
A ideia de alçar Roberto Requião à presidência do PMDB do Paraná e o projeto de lei que obriga o estado a ceder policiais militares para a segurança pessoal de ex-chefes do Executivo são exemplos recentes do poder que o governador exerce sobre seus correligionários e deputados estaduais. Essa força política evidente no Paraná, entretanto, não é exclusiva de Requião. Ela é observada em todo o Brasil e descrita como "ultrapresidencialismo estadual".
Esse sistema se sustenta na influência que os governadores exercem sobre os legislativos dos estados, nos quais as coalizões dão à base aliada o status de rolo compressor. A liberação de verbas para os redutos políticos de deputados serve de moeda de troca nesse jogo e é um dos motivos para o "superpoder" dos governadores.
Além do Legislativo, em muitos estados, os governadores também conseguem dominar os órgãos de controle, como os ministérios públicos estaduais e os tribunais de contas. Com isso, eles criam uma espécie de barreira à fiscalização, que acaba ficando enfraquecida e alimentando ainda mais a influência deles.
A possibilidade de nomear conselheiros de administração de estatais e milhares de pessoas para cargos de confiança é outra das fontes de força política dos governadores. No Paraná, são 3.800 pessoas em cargos comissionados.
"O ultrapresidencialismo estadual é muito forte no Brasil. Em todos os estados o governo consegue controlar a maioria das bancadas regionais e as estruturas de cargos comissionados. É uma influência muito maior do que aquela que o presidente da República exerce sobre outros poderes", avalia o professor de Ciência Política Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
O tema é estudado desde o início da década passada, mas ganha relevância com a proximidade da eleição para a troca dos comandantes estaduais e pelo fato de vários deles terem tido problemas recentes com a Justiça (leia mais na próxima página).
Mantendo o poder
Requião aparece como favorito a uma das duas vagas de senador em disputa neste ano. Mas, para concorrer, ele deve deixar o Palácio das Araucárias até 3 de abril. Para que o governador mantenha algum grau de poder e visibilidade, o presidente do PMDB de Curitiba, Doático dos Santos, tenta lançá-lo à presidência do PMDB estadual. Com esse cargo, Requião comandaria o partido durante as convenções de junho, quando a legenda define o caminho que tomará nas eleições deste ano. O presidente eleito do diretório, Waldyr Pugliesi, não demonstra disposição de sair do cargo. Na última quinta-feira, uma reunião que poderia culminar no afastamento de Pugliesi foi suspensa.
"A partir do momento em que ele deixa o cargo, precisa de outra função para continuar desfrutando do poder da coalizão que montou nesses anos todos", afirma Emerson Cervi, professor de Ciência Política da UFPR.
Sob medida
O projeto que cria a guarda pessoal para ex-governadores, em discussão na Assembleia Legislativa, parece ter sido feito sob medida para Requião. Beneficia os próximos ex-governadores o primeiro deles o próprio peemedebista por três anos com uma guarda exclusiva formada por quatro policiais militares. Depois de o tema gerar muita polêmica entre os deputados estaduais, por conter pontos obscuros, Requião disse que não tem interesse em usar o serviço. Mesmo assim, o projeto deve ser discutido nesta semana pelos parlamentares.
A influência de Requião sobre o Legislativo estadual também pode ser avaliada pela proposta de emenda à Constituição que eterniza dois programas sociais criados na atual gestão, as tarifas sociais da Sanepar e da Copel. O texto, de autoria de um deputado, foi aprovado por 41 deputados na sessão de 9 de fevereiro.



