Duas importantes obras para a historiografia paranaense estão sendo lançadas nesta semana. Uma delas retrata a figura do interventor Manoel Ribas – o pontagrossense nomeado pelo presidente Getúlio Vargas para governar o Paraná em 1932. Sua gestão durou 13 anos: deixou o poder em 1945 quando da queda do Estado Novo. Quem conta a história de “Maneco Facão” – apelido que ganhou pelo seu jeito de cortar regalias – é o advogado Fernando Fontana: casado com uma neta dele, o parentesco contribuiu para que escrevesse a alentada biografia, enriquecida por fotos, documentos e “causos” que celebrizaram o interventor.

Fontana está envolvido numa maratona de lançamentos de “Desvendando Manoel Ribas – o homem, a obra, o mito”. Dias 12, 13 e 17 ele autografa, respectivamente, na Feira do Livro de Ponta Grossa; no município de Manoel Ribas (região Central do Paraná); e em Curitiba, nas Livrarias Curitiba do Shopping Estação, às 19h30.

Vozes do paraná 7

A outra obra em lançamento que enriquece nossa historiografia é o volume 7 da coleção Vozes do Paraná, que nesta edição sai em dois tomos num total de 824 páginas. Neles estão reunidos perfis de 46 paranaenses (natos ou por adoção) cujas vidas, quer na política quer no setor empresarial ou cultural, têm o mérito de serem partícipes das grandes transformações pelas quais o estado passou nas últimas décadas. Um dos retratados (in memoriam) é o jornalista Francisco Cunha Pereira Filho, diretor desta Gazeta por mais de meio século e fundador do GRPCom, hoje um dos cinco maiores grupos de comunicação do Brasil. Vozes do Paraná 7, de autoria do jornalista Aroldo Murá Haygert, será lançado nesta quinta-feira, 10, a partir das 19 horas, na EBS Business School (Rua Engenheiros Rebouças, 2.176, Curitiba).

O governador que não tinha parentes nem amigos

Passados 70 anos de sua deposição do cargo de interventor, Manoel Ribas é um daqueles raros administradores paranaenses que colocaram o interesse público à frente de quaisquer ambições pessoais. Implacável contra a corrupção e contra a “moleza” de servidores públicos, ia logo passando o “facão” no pescoço dos ineptos, dos faltosos e dos que desconfiava serem desonestos.

O Paraná de 1932 era, do ponto de vista das divisas territoriais, igual ao que é hoje. A diferença estava na sua ocupação: Curitiba era uma modesta cidade com não mais de 100 mil habitantes e, afora o Litoral, com as cidades portuárias de Paranaguá e Antonina, praticamente apenas as regiões dos Campos Gerais, Centro-Sul e Norte Pioneiro eram ocupadas.

Londrina ou Maringá não existiam; Foz do Iguaçu quase não passava de um posto de guarda da fronteira. A principal rodovia era a Estrada da Graciosa; uma ferrovia, igualmente do tempo do Império, ligava o Litoral ao planalto curitibano e daqui, já recebendo trens que vinham do Rio Grande do Sul, fazia a ligação com o entroncamento de Ponta Grossa, de onde um ramal partia para Jacarezinho.

Primeira tarefa a que Manoel Ribas se impôs: construir uma grande rodovia para integrar à capital a então principal região produtora do estado – o Norte Pioneiro. Foi uma obra épica, não repetida por nenhum outro governador: fez nada menos de 722 quilômetros, abertos em mata virgem, construção diretamente fiscalizada por ele, às vezes montado em mulas. Era a Estrada do Cerne. A partir daí Curitiba substituiu São Paulo como “capital” e como destino dos paranaenses que viviam no Norte Velho.

Quando Maneco Facão assumiu, hospitais públicos só existiam três; escolas primárias eram raras; cursos ginasiais eram privilégio de cidades maiores para servir aos filhos das elites regionais; faculdades, só em Curitiba. Treze anos depois, o estado era outro – conquistou-se a terra roxa do Norte Novo, que fez a grande riqueza cafeeira do estado; iniciou-se o desbravamento do Oeste a partir de Guarapuava; postos de assistência à maternidade e infância se multiplicaram; escolas brotaram em toda parte, incluindo o moderno Colégio Estadual do Paraná.

Guardadas as proporções e as circunstâncias da época, poucos governadores fizeram mais que Manoel Ribas pelo Paraná ao longo da história – simples, rude, mas um grande feitor. Como assinalou um editorial do Diário da Tarde logo após sua morte em 1946:

“Os vindouros hão de saber que houve um governante, no Paraná, que não tinha parentes nem amigos. Todos lhe eram iguais, fossem humildes ou poderosos. Não tinha títulos nem ‘excelência’. Era ‘seu’ Ribas”.

Dá pra comparar?

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