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Imagine um país onde a polícia não existe para perseguir o crime, mas para vigiar quem se atreve a investigá-lo. Onde as leis não protegem o cidadão, mas servem de armadura para um círculo fechado de protegidos. Onde a Justiça virou teatro e as sentenças são combinadas antes dos julgamentos começarem.
Bem-vindo à Brasília de 2026.
Nesse cenário em que todos têm seu preço ou seu padrinho, a cúpula encarregada das investigações frequentava as festas de Daniel Vorcaro, o banqueiro investigado.
No celular de Vorcaro, apreendido antes de tentar fugir de jatinho para o exterior, estavam as provas: mensagens a Alexandre de Moraes pedindo intervenções na Polícia Federal e conversas com o procurador-geral Paulo Gonet combinando encontros, nas quais o chefe do Ministério Público perguntava se haveria "charuto e Macallan". Para completar a cena, a esposa de Moraes assinava com uma caneta luxuosa um contrato de R$ 131 milhões com o próprio banco sob investigação.
O investigado bancava o banquete. Os encarregados de investigá-lo estavam sentados à mesa.
Foi nesse ambiente que André Mendonça resolveu quebrar o script.
Enquanto os salões da capital celebravam acordos de camaradagem, ele permanecia como o estranho no ninho. O homem rotulado como "terrivelmente evangélico" virou piada nos bastidores em razão de suas virtudes: não frequentar as recepções, recusar os camarotes e manter a porta do gabinete fechada para os atalhos.
Em um sistema acostumado com a obediência, quem recusa o convite vira alvo. Ao fechar a porta do gabinete, Mendonça se tornou a principal ameaça da engrenagem
Quando ficou claro que, como relator do caso Banco Master, ele seguiria o rastro do dinheiro, a inteligência da Polícia Federal acionou seus motores. A missão não era investigar o crime. Era investigar quem investiga.
Seis relatórios secretos produzidos em um único mês. Os próprios agentes admitiam nos papéis que o material tinha "confiança baixa" e não sustentava acusação. A ordem se manteve: continuem vigiando. A falta de provas foi compensada com fartura de recursos para espionar.
O nível do absurdo é tal que André Mendonça precisou emitir uma ordem judicial para impedir que a Polícia Federal continuasse a espionagem e afastar o chefe da corporação. O magistrado usou a caneta em legítima defesa contra a polícia que deveria servir à lei.
Em menos de vinte e quatro horas, Flávio Dino derrubou a decisão e colocou o chefe da PF de volta ao cargo. Dino deu o recado: o aparato policial opera blindado pelos donos do poder, e qualquer um que tente impor limites ao arbítrio é enquadrado no dia seguinte.
O sistema reagiu em bloco para sufocar a voz dissonante e mostrar quem manda. Só que a pressa em esmagar a decisão de Mendonça teve o efeito oposto: escancarou ao país a podridão em que se encontra o STF.
Diante do esgoto, André Mendonça fez o que um magistrado digno deveria fazer: manteve as mãos limpas, honrou a toga e teve a coragem solitária de usar a caneta para expor as entranhas do sistema. Ele colocou a própria cabeça a prêmio para defender a lei e, por isso, precisa de uma muralha de apoio popular.
Mendonça não se vendeu; o que nós devemos a ele é não deixar que caminhe sozinho.

Anne Dias é advogada, mestranda em Ciência Política pela UFPR, comentarista e colunista da Gazeta do Povo. Tem trajetória em instituições no Brasil e no exterior dedicadas à promoção da liberdade, com experiência em Washington, D.C. É fundadora do Instituto Amplifica, iniciativa voltada à formação de vozes em defesa da liberdade no debate público. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



