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Energia como droga
| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

A peculiar forma de loucura que se iniciou há coisa de 500 anos e tomou sua forma mais viciosa nos últimos 200 tem como característica principal, diria eu, a relação desordenada entre o homem e o restante da Criação. Na sociedade ocidental original, pré-moderna, tinha-se por evidente que o homem é o custódio da criação. Seu tomador de conta, não seu proprietário. O resultado mais que evidente disto é uma constante percepção de que a nossa posse de algo, do que quer que seja, não poderia implicar na possibilidade de destruição do possuído.

Afinal, a terra de que somos donos hoje era de outros alguns séculos atrás, e pertencerá a ainda outros daqui a alguns séculos. Somos apenas seus custódios, e simplesmente não poderíamos sequer cogitar que tivéssemos o direito de transformá-la num deserto. Nossa busca de prazer (que na Modernidade se disfarça de “felicidade”) jamais nos daria qualquer título de propriedade definitivo ao ponto de nos permitir a destruição total daquilo de que somos, afinal, meros custódios. Um dia o dono da casa voltará e nos pedirá contas, como fartamente exemplificado em tantas parábolas evangélicas.

Já na Modernidade, porém, o que tivemos e ainda temos é o exato oposto. Quem se vê de posse de algo tem como primeiro pensamento um modo de fazer com que aquela pequena posse possa servir ao aumento e perpetuação de seu prazer pessoal. Se para isso for necessário destruir o possuído, não se percebe problema moral algum: afinal, aquilo nos pertence. Podemos destruí-lo na hora em que bem entendermos. É por isso que subitamente as imensas jazidas de carvão da Inglaterra passaram a ser queimadas, como queimadas são até hoje as jazidas de petróleo do mundo inteiro. O calor da queima não tem por fim preservar do enregelante inverno dos países temperados, sim simplesmente aumentar o prazer. Diminuir o custo por unidade de produtos no mais das vezes perfeitamente supérfluos. Ou, mais ainda: criar necessidades há pouco inexistentes e garantir que elas demandem enorme quantidade de energia para serem mantidas. Tudo, afinal, acaba por resumir-se ao mesmo fenômeno: a energia.

Nossa sociedade trata a energia como um louco viciado trata a droga. Nunca basta, nunca há energia suficiente

Toda transformação, toda mudança, requer alguma energia. Numa sociedade em que a mudança é a regra, em que o novo é aprioristicamente percebido como melhor, a necessidade de energia só pode crescer exponencialmente. Criou-se assim um ciclo vicioso que se pode perceber com clareza ao examinar objetos do início da Revolução Industrial (como os moinhos de café e bombas d’água ingleses importados no tempo do Império e ainda em ação no nosso vasto interior) e compará-los com objetos atuais. Enquanto uma bomba d’água do tempo em que o vício em energia ainda era pequeno, do tempo em que a sociedade experimentava a energia como alguém recém-chegado ao estrelato súbito nas novelas ou a Hollywood experimenta a cocaína, tinha-se ao menos o cuidado de fazer com que o dispêndio de energia e de material “valesse a pena”, produzindo algo que durasse indefinidamente. É claro que mesmo então já havia absurdos; o Rio de Janeiro do início do século 19 consumia manteiga inglesa, por exemplo.

Mais tarde, todavia, descobriu-se que o consumo (literalmente: a queima) de energia poderia servir como moto-perpétuo duma sociedade, enquanto durasse a fonte de energia. Foi então que realmente teve início o consumismo, a sociedade baseada na destruição sistemática dos recursos de que deveríamos ser meros custódios. É para que seja consumida matéria-prima direta (plástico, terras raras, minerais valiosos e muito mais) e indireta (combustíveis fósseis para gerar a famosa energia) que os celulares – exemplo mais egrégio dum fenômeno geral – são propositadamente feitos para não durar. O problema passa a ser o que fazer com os restos de tudo o que foi consumido com a finalidade de aumentar o consumo e assim manter girando as rodas duma sociedade tresloucada, cujos delírios de “desenvolvimento permanente” demandam o consumo incessante, a destruição ininterrupta de tudo o que nos cerca.

