Mais de 55,7% dos paranaenses deram ao governador Beto Richa uma segunda chance para completar sua administração. Essa maioria de eleitores depositou nas urnas a esperança de que, com mais um mandato de quatro anos, ele termine de cumprir as promessas do seu primeiro período e acrescente às suas realizações as outras que fez durante a campanha oficialmente encerrada pelas urnas de ontem.

Em entrevistas e mesmo nos programas eleitorais, Beto Richa reconheceu não ter conseguido preencher a lista das pretensões que levou o eleitorado a dar-lhe a vitória em 2010. Mas se justificou: foi impossível fazer tudo em razão da herança maldita deixada pelos dois governos de Roberto Requião que antecederam o dele. As dívidas que herdou, que somavam mais de R$ 4,5 bilhões, teriam sido fatais para que o choque de gestão que prometera não se concretizasse na medida que dele se esperava.

A pergunta agora é a seguinte: Richa, ao assumir em janeiro o seu segundo mandato, encontrará um estado com as finanças saneadas e estruturalmente preparado para fazer o que não fez antes? Os paranaenses não só lhe deram maciçamente essa oportunidade, livrando-o inclusive de enfrentar um eventual segundo turno, como também acreditaram nos avanços com que agora se comprometeu.

A vitória expressiva que obteve não chegou a constituir surpresa para ninguém. As pesquisas já a vinham apontando e as divulgadas nas vésperas do pleito não erraram. As diferenças entre as previsões e o resultado final praticamente se circunscreveram às margens de erro e ao grau de confiança admitidos pelos institutos.

A oposição

Salvo por alguns momentos de treme-treme causados pelo impacto do lançamento de sua candidatura pelo PMDB – partido que lutou até o fim para se aliar a Beto Richa –, a derrota do senador Roberto Requião já era antevista mesmo antes de se iniciar a campanha. Ele carregava o peso da alta rejeição e, no palanque, reduziu seu discurso às mesmas desgastadas fancarias que fizeram sua fama e que, no passado, foram-lhe vitais para fazer uma carreira vitoriosa. Em 2014, porém, o resultado serviu para evidenciar a "fadiga do material" que tomou conta de sua antiga imagem.

Fica para estudo posterior o baixo desempenho de Gleisi Hoffmann, que ficou muito aquém de repetir o sucesso de 2010 quando, candidata ao Senado pelo PT, conquistou o primeiro lugar, com mais de 3 milhões de votos, quase 1 milhão a mais do que Requião, seu concorrente direto naquele pleito. Foi essa extraordinária votação que a credenciou para disputar o governo em 2014, sem contar que em seguida foi favorecida pelo fato de ter ocupado a Casa Civil da Presidência, um dos mais estratégicos postos da administração federal.

Como candidata ao governo, no entanto, fez tão somente 880 mil votos, equivalentes a 14,8% dos válidos, pouco mais da metade do índice conquistado por Requião (27,5%). E que não se diga que sua baixa performance tenha sido devida apenas à suposta rejeição no estado ao PT, já que a candidata do mesmo partido à Presidência, Dilma Roussef, foi a preferida de 33% dos paranaenses – mais que o dobro da sua.

Segundo turno

A vitória expressiva de Beto Richa já no primeiro turno dá-lhe tempo livre e prestígio para transformá-lo automaticamente num importante cabo eleitoral para o correligionário tucano Aécio Neves, visando a ampliar sua vantagem sobre Dilma e contribuir para levá-lo a derrotar a presidente no segundo turno. Aécio já se saiu bem no Paraná: fez 50% dos votos contra 33% de Dilma. Uma das missões de Beto Richa será administrar o espólio de 14% deixados por Marina Silva no estado.

Se seguida apenas a lógica das alianças partidárias, não será um trabalho difícil. O PSB, partido de Marina, sempre atuou como linha auxiliar de Beto Richa. Entretanto, se a lógica for apenas a das tendências naturais do eleitorado, o crescimento de Aécio no estado é um enigma.

Não se pode afirmar que Marina conseguiu aqui seus 14% em razão da força ou do trabalho do PSB. Seus parcos votos devem ser creditados mais aos eleitores que confiaram na sua "nova política" – pretensamente diferente da "velha", encarnada por Dilma e Aécio –, somados aos dos segmentos interessados em causas ambientalistas ou estimulados pelas vertentes evangélicas. Trata-se, portanto, de um eleitorado agora órfão e que pode despejar seus votos, indiferentemente, em qualquer dos dois presidenciáveis que disputam o segundo turno – a menos que Richa consiga trazê-lo em massa para o redil tucano.

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