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Profundezas
| Foto: Steve Buissinne/Pixabay

Quase todas as mitologias pagãs concebem um universo com três níveis: um superior, aéreo ou celeste, o domínio das aves, deuses e criaturas sobre-humanas benéficas; um intermediário por nós todos habitado; e, finalmente, um “sub-mundo” inferior, lar das sombras de finados, ancestrais em geral e seres sobre-humanos perigosíssimos. Duma certa maneira, trata-se dum reflexo do que há na alma de todo homem. Já dizia Chesterton que o homem jamais se comporta como um animal: quando se comporta mal, coloca-se muito abaixo deles (que não têm a opção de agir racionalmente), e quando se comporta bem junta-se aos anjos. As criaturas das profundezas estavam sempre à espreita nas mitologias pagãs. Seu surgimento dum lago profundo ou duma caverna para fazer o mal só não devastaria a terra média devido à permanente proteção dada pelas criaturas aladas suas inimigas.

Este domínio do homem pelo mal, a que a Escritura alude ao afirmar que abyssus abyssum invocat, “abismo atrai abismo”, está em geral fora do plano de percepção do citadino moderno de classe média, que presumo ser o caso de meu paciente leitor. Ou, melhor dizendo, resume-se a pecadilhos quase insignificantes perto das profundezas a que pode chegar a alma humana. Assim, ao ler uma notícia sobre algum crime particularmente brutal, o choque é tamanho que aquilo lhe parece completamente incompreensível, ou mesmo impossível. Não creio ser necessário dar exemplos, na medida em que qualquer página de notícias mais popularesca fatalmente oferece à contemplação alguns desses por dia. Basta dizer que, perto do que se faz por aí, é até compreensível a arrogância burguesa de achar-se “bom”, como se a combinação de falta de oportunidade e medo de ser pego tivesse o poder de nos elevar de alguma forma acima do que nos é natural.

A psicopatia combinada à esperteza crua é quase um superpoder na sociedade burguesa

Nossa sociedade, contudo, tem – ela também – um “sub-mundo”. Um lugar de sombras e perigos, de morte, sangue e violência insensata e súbita. Um mundo que é escondido dos olhos da maioria, parcialmente vislumbrável em sua feiura apenas no noticiário policial. Este submundo, agora já sem hífen, não é habitado apenas pelos psicopatas fracassados que costumam ser presos. Lembro aos inocentes que os psicopatas bem-sucedidos no mais das vezes tornam-se líderes religiosos, políticos ou financeiros. Afinal, a psicopatia combinada à esperteza crua é quase um superpoder na sociedade burguesa.

Além dos frequentadores do noticiário policial, sobrevive no mundo em que reina a maldade enorme parcela da população, toda a gente que vive naqueles lugares aos quais a ordem burguesa não chega quase nunca e, quando o faz, surge mais como desordem adicional que como investida real da ordem. Esse mundo caótico que hoje aprisiona as classes baixas não apenas brasileiras, mas de quase todo o planeta, consegue manter-se oculto das classes médias quase o tempo todo. A gentil Dona Maria, que carinhosamente prepara o almoço familiar do dentista, vê-se todos os dias atravessando de condução lotada a divisa entre mundos que um pagão colocaria numa caverna ou lago. Já o dentista imagina, em sua inocente ignorância, que a vida dela em casa é de alguma forma semelhante à sua. Ele não sabe que onde ela mora a ordem não é mantida pela população e reforçada pela polícia nos raros casos em que tal coisa se faz necessária, mas imposta por uma sucessão de gangues criminosas. Ele não tem ideia do que seja a “transição de poder” que ocorre não entre esquerda e direita, mas entre duas canzoadas de facínoras que só respeitam a lei da selva. E, dependendo da quantidade de droga que tenham consumido nas últimas horas, por vezes nem a esta.

