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suicídio alain delon
Alain Delon recebe homenagem no Festival de Cannes de 2019.| Foto: GUILLAUME HORCAJUELO/ EFE

Cá do meu cantinho da internet, digo que estourou dia 18 de março a notícia de que Alain Delon deixaria o mundo por meio de eutanásia. Tudo começou com a seguinte manchete d’O Globo: “Alain Delon pede a filho que providencie sua eutanásia: ‘É o mais lógico e natural’”. Estaria Alain Delon preso a uma cama, com sonda, desejoso de morrer e sem forças para estourar os próprios miolos? Nada disso. Na matéria, lemos que ele passou a usar bengala depois de ter dois derrames, e que, anos atrás, declarou que “envelhecer é uma merda”, porque “você perde o rosto, perde a visão. Você levanta e, caramba, seu tornozelo dói”. Pois muito bem, senhoras e senhores, a própria velhice nos é apresentada como condição miserável a ser sanada com a morte. Matemos os velhinhos, libertemo-los de sua miséria.

No frigir dos ovos, não era eutanásia coisa nenhuma: era suicídio assistido. Como nos informa Luciano Trigo, “Diferentemente da eutanásia, na qual o paciente, geralmente em estado de saúde terminal, tem sua vida abreviada pelos médicos, com autorização da família, no suicídio assistido é o próprio paciente que injeta em si mesmo a droga letal. No caso, pentobarbital sódico, um potente barbitúrico que deprime o sistema nervoso central e provoca a morte em poucos minutos, de maneira indolor”.

Que suicídio seja confundido com eutanásia é sinal dos tempos. E que libertários e liberais achem isso o suprassumo da liberdade individual, é sinal da imbecilização generalizada entre os letrados. No atual estado de coisas, suicídio não é crime. Se uma pessoa tenta se matar e fracassa, não há lei alguma para puni-la. O suicídio é muito mais velho do que o tal pentobarbital sódico; quem quiser posar de letrado, tenha ao menos em mente as mortes de Sócrates, Sêneca, ou, para ficar mais perto no tempo, de Marat. Então deixemos bem clara qual é a liberdade extra que os suíços têm: a de ajudar os outros a se matarem.

Indução ao suicídio é crime

A própria indução ao suicídio é crime no Brasil. Diferentemente dos tempos dos varões de Plutarco, quando a perda da guerra condenava os homens à escravidão e as mulheres ao estupro, o suicídio hoje costuma ser decorrência de doença mental. Jogar lama numa ferida infeccionada é um ato deliberado que agrava uma doença física letal. Do mesmo jeito, incitar ao suicídio é um ato deliberado que agrava uma doença mental letal.

A sociedade já foi mais cuidadosa com isso. Tome-se como exemplo a prática jornalística de não noticiar suicídios: isto decorre da preocupação com o Efeito Werther, isto é, o fato já bem sabido desde o século XIX de que o suicídio é socialmente contagioso. Nesse século foi lançado o best seller juvenil de Goethe Os sofrimentos do jovem Werther, no qual o protagonista se mata. Os fãs do livro passaram a usar as mesmas roupas do jovem e a ter a mesma sina. Era a Wertherfieber, ou a Febre Werther. Mesmo assim, no glorioso século XXI, a Netflix lançou uma série juvenil 13 Reasons Why, romantizando suicídio de uma garota problemática e mostrando direitinho como enfiar a navalha. Resultado: um aumento de suicídios de adolescentes nos Estados Unidos atrelado ao lançamento da série. Não consta que a Netflix tenha sido punida.

Assim, há uma relativa desinformação acerca de suicídios, movida pela prevenção da Wertherfieber. Dizer que fulano se matou assim-assado em tal lugar desperta ideias suicidas em quem já está predisposto e à procura de um método, e então vai lá e imita. Parece um preço razoável a ser pago, se o conjunto das informações for armazenado e deixado à disposição de quem quiser procurá-las.

