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1º de outubro de 2006. Domingo. Final do primeiro turno das eleições presidenciais.
Vai ter segundo turno! É isso o que os canais oficiais anunciam para o país inteiro. Lula ouve o resultado e sente o chão tremer.
Do outro lado, o inimigo: Geraldo Alckmin, o candidato das privatizações, do capital, de tudo que Lula jurou combater desde o chão de fábrica.
Ele sabia que não seria fácil, mas não esperava isso. Afinal, todas as pesquisas indicavam que venceria já no primeiro turno.
Ajoelhado, Lula é mais do que um homem. É o metalúrgico que saiu do sindicato e chegou à Presidência, carregando nos ombros o sonho de um Brasil mais justo, igual e socialista. Perder a reeleição era ver esse sonho desmoronar muito antes da hora.
E então o telefone toca. Carlos Lupi, presidente do PDT, está do outro lado da linha. O PDT tinha acabado de perder no primeiro turno, com candidato próprio contra Lula. Quer marcar uma conversa, na manhã seguinte, se possível.
Eles se encontram. Lupi aperta a mão de Lula com força, olha no fundo dos olhos e diz o que todo grande aliado sabe dizer na hora certa: "Somos companheiros".
Lula se reconhece nele, e Lupi continua: "Lutamos pelo mesmo sonho; o sonho de Getúlio; o sonho de Brizola. Juntos, vamos concretizar a tão sonhada revolução trabalhista e salvar os oprimidos desse sistema opressor".
Lupi oferece algo valioso: o apoio integral do PDT no segundo turno.
E o acordo vai além: o que Lupi está negociando, de fato, é uma amizade verdadeira. Enfrentarão turbilhões, mas serão leais um ao outro até o final.
Juntos, vencem as eleições. Começa o segundo mandato de Lula, e, com ele, o início dessa amizade. Para honrar o que tinha prometido, Lula chama o amigo e oferece um ministério. Lupi já imaginava a Previdência, pasta que carrega parte do sonho trabalhista. Lula, que sempre foi um bom amigo, oferece algo ainda maior.
"Sabe quem criou o Ministério do Trabalho?", pergunta. "Getúlio Vargas. Sabe quem foi ministro do Trabalho? Jango". Lupi aceita na hora e custa a acreditar que finalmente será ministro. Grato ao amigo, tem certeza de que aquela amizade dará muitos frutos.
E o tempo passou, mantendo a amizade rara e pura. Quase duas décadas depois daquele telefonema, já em 2023, Lula assume pela terceira vez a Presidência. E, antes de qualquer outro nome, pensa no amigo. Entrega o que o amigo sonhava em ter lá atrás: o Ministério da Previdência Social.
Ao receber o convite, Lupi se emociona e, por um segundo, revive aquela primeira conversa. O mesmo aperto de mão, o mesmo olhar, o mesmo sonho. Graças a Lula, agora cabe a ele cuidar dos idosos e aposentados que passaram a vida construindo o Brasil e merecem, enfim, descanso e dignidade. Lá de algum lugar, Brizola deve estar inflando o peito.
E essa é uma das histórias de amizade mais lindas que Lula já construiu em décadas de vida pública. Tão linda que sobreviveu aos momentos mais difíceis que Carlos Lupi já enfrentou, daqueles que separam o amigo de verdade do mero conhecido.
O maior deles chega em abril de 2025. A Polícia Federal e a CGU descobrem um esquema que roda há cinco anos: associações e sindicatos descontando, todo mês, um pedacinho da aposentadoria de milhões de brasileiros. No total, mais de 6 bilhões desviados de cerca de nove milhões de aposentados e idosos, mais gente do que mora na cidade inteira do Rio de Janeiro.
Carlos Lupi, ministro da Previdência, ministério que supervisiona o INSS, sente o estômago revirar. Não é hora de pânico. Em uma das entrevistas, gagueja e, antes que dê tempo de escolher as palavras certas, deixa escapar: "Sim, sabia das denúncias desde 2023".
Mas Lula é macaco velho e não cai na pressão da imprensa. Não vai demitir seu aliado. Ainda que, todos os dias, algum jornalista o importune, cobrando o dever do presidente de exonerar um ministro diante de indícios de corrupção. Amizade é coisa séria.
E as provas vão se acumulando.
Descobrem que o "número 2" que Lupi colocou na Previdência recebe dinheiro do Careca do INSS, o homem apontado como arquiteto de todo o esquema. Planilhas do grupo registram os pagamentos, feitos direto a ele, que acaba preso.
Descobrem, também, uma amizade que o próprio Lupi confirma, numa audiência na Câmara, sob pressão: é amigo da advogada de uma das maiores entidades do esquema, o Sindnapi, de Frei Chico, que sozinho arrecadou mais de 387 milhões em descontos.
Descobrem, por fim, o mais grave de tudo: no acordo de colaboração de dois ex-dirigentes presos do INSS, o nome de Lupi aparece. Não como quem só fechou os olhos. Como quem, segundo os delatores, agiu para proteger gente por dentro do próprio esquema.
Mesmo assim, Lula segue leal.
Nesta semana do amigo, os dois voltaram a se ver. Vinte anos depois daquele telefonema de 2006. Num salão em Brasília, no palco do evento, Carlos Lupi representando mais uma vez o PDT, agora no apoio oficial à candidatura de Lula para 2026.
O mesmo Lupi, o mesmo Lula, a mesma dupla que preserva uma amizade intacta
"Hoje o PDT toma a decisão política de apoiar a reeleição do presidente Lula. Hoje não se trata de projetos de partido, mas de um projeto muito maior, um projeto de Brasil", diz Lupi, em seu lindo discurso, repleto de sonho, história e coerência.
Só uma palavra não aparece no discurso: Previdência. A pasta que ele mesmo comandou no governo Lula. Não seria o caso de falar sobre isso? Claro que não. Amigo de verdade não cobra satisfação. Só aplaude, sorri e segue sempre por perto.

Anne Dias é advogada, mestranda em Ciência Política pela UFPR, comentarista e colunista da Gazeta do Povo. Tem trajetória em instituições no Brasil e no exterior dedicadas à promoção da liberdade, com experiência em Washington, D.C. É fundadora do Instituto Amplifica, iniciativa voltada à formação de vozes em defesa da liberdade no debate público. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