A polícia conhece esse mundo, e é por isso que é tão difícil a muitos de seus membros esconder o desprezo que nutrem pelos “inocentes” da classe média. É por isso que é tão incomum nos meios policiais a visão rousseauniana dum homem naturalmente bom. É por isso que é raro, raríssimo, quem na polícia dê o mínimo assentimento aos argumentos desarmamentistas ora avançados pelos que pegaram em armas contra os governos militares, que tratam armas nas mãos de pessoas honestas e de criminosos como sendo basicamente a mesma coisa.

Estima-se que cerca de quatro pessoas em cada cem sejam psicopatas, ou seja, desprovidos de capacidade de compadecer, de sentir em si o sofrimento do próximo. Destes quatro, que logo se veem transformados num número monstruoso quando pensamos que uma cidade média para pequena os terá na faixa dos quatro dígitos, nem todos agem de maneira abertamente monstruosa. Para que serve, afinal, degolar as pessoas quando é muito mais lucrativo no médio e longo prazo simplesmente enganar chefes e clientes e explorar subordinados, aproveitando-se de todos sem deixar rastros que possam levar a algum tipo de punição mais séria? O importante é levar vantagem, certo?

Alguns, todavia, realmente amam o cheiro do sangue, e percebem o esquartejamento não como um serviço a ser feito em vista dalgum lucro, mas como um raro prazer, um fim a ser buscado por si mesmo. Destes, os mais inteligentes vão parar na polícia, e só cessam seus malfeitos se finalmente são descobertos e presos. Neste ponto, muitos deles já terão alcançado, por sobre o suor, sangue e lágrimas alheios, o topo da carreira. Os mais burros, os mais loucos, os mais estouvados, todavia, escolhem a vida curta e intensa que o crime pode proporcionar. Fazem da vida uma viagem de cocaína e da morte precoce, uma inevitabilidade bem-vinda.

Quando se pensa que no Brasil apenas uma minoria ínfima dos homicídios é solucionada e tem seu autor condenado, e que a maior parte deles foi “resolvida” por a polícia encontrar o assassino coberto de sangue chorando ao lado da vítima, vê-se que em boa medida o crime compensa. A chance de ser preso por um homicídio é muito pequena. Por dois, apenas um pouco maior. Por dez ou por 50, tampouco aumenta muito. Na verdade, tal como Al Capone, que foi pego por sonegação fiscal, o psicopata violento no ecossistema do submundo brasileiro tem mais a temer de seus concorrentes comerciais que da polícia.

É raro, raríssimo, quem na polícia dê o mínimo assentimento aos argumentos desarmamentistas ora avançados pelos que pegaram em armas contra os governos militares, que tratam armas nas mãos de pessoas honestas e de criminosos como sendo basicamente a mesma coisa

Afinal, a concorrência entre psicopatas tem como via de resolução primeira o chumbo quente, para gozo de quem atira e desgraça de quem é morto. Esta, aliás, é outra das muitas razões por que tão poucos homicídios brasileiros não são sequer investigados a sério: na visão de muitos policiais o assassinato dum traficante por outro não é bem um homicídio; estaria mais para um tipo macabro de limpeza social. Esta é também a razão pela qual é tão forte a tentação entre os policiais de unir-se a tal esforço, como fartamente comprovado pela tristemente longa lista de esquadrões da morte formados por policiais em nossa história recente.

Mas o fato é que nas megalópoles brasileiras uma vasta sombra encobre os atos dos personagens mais cruéis do submundo, impedindo que as elites sequer percebam a dimensão da ignorância em que vivem quanto àquilo que atormenta os que lhes prestam serviços. Fazendo uma forcinha, é até mesmo possível ao cidadão de classe média acreditar na patacoada rousseauniana e ter “fé no ser humano”. Soubesse ele do mundo lá fora, veria ser uma aposta muito mais garantida a que se faça na desumanidade de tal ser. Quem não tem opção, quem se vê preso nas classes mais baixas pelo ubíquo e eficiente mecanismo que impede em grande medida a ascensão social no país, sabe que a coisa é bem diferente. Daí até, quem sabe, venha parte do fascínio despertado pela onipresença dos demônios, diabos e capetas em geral no discurso neopentecostal. É certamente razoável, para quem se vê cercado por belzebus em forma de gente, atribuir-lhes os atos a algum ser maléfico que nem humano é.