E eis que lixões e mais lixões veem-se cheios de celulares e computadores velhos, que minam sabe Deus que venenos para o lençol freático. E eis que usinas nucleares são construídas a torto e a direito para fornecer a bendita “energia” com que se poderá queimar mais e mais coisas de que temos a custódia, mas que não nos pertencem. E cada usina dessas, com sua carapaça de cimento (que, ao contrário do cimento romano de há 2 mil anos, não dura mais que um século) a nos separar de suas entranhas, gera constantemente resíduos tremendamente radiativos. Coisas que daqui a alguns milhares de anos, quando já não houver mais memória alguma desta sociedade e de seu frenesi de atirar tudo ao fogo, ainda envenenarão invisivelmente quem passar perto daquela área marcada apenas pelo acúmulo dum pó que um dia terá sido cimento.

Nossa sociedade trata a energia como um louco viciado trata a droga. Nunca basta, nunca há energia suficiente, pois o que se quer é uma destruição que cresça exponencialmente, e para isso o consumo de energia é necessariamente exponencial. Sem energia não se tem como extrair da terra até os últimos resquícios de sabe-se lá que raríssimo material (o da moda parece ser o lítio, para mais e mais baterias), que por sua vez será consumido, destruído tresloucadamente, garantindo que a tevê em que se assistem insanidades seja sempre nova (e as velhas estejam lentamente minando venenos nos lixões). Garantindo que se possa manter em temperatura constantemente agradável, até quando não há ninguém em casa, uma gigantesca residência construída num lugar em que o bom-senso recomendaria não tentar viver. Agora mesmo, nos EUA, devido à massa de ar gelado que vem descendo do Ártico, o consumo de energia para calefação aumentou tão tremendamente que, deixado ao mercado, o preço do quilowatt-hora terá sido acrescido de quatro ou cinco zeros à direita. Mas mesmo sem o frio súbito já havia o calor insano, “combatido” pelo consumo incessante de energia para resfriar as casas e os carros.

O cocainômano quer a cocaína justamente por conta da destrutiva “energia” que ela lhe dá. O mais famoso deles, Sigmund Freud, dizia que “cocainizar as narinas” o tornava um “super-homem”. É exatamente esta a relação da sociedade moderna agonizante com a energia. Foram-se já todas as desculpas esfarrapadas daquela primeira lua-de-mel com a droga. Não se produz mais nada para durar, propositadamente, porque é a destruição (consumo...) que gera o tal “desenvolvimento”, em que as pessoas precisam de cada vez mais coisas, produzidas com dispêndio cada vez mais alucinado de energia e materiais, para perceber cada vez menos sentido na vida. O homem passou de animal que pensa, de animal que fala, a animal que destrói, destrói sem cessar, por ver na destruição um bizarro sucedâneo de crescimento.

O comunismo e o capitalismo surgiram do mesmo diabólico “útero” da Modernidade, com o mesmo objetivo: conquistar um conforto material que, em tese, faria as vezes de sentido para a vida. Daí a própria Constituição americana colocar a “busca de felicidade” (material) como fim da vida. Por razões já sabidas por São Tomás 800 anos antes (e reiteradas na surradíssima expressão “o que engorda o boi é o olho do dono”), o comunismo fracassou. Os bois morreram de fome, e a miséria generalizou-se enquanto o ar era envenenado e os rios pegavam fogo sozinhos na busca insana do tal “desenvolvimento” puramente material. Já o capitalismo foi além de seus sonhos mais delirantes, criando uma multidão de pessoas que não veem sentido algum na vida além do desejo de destruição. Foi-me contado outro dia que, num curso de noivos, perguntou-se a cada casal, numa dessas horrendas “dinâmicas”, qual seria o maior sonho do parceiro. Pois bem, praticamente todos os sonhos eram de consumo, logo de destruição: um carrão, uma mansão, o que for.

