sofrido um dano muito maior se não fosse jornalista. Ele tem entrada na imprensa e voz para denunciar. Mesmo assim, é esmagado por uma Big Tech. Pense em quem tem uma loja de roupas, de comida, quem vende qualquer coisa pelo Instagram para viver. Um player pode simplesmente derrubar a concorrência se estiver bem alinhado com o Instagram. E tenho sérias dúvidas sobre a natureza desse alinhamento, é coincidência demais da conta.

Acompanhe as postagens que, segundo o Instagram, seriam o "discurso de ódio" que justificaria a tunga na liberdade e no bolso do jornalista Rica Perrone:

O identitarismo é um produto genial porque permite canibalizar qualquer mercado à luz do dia, na cara de todo mundo, sem nenhuma responsabilização. Pessoas que acusam as outras de racismo, machismo, homofobia, transfobia, fascismo e nazismo sem qualquer responsabilidade alegam agir em nome do bem.

Ainda é uma dúvida o bem que pessoas más, mentirosas e violentas têm feito à sociedade. Mas elas repetem feito papagaios clichês de um discurso supostamente bem intencionado, então ganham o manto da suposta boa intenção. É com ele que se vestem para praticar perversidades. Este tipo de comportamento é sistematicamente recompensado pelas redes sociais, domina a pauta da publicidade e até da própria imprensa hoje.

Deixar que as redes passem a conversa do bom-mocismo para manipular tudo quanto é mercado a favor dos seus já tem um preço alto. Estamos pagando com o esgarçamento do tecido social, a fragilização das democracias e a saúde mental das pessoas. Quando a gente chega ao fundo do poço, a primeira coisa a fazer é largar a pá. Precisamos urgentemente parar de cavar.

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