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Entre os fatores que levaram à melhoria de vida entre 2000 e 2010, está a mobilidade. Atualmente, porém, o transporte coletivo de Curitiba e municípios vizinhos não é mais integrado. | Marcelo Andrade/Gazeta do Povo
Entre os fatores que levaram à melhoria de vida entre 2000 e 2010, está a mobilidade. Atualmente, porém, o transporte coletivo de Curitiba e municípios vizinhos não é mais integrado.| Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

A atual crise econômica e a recente desintegração do sistema de transporte da Região Metropolitana de Curitiba (RMC) são exemplos de que a melhoria na qualidade de vida da população brasileira na década passada se baseou em fatores conjunturais, e não em mudanças estruturais significativas. No começo de setembro, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lançou uma publicação que mostra que a vulnerabilidade social do país caiu 27% entre 2000 e 2010, mesmo índice observado na RMC. O avanço, porém, se baseou no aumento de renda da população, que está comprometido agora em 2015, com o crescimento do desemprego.

Índice caiu 31% no Paraná

A vulnerabilidade social caiu mais no Paraná do que a média brasileira e o observado na RMC. A redução foi de 31%, e com isso o estado passou da situação de média vulnerabilidade para baixa vulnerabilidade. A RMC, com queda de 27% no IVS, também passou de média para baixa; o Brasil, também com variação de 27% no IVS, passou de alta vulnerabilidade para média.

Segundo levantamento feito pelo pesquisador Paulo Roberto Delgado, do Ipardes, os destaques do Paraná foram: queda no percentual de crianças de 0 a 5 anos que não frequentam a escola (de 79,99% para 57,42%; o percentual de crianças que vivem em domicílios em que nenhum dos moradores tem o ensino fundamental completo, que variou de 41,81% para 25,51%; a proporção de pessoas com renda domiciliar per capita igual ou inferior a meio salário mínimo (de 41,24% para 19,70%); e o percentual de pessoas de 18 anos ou mais sem fundamental completo e em ocupação informal (redução de 44,52% para 31,55%).

Em 2000, havia 51 cidades do Paraná na condição de vulnerabilidade muito alta. Em 2010, nenhuma cidade se enquadrou no pior nível do IVS. Os dados mais recentes colocam a maioria dos municípios no nível de baixa vulnerabilidade (208) e média (120).

“Se olharmos o índice de desocupados de 2000 e o de 2015, será muito semelhante. Isso mostra que a queda na vulnerabilidade representou um momento da conjuntura brasileira”, observa a pesquisadora do Observatório das Metrópoles Rosa Moura, que também é bolsista do Ipea.

Além disso, o Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) leva em conta, em um de seus componentes, o tempo de deslocamento entre o trabalho e a casa das pessoas com renda domiciliar mais baixa. O desempenho da RMC já era ruim em 2010. “Seria bem pior se fosse feita uma atualização com os dados de 2015. O que aconteceu com o transporte público aqui é lastimável, é terrível. Vai contra todas as iniciativas buscadas para ou resolver o problema de deslocamento ou pelo menos otimizar os recursos existentes”, diz Rosa.

Segundo a pesquisadora, todas as regiões metropolitanas do Brasil têm serviços precários de infraestrutura urbana, como saneamento básico e transporte. Ela ressalta, porém, que a divergência entre a prefeitura de Curitiba e o governo do estado, que acabaram com a integração dos ônibus na Grande Curitiba, foi um grande retrocesso. “Quando estávamos na batalha por um bilhete único, para integração temporal, acontece isso. O sistema já era ruim, porque fazia só a ligação do município com a capital, sem possibilidade de circular pelas demais cidades”, explica.

Filas

Com integração ou não, os usuários da linha Curitiba/Rio Branco do Sul sempre enfrentaram problemas. O trajeto entre a capital e o município da RMC, distante 45 quilômetros, leva pelo menos uma hora e meia. A frequência de ônibus é insatisfatória e com isso os coletivos estão sempre lotados. Para evitar uma viagem desconfortável, as pessoas preferem esperar até meia hora na fila. No meio da tarde de uma segunda-feira, fora do horário do rush, o ponto na Praça 19 de Dezembro já tem três filas. “Tem gente que estuda, que tem família, que não pode ficar esperando, tem que ir de pé no aperto mesmo”, conta o autônomo Cristian Lourenço, 35 anos.

Novo indicador mostra demandas, o que facilita ação governamental

Mesmo defasada, a divulgação do Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) de 2010 é elogiada por pesquisadores, por apresentar um cenário mais completo das demandas da sociedade brasileira. O IVS é composto por três dimensões: infraestrutura urbana, capital humano, renda e trabalho.

“Os componentes do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) já não mostravam diferenças significativas entre as cidades. O índice de vulnerabilidade busca alguns componentes que traduzem melhor as diferenças”, diz Rosa Moura, pesquisadora do Observatório das Cidades e do Ipea.

Segundo Paulo Roberto Delgado, pesquisador do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), o IDH-M mostra o que os municípios já conquistaram; o IVS, detalha mais os déficits. “Não expressa apenas uma carência presente, mas também um problema futuro. Ao considerar os domicílios em que nenhum dos moradores tem ensino fundamental, sabe-se que a chance dessa pessoa auxiliar os filhos na sua trajetória escolar é menor”.

Delgado ressalta que o detalhamento dos dados ajuda os gestores públicos a definir melhor onde agir e de que forma. Ele pondera que a defasagem do índice é decorrente do nível de detalhamento das informações.

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