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Passos lentos

As obras para a Copa estão orçadas em R$ 29,3 bi, mas apenas uma pequena parte foi realizada:

Projeto - Valor executado em relação ao total previsto (%)

• Aeroportos - 5• Desenvolvimento Turístico - 0• Estádios - 34• Mobilidade Urbana - 5• Total - 11

Fonte: Portal Transparência Copa 2014

Não sou fã do McDonald's – nem de qualquer outra fast food em geral –, mas fiquei muito impressionada com a rapidez com que foi construída a mais nova loja da franquia norte-americana em Curitiba, no bairro Alto da XV. Em apenas poucas semanas, o terreno que abrigava uma oficina de veículos ganhou uma nova edificação, calçadas, iluminação, e a lanchonete já entrou em funcionamento. Por que o poder público brasileiro não consegue fazer nenhuma obra com rapidez semelhante?

Claro que construir uma lanchonete é algo muito simples, e só a citei neste espaço porque foi uma obra que pude acompanhar diariamente, quando fazia o trajeto trabalho-casa. Mas há vários outros exemplos de obras grandiosas. Por exemplo: hoje, dia 8 de dezembro de 2012, o Grêmio inaugura seu novo estádio em Porto Alegre. Do lançamento oficial das obras (setembro de 2010) até agora, o empreendimento privado levou apenas 25 meses para ficar pronto. São quase 200 mil metros quadrados de área construída, erguidos do zero. O custo total é de R$ 465 milhões (segundo as informações do consórcio), dos quais 55% são bancados pela construtora OAS, que receberá o local onde hoje se encontra o Estádio Olímpico.

Enquanto isso, quase todos os estádios brasileiros que receberão jogos na Copa de 2014 – e que por isso estão recebendo recursos públicos – apresentam atrasos consideráveis. Uma exceção é o Mineirão, o qual passou apenas por uma reforma, e deve ser inaugurado ainda neste mês. A intervenção, entretanto, chegou a R$ 426,1 milhões.

Outro estádio que foi reformado foi o Mané Garrincha, e o custo para isso foi ainda maior: R$ 812,2 milhões. A previsão era de que fosse concluído em 2012, mas isso só deve ocorrer em fevereiro de 2013. Várias obras viárias, de responsabilidade de governos municipais e estaduais, estão ainda mais atrasadas.

Aqui no interior do Paraná também temos muitas obras que assombram pela demora. Em 17 de janeiro de 2012, teve início a obra para duplicação de 14,4 quilômetros na BR-277, no Oeste do estado. A previsão para o término? Junho de 2013. Parece piada de mau gosto, mas é a triste realidade: 18 meses para meros 14,4 quilômetros, ao custo de R$ 49,3 milhões. A obra será feita pela concessionária que opera na rodovia, e nesse caso o poder público não pode ser responsabilizado diretamente, mas deveria ter exigido na negociação um prazo menor.

O interesse privado difere, em muitas maneiras, do interesse público. Os contratos com o governo precisam passar por uma série de avaliações e auditorias (antes, durante e depois), e por isso são muito mais complexos. Essa é uma característica da administração pública brasileira – a burocracia serve como um controle social, de forma que nenhum gestor tenha poder para decidir de forma isolada sobre o desembolso do dinheiro, por exemplo.

Niemeyer

Por isso a burocracia não deve ser responsabilizada por todo e qualquer atraso nas obras públicas. O que faz a diferença é a vontade do governante em agilizar uma obra ou não. Em 2002, por exemplo, o então governador Jaime Lerner decidiu que iria inaugurar uma belíssima obra antes do final do seu mandato, em dezembro. Recorreu ao mestre Oscar Niemeyer, que reprojetou um espaço criado por ele mesmo 35 anos antes, transformando-o no NovoMuseu – justamente rebatizado de Museu Oscar Niemeyer pelo governador Roberto Requião em 2003.

A obra custou na época R$ 40 milhões (R$ 69,6 milhões em valores atualizados pela inflação), e foi finalizada em apenas cinco meses. A antiga escola de Niemeyer, que abrigou por muitos anos secretarias e órgãos do governo estadual, ganhou então uma grande e linda "torre do olho" e virou um grande marco arquitetônico de Curitiba e do Brasil.

Será que nossos governantes não têm ambição de inaugurar grandes e importantes obras? Vão se contentar em anunciar pacotes de investimentos com projetos requentados? Niemeyer já se foi, infelizmente, e ele não poderá mais contribuir com sua arte. Mas nossos governantes podem se valer de valorosos e competentes colaboradores, tanto dentro do serviço público como fora. Basta um pouquinho de visão. Uma visita ao "olho" de Niemeyer pode ser inspiradora.

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