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No clássico de Rudyard Kipling, O Homem que Queria Ser Rei, dois aventureiros descobrem que o poder, quando sustentado por mitos e pelo medo, pode transformar homens comuns em figuras quase divinas — até que a realidade cobre seu preço. A história não é sobre coragem ou heroísmo, mas sobre a embriaguez do mando, sobre o instante em que alguém deixa de servir a uma comunidade e passa a exigir dela submissão. Transportada para o Brasil de hoje, a fábula ganha contornos inquietantemente familiares.
Na nossa versão tropical, o cenário não é uma região remota do Afeganistão, mas Brasília. O trono não é feito de ouro, mas de decisões judiciais, canetadas administrativas e discursos de salvação moral. E os personagens centrais não são aventureiros estrangeiros, mas figuras conhecidas do poder nacional: Lula e Alexandre de Moraes.
Lula, o líder carismático que retorna ao centro do palco como alguém ungido pela História, apresenta-se como o intérprete exclusivo da vontade popular. Seu discurso carrega a promessa de redenção: sem ele, o país estaria condenado; com ele, qualquer meio se justifica em nome de um suposto “bem maior”. Como no filme, a narrativa não se sustenta apenas na força, mas no encanto — na ideia de que o líder não pode ser questionado, apenas seguido.
Alexandre de Moraes, por sua vez, assume o papel do guardião do reino. Não governa pelo voto, mas pela autoridade que se expande a cada questionamento legítimo que lhe é feito. Quando Moraes é confrontado com qualquer questionamento, por mais legítimo e sincero que seja, sua resposta é indubitavelmente a mesma: dobra a aposta no arbítrio. Seu poder cresce não por limites claros, mas pela exceção permanente.
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Em nome da ordem, relativiza-se o direito; em nome da democracia, suspendem-se garantias; em nome da lei, aceita-se o arbítrio
Assim como no filme, a população é convencida de que o medo é necessário e que a obediência é virtude.
O ponto central da obra — e da analogia — está na confusão entre autoridade legítima e poder absoluto. No filme, o “rei” cai quando se revela humano. No Brasil, o risco é mais profundo: quando instituições passam a agir como se fossem infalíveis, quando líderes se veem acima da crítica e juízes acima da Constituição, a queda não é individual — é institucional.
A democracia não morre de uma vez. Ela se esvazia aos poucos, enquanto parte da sociedade aplaude, outra silencia e uma terceira é calada. O mito do salvador — seja político, seja togado — sempre cobra um preço alto: a renúncia à liberdade em troca de uma promessa de estabilidade.
O Homem que Queria Ser Rei termina como toda boa tragédia: com a lembrança de que nenhum poder sobrevive quando se divorcia da realidade. Resta saber se, no Brasil, aprenderemos com a ficção — ou se insistiremos em repeti-la como farsa, até que o custo seja pago por todos.