Sabe-se, contudo, que após o breve gozo da aquisição recente o sonho do carrão é quase imediatamente substituído pelo de outro carrão ainda mais caro. Na verdade, não se sonha com o carrão, sim com o consumo de carrões sucessivos, com a sucessiva destruição de máquinas caríssimas, mas feitas propositadamente para que não durem mais que poucos anos. E, mais ainda, cuja reciclagem é praticamente impossível. Esta é a regra, não a exceção. Quase nada é realmente reciclável, inclusive e especialmente entre as coisas mais caras, as coisas mais compradas, as coisas que mais se diz o serem. É raríssimo o plástico reciclável, por exemplo, e mesmo os poucos que o são dificilmente compensarão economicamente reciclar.

Nem o homem é um vírus atacando uma natureza divinizada, nem o planeta é um amontoado de recursos implorando que sejam explorados. Somos custódios do que deve poder também servir a nossos descendentes daqui a milênios

O vício é tamanho que já há o sonho duma cornucópia infindável de energia, na forma da dita “esfera de Dyson”, uma série de anéis ao redor duma estrela qualquer minando-lhe as energias para possibilitar mais e mais consumo, ou seja, mais e mais destruição. Do mesmo modo, a própria energia atômica começou sendo usada em estado bruto, para a destruição genocida de Hiroshima e Nagasaki. Só depois é que ela passou a ser usada para produzir energia elétrica, ao preço de seus venenos de duração maior que a de qualquer civilização conhecida, prova suprema da imbecilidade humana. O absurdo de tal comportamento salta aos olhos quando se pensa que mesmo os japoneses, provavelmente o povo mais perfeccionista e responsável em toda a vasta raça humana, foram incapazes de prever e impedir a transformação da usina de Fukushima em uma fonte de radioatividade mortífera tão forte que nem mesmo robôs podem aproximar-se de suas ruínas. Nem agora, nem daqui a 2 ou 3 mil anos, quando é provável que ninguém mais saiba o que ocorreu ali.

A nossa sociedade está em seus estertores, e algo diferente e para nós hoje impossível de prever virá de nossos descendentes. Sociedades nascem, crescem e morrem, e a nossa não é exceção. Mesmo a sociedade do antigo Egito, que durou milênios, chegou um dia ao fim (e as múmias de seus dirigentes foram, claro, consumidas em cápsulas – à guisa de remédios – na Era Moderna!). A morte de um viciado, todavia, é inglória. E é este o caso na nossa sociedade; será que ela acabará como nas cenas finais de Scarface, em que o gângster epônimo de Al Pacino mergulha a cara em cocaína pura para morrer atirando contra outros gângsteres, numa macabra farsa de heroísmo? Ou será que ela poderá livrar-se realmente de seu vício, abrindo caminho a uma relação mais saudável ou, ao menos, menos doentia com o restante da Criação?

Não se trata nem das imbecilidades e platitudes da ecochatice aborrescente da jovem Greta Tintin Eleonora Ernman Thunberg, nem das igualmente bizarras ideias do “Great Reset” de Klaus Schwab e Bill Gates. Trata-se, sim, de perceber que nem o homem é um vírus atacando uma natureza divinizada, nem o planeta é um amontoado de recursos implorando que sejam explorados. Somos custódios do que deve poder também servir a nossos descendentes daqui a milênios, os mesmos descendentes que estamos envenenando com os horrores radioativos que plantamos por toda parte. Precisamos, em suma, iniciar o quanto antes um programa de 12 passos, nos moldes dos Alcoólicos Anônimos, ou o que quer que seja que nos livre desta visão absurda que faz do consumo – literalmente a destruição – o caminho de um dito progresso. A opção é cair como Scarface.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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