Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Antonio Cabrera

Antonio Cabrera

Aquecimento global

A chegada da ciência às questões climáticas e o fim das previsões exageradas

Previsões apocalípticas sobre o clima dominaram os debates nos últimos 15 anos. (Foto: Imagem produzida por Gemini IA/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

Thomas Sowell ensina que “muitos dos grandes desastres de nosso tempo foram cometidos por especialistas”. Isso pode parecer exagerado, mas, de forma muito discreta e sem nenhum alarde, no dia 1º de maio, o comitê internacional responsável pela seleção de cenários para o próximo ciclo de avaliações do IPCC (AR7) retirou formalmente os cenários de altíssima emissão — especificamente o RCP8.5 e seu sucessor, o SSP5-8.5 — da nova estrutura de modelagem, classificando-os como implausíveis.

O RCP8.5 (Representative Concentration Pathway) e o SSP5-8.5 (Shared Socioeconomic Pathway), que projetavam um futuro catastrófico com emissões contínuas de combustíveis fósseis até 2100, foram considerados implausíveis (ou seja, cenários de “futuro impossível”).

Embora retirado para futuros relatórios, o RCP8.5 dominou as pesquisas climáticas e as manchetes da mídia nos últimos 15 anos (AR5 e AR6), sendo frequentemente usado para simular os piores cenários possíveis.

A nossa ministra do Meio Ambiente talvez seja o retrato mais fiel do RCP8.5 no Brasil: usou e abusou desse cenário em entrevistas e em seus discursos para forçar a sua agenda exagerada das mudanças climáticas no Brasil.

Ninguém está defendendo a retirada das mudanças climáticas da pauta, mas é importante realçar que o cenário de emissões muito altas, como o dessas projeções acima, está sendo retirado da próxima geração de cenários do IPCC, refletindo uma recalibração, há muito esperada, do que constitui um futuro plausível sem políticas.

Esclarecendo, RCP significa Trajetória de Concentração Representativa. Era um dos cenários desenvolvidos para fornecer aos modeladores climáticos uma gama de futuros possíveis com os quais trabalhar.

A retirada do SSP5-8.5 marca uma mudança notável na forma como o IPCC enquadra o limite superior dos futuros plausíveis e provavelmente remodelará tanto a comunicação científica quanto o debate público em torno do risco climático na preparação para o AR7.

De acordo com dados compilados por Roger Pielke Jr., usando o Google Acadêmico, somente entre 2018 e 2021 aproximadamente 17.000 artigos acadêmicos foram publicados utilizando o cenário RCP 8.5. Outros 16.900 foram publicados nos três anos subsequentes — o que significa que o uso do cenário praticamente não diminuiu, mesmo com suas falhas se tornando amplamente conhecidas na comunidade científica.

Esses artigos acadêmicos não permaneceram restritos às revistas científicas. O “jornalismo” científico os amplificou. Cada estudo alarmante gerou artigos de notícias, programas de televisão, reportagens de rádio, publicações em redes sociais e currículos escolares.

Estimativas conservadoras sugerem que o número total de artigos na mídia mundial que fazem referência às projeções do RCP 8.5 — direta ou indiretamente, por meio dos estudos que as utilizaram — chega às centenas de milhares, possivelmente aproximando-se de um milhão de conteúdos ao longo das duas décadas de vigência do cenário.

Cada estudo alarmante gerou artigos de notícias, programas de televisão, reportagens de rádio, publicações em redes sociais e currículos escolares.

O problema é que essa métrica ainda continua presente nos discursos de nossos formuladores de política ambiental no Brasil. Há uma série de medidas draconianas adotadas pelo governo que se basearam em um cenário que a comunidade agora declara impossível.

Nesta semana, o dia amanheceu mais radiante para a ciência, além do fato de que reconheceram o mal que fizeram em nome dela.

Esse é um passo absolutamente enorme na ciência climática, que terá impactos duradouros em toda a pesquisa e nas políticas públicas.

Mas, e quanto ao Brasil? Vamos reavaliar esse futuro catastrófico que não haverá mais e rever as medidas exageradas que tomamos?

Resta aguardar, mas precisamos ficar atentos e discutir quais medidas devem ser eliminadas.

Conteúdo editado por: Jônatas Dias Lima

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.