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Brasília já foi uma cidade exclusivamente oficial, nos seus primeiros anos. Os que aqui habitavam eram funcionários públicos ou prestadores de serviços ao governo. Hoje, 66 anos depois da inauguração, já não é bem assim. Veio gente de todo o país e a cidade é o amálgama do Brasil. Tem todas os pratos, os sotaques, os costumes, é uma amostra do país, no oficial e no privado. Pois esse Sete de Setembro foi um retrato do abismo que o Estado brasileiro, centrado em Brasília e contrariando a denominação constitucional de “República Federativa”, encastelou-se numa corte afastada na nação, em razão da qual o Estado existe.
Nos palanques armados na Esplanada estava apenas o Brasil oficial, o dos comissionados, das autoridades federais dos três poderes. Na grama, que já foi pisada por milhões num Sete de Setembro, nenhum espectador da origem do poder, do povo. Desde criança, quando agitava a bandeirinha do Brasil na Rua Sete de Setembro da minha Cachoeira do Sul, nunca vi uma parada da Independência assim, sem povo. O povo que saiu para a rua no aniversário da Independência foi para o Eixo Rodoviário, o Eixão, comemorar o Brasil exigindo que o Estado brasileiro se livre da imoralidade de que está contaminado, nos três poderes.
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O Brasil oficial trouxe faixas de marqueteiro com a palavra “soberania”,com o objetivo de tornar as bravatas do presidente contra Trump em fator de propaganda eleitoral, mas ninguém explicou de quem é a soberania, nem para quê, muito menos para que serve, já que o povo perdeu a soberania, porque não decide nada, e ninguém no mundo oficial quer ouvir do povo o que foi exigido na Avenida Paulista lotada de gente pagadora de impostos, eleitora, cidadã, vociferando críticas aos presidentes da República e do Senado, a ministros do Supremo, ao procurador-geral, ao diretor da Polícia Federal.
A Paulista tem sido a ágora do Brasil, no coração do mais importante estado da Federação. A voz da Paulista fez cair a presidente Dilma. E agora pede a retirada da podridão que manipula o Estado brasileiro, usando o suor de todos, derramado em forma de impostos. Diferente do impeachmentde Dilma, o julgamento de agora é mais amplo e tem data marcada: 4 de outubro. A decisão que a origem do poder vai depositar nas urnas poderá ter o condão de fazer cessar o desrespeito à Constituição e aos que trabalham, ou de continuar a decadência, que vai deixar apenas ruínas. O apartheid do Sete de Setembro na capital do país já não é um aviso; é o espelho da separação entre o Estado e o povo a quem ele deveria servir.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