Da mesma forma, os “pássaros-trovão” a quem os índios americanos atribuíam a defesa dos humanos contra as forças subterrâneas veem-se substituídos pelos pastores com suas “orações poderosas”, descarregos e exorcismos. Recoloca-se, contudo, o problema quando os fiéis descobrem que o pastor estava mais para a serpente que para o pássaro. Não que tivessem, como a patética classe média, “fé no ser humano”, mas, ao contrário, por ser o pastor percebido como encarnação viva ou conduto das forças do mundo superior. Daí o sucesso dos tantos profissionais da área que fazem declarações hiperbólicas que, para a classe média, só podem soar como piadas. Outro dia li duma que teria arrancado o rabo duma sereia, esbofeteado Iemanjá e algum outro legítimo Trabalho de Hércules.

Como todo sociólogo digno de tal nome já está careca de saber, continua o fato social de que temos uma sociedade dividida em estamentos de pouca comunicação. Agora, contudo, o fracasso definitivo da sempre sonhada implementação duma ordem burguesa moderna no Brasuquistão lançou, ao menos nas capitais e cidades maiores, o estamento inferior às fauces das feras. No interior a coisa é um pouco menos ruim. Afinal, uma população menor terá sempre menos criminosos violentos, até por o porcentual de psicopatia ser mais ou menos constante. Do mesmo modo, uma população menos afastada das atividades de caça de subsistência não só não tem qualquer pejo, como dispõe dos instrumentos necessários para matar uma que outra onça humana no admirável mundo novo da pós-modernidade. Já tive o privilégio (sociológico...) de testemunhar o fracasso duma invasão de favela interiorana por traficantes da capital, tombados como cotias prenhas, um a um, por balotes certeiros disparados por senhorezinhos de idade armados com espingardas da Guerra do Paraguai.

Quando se pensa que no Brasil apenas uma minoria ínfima dos homicídios é solucionada e tem seu autor condenado, vê-se que em boa medida o crime compensa

Nas capitais, entretanto, isto não tem como ocorrer. Nem isto, nem uma “retomada” pelo poder público do que, na verdade, jamais foi seu. Os agentes do poder público, deixando de lado seu papel de representantes duma ordem burocrática, muitas vezes passaram e passam ainda à ação, criando milícias e substituindo as gangues anteriores. Não se trata, no entanto, de uma tomada de poder para a ordem oficial. É a substituição duma ordem extraoficial por outra, em que os agentes do Estado agem em nome e interesse próprio. Cabe lembrar que em momento histórico em muito semelhante ao nosso atual, na decadência final de Roma, não apenas o mesmo aconteceu como foi daí, das milícias particulares organizadas por soldados romanos que já não viam mais a cor do soldo, que veio a surgir a nobreza feudal europeia.

Não se tem, é claro, modo algum de prever o futuro. Há inúmeras possibilidades de desenvolvimento desta questão. Infelizmente todas elas, aparentemente, dependem de confrontos violentos entre diversos tipos de psicopatas, todos agindo em benefício próprio. A famosa “impessoalidade” moderna acabou – mormente no Brasil, em que ela foi uma espécie de Batalha de Itararé, muito badalada, mas jamais ocorrida. O que virá, seja aqui, seja na França (com suas 751 “zones sensibles”, em que a polícia só entra de caveirão e alianças de islamofascistas e traficantes dominam pelo medo a população), seja na Bélgica, na Tailândia, ou mesmo em Mianmar, está ainda além do horizonte. Só uma coisa se pode saber: o que virá nos seria tão estranho e tão inimaginável hoje quanto o Medievo para um romano do século 4.º.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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