Não é o que está acontecendo. A OMS e o Brasil não divulgam dados de suicídio relativos a 2020. O normal é a OMS divulgar os dados do ano anterior – ou seja, já deveria ter saído 2021, mas não saiu nem 2020. Não temos como saber se o vírus matou mais ou menos do que as doenças mentais causadas pela catastrófica política de confinamento.

Então ficamos assim: censuramos as notícias de suicídios comuns para prevenir a Wertherfieber; as autoridades não soltam as estatísticas de suicídio sabe-se lá por quê. E o jornalismo bacana se empenha em jogar confete no suicídio para lá de progressista de Alain Delon. Ensina-se agora que é uma prática razoável, e que a vida na velhice não vale a pena. Faço coro à pergunta de Luciano Trigo: "por que divulgar essa decisão na mídia e nas redes sociais?". Carência de atenção? De todo modo, cabia à mídia não jogar confete.

E não é a primeira vez que ela faz isto. As coisas mudaram nesta pandemia. A carta de suicídio do ator Flávio Migliaccio foi reproduzida pelos veículos com seriedade, não obstante seja um óbvio escrito de deprimido (diz, por exemplo, ter tido “a impressão que foram 85 anos jogados fora… Num país como este”. Você pode não se lembrar do nome, mas com certeza conhece o rosto do ator. Teve uma carreira muito bem-sucedida e enfrentou o confinamento sozinho na velhice, sob o terror do noticiário. É claro que não foram 85 anos jogados fora. Mas vale tudo porque ele falou mal do país, que é entendido por uma certa elite como sinônimo do presidente da vez).

Nova eutanásia

Embora a correção tenha vindo depois, fato é que Alain Delon escolheu a expressão eutanásia. É a mesma malandragem que se faz com a palavra “aborto” em “aborto aos seis meses”. Um típico defensor da descriminalização do aborto defende-a pensando em embriões. Um típico defensor da eutanásia defende-a quando o paciente está tão mal que não consegue pôr termo à própria vida. No caso da menina estuprada grávida de seis meses, a questão levantada inclusive pelos pró-vida era: por que matar o feto, se ele é viável fora do corpo da mãe? Defender “aborto” de feto formado não é defender aborto; é defender infanticídio. Infanticídio é uma prática que encontra muito menos defensores do que aborto (para encontrar defensor de infanticídio, tem que ir a Princeton assistir a aulas de ética. E eu não estou brincando). Do mesmo jeito, defender a “eutanásia” de pessoas que têm saúde suficiente para dar fim à própria vida não é defender eutanásia, é defender o suicídio assistido ou o homicídio de pessoas insatisfeitas com a própria vida. Esta é uma tese muito mais radical do que a da eutanásia.

Na verdade, a “eutanásia” de Alain Delon vem na sequência de mais dois casos dignos de nota. O primeiro deles é o de Nancy/Nathan Verhelst, que solicitou eutanásia ao governo da Bélgica e conseguiu, morrendo aos 44 anos em 2013. Verhelst nasceu mulher entre vários irmãos homens, era destratada em função do seu sexo e tentou resolver seus problemas de autoestima mudando-o. Tomou hormônios, fez cirurgias para cortar os seios e criar um pênis falso. Sentiu-se péssima com o resultado, ficou com o corpo irremediavelmente danificado e pediu eutanásia em função de sua incurável miséria psicológica.

Em 2019, a ativista Noa Pothoven, de apenas 17 anos, conseguiu um substitutivo de eutanásia na Holanda. Ela alegava que, por ter sido sexualmente abusada na infância, também estava numa miséria psicológica incurável. Fez campanha por isso com o apoio da mãe – e ninguém tirou a guarda dessa louca. No fim, a Holanda a deixou morrer por inanição sedada, uma prática considerada diferente de eutanásia por residir mais na inação (deixar de alimentar) do que na ação (dar veneno).

