Distribuição de alimentos pelos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAPs), criado em meio à crise de alimentos no país.| Foto: Reprodução/VTV
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Os planos da oposição de dar um fim ao regime chavista na Venezuela estão mais distantes. Depois de ver sua economia chegar ao fundo do poço e a taxa de pobreza explodir, com a maior taxa inflacionária do mundo, o país sul-americano vive agora um momento de queda da inflação, estabilidade da moeda nacional (o bolívar) e crescimento da economia, apesar de tímido. A atual conjuntura tem um grande beneficiado: o presidente chavista Nicolás Maduro, que, por mais de uma vez, esteve bem perto de perder o poder.

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Os dados econômicos e sociais atuais referentes à Venezuela são difusos, divergentes e difíceis de serem verificados com exatidão. O Banco Central do país não publica em seu site, desde 2017, os números da evolução do Produto Interno Bruto (PIB). Apesar da falta de dados oficiais, a grande maioria das instituições e entidades que analisam a economia venezuelana confirmam mudança de cenário a partir de 2021.

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A tímida recuperação econômica é reconhecida até mesmo por estudos e levantamentos realizados por entidades ligadas à oposição. O Observatório Venezuelano de Finanças (OVF), por exemplo, próximo ao principal oposicionista a Maduro, o autoproclamado presidente Juan Guaidó, divulgou que a inflação de fevereiro passado foi de 1,7% e que o acumulado em 2022 chega a 6,6%. Os dados são melhores do que o apresentado pelo Banco Central da Venezuela (BCV), que apontou inflação de 2,9% em fevereiro.

Esses números seriam imagináveis há alguns anos, quando o país mergulhou na hiperinflação. Em 2018, por exemplo, a Venezuela registrou inflação de 130.060%, de acordo com dados do BCV.

O OVF apresenta outros números mais otimistas que os cogitados pelo próprio governo. Em janeiro último, Maduro anunciou que a economia do país deveria crescer mais de 4% em 2021. De acordo com Indicador de Atividade Econômica do OVF, o crescimento foi de 6,8% no ano passado.

Os números estimados internamente não correspondem a projeções feitas anteriormente por organismos multilaterais. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) haviam projetado quedas de 5% e 3%, respectivamente, em 2021.

Loja anuncia venda de produtos em dólar, em Caracas: regime deixou correr a dolarização para controlar a inflação.| Foto: Miguel Gutiérrez/EFE
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Para 2022, as estimativas vêm melhorando desde o início do ano. O Instituto de Investigações Econômicas e Sociais da Universidade Católica Católica Andrés Bello (IIES-UCAB), uma das instituições mais confiáveis do país, prevê crescimento econômico de 8,6 % neste ano.

Os dados são tímidos perto da queda abrupta da atividade econômica no país vizinho do Brasil. Neste século a Venezuela viveu dois momentos distintos, ambos sobre governos chavistas. Segundo dados do Banco Mundial, o pais atingiu o auge de crescimento em 2014, com PIB de US$ 482,3 bilhões e renda per capita de US$ 16 mil. Para efeito de comparação, nesse mesmo ano a renda per capita do Brasil era de US$ 12,1 mil, de acordo com o Banco Mundial.

Depois disso, em apenas seis anos, os venezuelanos viram uma grande tragédia econômica e social se abater sobre eles: o bem-estar sumiu rapidamente e o desabastecimento e a pobreza se disseminaram. Dados do FMI, do Banco Mundial e de outros organismos apontam que a economia venezuelana caiu cerca de 80% desde então. O PIB chegou a menos de US$ 50 bilhões em 2020 e a renda per capita baixou a US$ 1.691, números que são contestados pelo governo Maduro.

A pergunta que vem à tona é, como a Venezuela está conseguindo sair, mesmo que lentamente, da tragédia que se abateu sobre sua população? As respostas indicam vários fatores, mas alguns são comuns em todas as análises: a alta do preço do petróleo, a dolarização facilitada por remessas de migrantes e o relaxo das sanções impostas pelos EUA.

Com o aumento dos preços internacionais de petróleo, que passou de cerca de US$ 34 a mais de US$ 100 o barril, o governo americano vem fazendo “vistas grossas” ao comércio do óleo venezuelano. Com isso, a indústria petroleira venezuelana recuperou parte de sua produção.

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Petroleira da Venezuela recupera parte da produção e se beneficia com aumento do preço do petróleo.| Foto: Reprodução/VTV

A estatal de petróleo da Venezuela (PDVSA) anunciou em dezembro de 2021 que ultrapassou um milhão de barris de petróleo diariamente. A cifra ainda está longe dos mais de 2 milhões de barris diários de 2015, mas é muito acima dos 350 mil barris diários de 2020. Os preços nas alturas proporcionaram ingresso de dólares aos cofres do governo. Agora, Maduro diz que a meta é chegar aos 2 milhões de barris diários até o final de 2022, cifra que alguns especialistas consideram impossível de atingir.

Em meio à guerra da Ucrânia, o governo chavista joga com os EUA e a Rússia ao mesmo tempo, na tentativa de tirar proveito da crise. No início de março, o governo Maduro recebeu em Caracas uma delegação dos EUA, a maior desde 1999. Dias depois, a vice-presidente Delcy Rodríguez esteve reunida na Turquia com o chanceler russo, Serguei Lavrov, a quem se referiu “como amigo”.

Na reunião de 5 e 6 de março, entre representantes do governo de Joe Biden e Maduro, um dos assuntos na mesa foi “seguridade energética”. Traduzindo, o alvo dos americanos é o petróleo venezuelano diante da crise com a Rússia, um dos principais produtores do mundo. Antes das sanções do governo Trump, os EUA eram o melhor comprador de petróleo da Venezuela.

Dias depois do encontro, a multinacional Chevron anunciou que estava em preparativos para retomar as operações na Venezuela, na expectativa de suspensão de parte das sanções norte-americanas.

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Outro fator decisivo para que a Venezuela estancasse a queda de sua economia foi a dolarização. Desde 2008, com a hiperinflação, o governo cortou 14 zeros do bolívar, a moeda nacional. Ultimamente o bolívar se estabilizou. Não era para menos, hoje boa parte dos negócios do país é movida a dólar. Na média de estudos feitos no país, hoje mais de 60% dos salários são pagos com a moeda americana e cerca de 40% dos preços se fixam em dólar, que se tornou moeda comum nas transações comerciais.

Uma parte dos dólares que alimentam a economia da Venezuela vem das remessas dos mais de 3 milhões de venezuelanos que emigraram durante o auge da crise e, hoje, muitos deles ainda estão espalhados por todas as partes do mundo. A grande maioria dos migrantes deixou família na Venezuela e envia dinheiro regularmente para familiares.

Com os ventos menos desfavoráveis, apesar das incertezas e das pressões internas e externas, Maduro dá passos rápidos para a disputa de 2024, quando deverá ocorrer eleição presidencial.