Declínio moral

Assim, aprendemos que é correto matar vítimas de abuso, e é bem capaz de algum DSM do futuro recomendar logo eutanásia para aquelas que se sintam mal com estupro. Quem não for feliz ao corredor da morte será considerado negacionista anticiência, pois mil papers atestarão que até agora a taxa de insatisfação dos eutanasiados é nula.

Vejamos a falta de parâmetros morais em questão. Há vítimas de estupro que se matam; há outras que dão a volta por cima. Por que dizer que uma opção é tão boa quanto outra, em vez de, como sempre, considerar que dar a volta por cima é a meta? No atual estado de coisas, a vítima de estupro que quiser se suicidar é livre para isso. Nós é que não somos livres para ajudá-la a se suicidar, nem para matá-la, nem para incitá-la ao suicídio. Em vez disso, nossa ação está obrigada a se orientar pela volta por cima.

Alain Delon disse que é o racional ter eutanásia aos 86 anos. Se aceitarmos que isso é o racional, então Clint Eastwood estar vivo – e realizando projetos – aos 91 anos é uma irracionalidade. Até quando o mundo pautado pela Ciência vai permitir irracionalidades?

E é uma coisa macabra o fato de a primeira eutanásia dessas ser a de uma destransicionada. Na época não havia um termo para isto; hoje, há no mundo rico um Detrans Awareness Day, ou Dia da Consciência Destransicionada, que alerta para a maneira precipitada como adolescentes com problemas mentais são levados à mudança de sexo. Sobretudo as do sexo feminino.

Ao menos essas moças foram vitimadas na adolescência. Nos Estados Unidos, a peleja é impedir que ideologia de gênero seja ensinada na pré-escola. Faz-se de tudo para tirar os filhos da guarda dos pais e castrá-los quimicamente. Depois os adolescentes se matam, as mortes são atribuídas à transfobia estrutural – mais um motivo para tirá-los de famílias transfóbicas e inculcar ideologia de gênero na sociedade. Dá para crer na boa fé dessa gente? Se os parâmetros éticos fossem os mesmos do século XIX, o reconhecimento do contágio social da disforia de gênero implicaria o silêncio sobre o tema na grande mídia, e esse seria um assunto de psicólogos e médicos.

As demandas medicamentosas da ideologia trans criaram um tremendo incentivo financeiro para as farmacêuticas. Assim, nos EUA os seguros estão sendo obrigados a cobrir mudança de sexo; na Europa e no Brasil, a saúde pública também faz. Pelo andar da carruagem, bem podemos ter o programa Minha Eutanásia, Minha Vida, com veneno público, gratuito, de qualidade, superfaturado. A TV terá uma novela para combater o preconceito contra pessoas que querem fazer eutanásia. Nas histórias infantis, uma Bele Adormecide Não-Binárie prefere não acordar para salvar o planeta, reduzindo a pegada de carbono, em vez de se sujeitar ao machismo estrutural e à cisnormatividade.

Letrados frívolos

É evidente que há algo de muito errado no Ocidente, e que o progressismo está matando impunemente. Castra adolescentes, mata fetos, incita à obesidade e agora à morte direta. Ainda assim, sempre haverá quem ache que é seu papel pensar o mundo apenas com base em premissas abstratas, sem levar em conta os fatos que se estatelam diante dos nossos narizes. Não adianta mostrar nada disso. Se o libertário acha que o suicídio assistido é uma consequência lógica de suas premissas, matizá-las ou mudá-las está fora de questão. O que importa é correr às redes sociais e jogar confete em cima de Alain Delon junto com os lacradores.

Tudo com base em muita ciência, muito progresso. Como se a Wertherfieber não fosse fenômeno conhecido pela ciência há muito. E ai de quem os mandar ter uma pulga atrás da orelha: essa gente passiva acha que toda gente mal-intencionada publica uma carta de más intenções, e quem cata más intenções não-declaradas é conspiracionista.

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