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Ultradireitista para os adversários, José Antonio Kast defende governo de Pinochet e se diz a “nova direita” do Chile.| Foto: Reprodução/Facebook de Kast

Um candidato que joga com propostas polêmicas para ganhar popularidade. Ele propõe, entre outras medidas, construir valas e o uso de drones para impedir a passagem de imigrantes nas fronteiras com Peru e Bolívia. Não esconde sua simpatia pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e por Donald Trump, ex-presidente dos EUA. Defensor do governo de Augusto Pinochet – ditador que comandou o Chile durante o regime militar, entre 1973 e 1990 –, se declara contra políticas de diversidade sexual e qualquer mudança na lei sobre aborto. Estas são algumas das faces José Antonio Kast, o candidato ultradireitista à presidência chilena que desbancou a chamada “direita light”, representada pelo presidente Sebastián Piñera, e divide a liderança da corrida presidencial com Gabriel Boric, ex-líder estudantil e expoente da Frente Ampla, um agrupamento de partidos de esquerda que colocou a tradicional centro-esquerda em segundo plano.

Pesquisa Cadem – empresa chilena de opinião pública e investigação de mercados – do último dia 10 de outubro mostra que Kast subiu 11 pontos percentuais desde 30 de julho e se consolidou em segundo lugar na corrida presidencial. O candidato do Partido Republicano chegou a 18%, segundo o levantamento, e encostou em Boric, que ficou com 21%. Resultados de sondagens de outros institutos, como UDD, Criteria e Activa, também apontam Kast e Boric como favoritos, faltando pouco mais de um mês para a eleição, marcada para 21 de novembro.

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Com 35 anos, Gabriel Boric simboliza os prostestos estudantis de 2011, as manifestações de rua que mobilizaram milhões de chilenos em 2019 e o novo na política.| Reprodução/Página do Facebook de Boric

A ascensão do bolsonarista Kast afetou diretamente Sebastián Sichel, o candidato do presidente Piñera, que está envolvido no escândalo dos “Pandora Papers”, investigação jornalística que revelou os nomes de um grande número de líderes políticos com dinheiro em paraísos fiscais. Até o final de setembro, Sichel estava em segundo lugar. Agora caiu para quarto, atrás de Yasna Provoste, professora e democrata-cristã que representa a centro-esquerda. Provoste foi ministra do Planejamento no governo do socialista Ricardo Lagos, entre 2004 e 2006, e da Educação da também socialista Michelle Bachelet, de 2006 a 2008.

Esta não é a primeira vez que o ‘pinochetista’ Kast disputa a presidência. Em 2017, quando Piñera foi eleito pela segunda vez, ele conquistou 8% dos votos no primeiro turno. Na época, disse: “Se Pinochet estivesse vivo, votaria em mim”.

Kast  tem uma longa ficha corrida na política do Chile. Com 55 anos de idade, ele é irmão de Michael Kast Rist, que foi ministro do Planejamento (Odeplan) e do Trabalho, além de ter ocupado a presidência do Banco Central chileno, no governo de Augusto Pinochet. O atual candidato republicano tem ainda vários outros parentes na política. Ele é tio do senador Felipe Kast e do deputado Pablo Kast.

Advogado formado pela Pontifícia Universidade Católica de Chile, José Antonio Kast entrou na política pelo movimento estudantil na década de 1980, quando disputou a presidência da Federação dos Estudantes (FEUC). Foi deputado de 2002 a 2018, ano em que fundou o movimento Ação Republicana, o qual deu origem ao Partido Republicano do Chile, em 2020, reunindo grupos políticos mais à direita da tradicional centro-direita liderada por Piñera.

Com o nome "Atrévete Chile", o programa de governo de Kast ataca as tradicionais centro-esquerda e centro-direita – que se revessaram no poder desde a queda de Pinochet. A proposta concentra em enfrentar o que o candidato classifica de “três campos de batalha: Liberdade, Estado de Direito e Família”.

O candidato que se define como a “nova direita” também busca atrair o grande contingente que chilenos preocupados com questões ambientais em um país que tem várias áreas desérticas e semidesérticas.  Propõe, por exemplo, “atingir a meta de 30% do território nacional continental coberto por áreas silvestres protegidas, e 10% do território marítimo costeiro continental coberto por áreas marinhas protegidas áreas ".

Propõe ainda aprofundar as privatizações, incluindo meios de comunicação públicos, como a Televisão Nacional do Chile; eliminar impostos não só de empresas, mas também sobre o patrimônio pessoal – o que, para os adversários, beneficia os ricos do país.

Na previdência social, questão sensível à maioria dos chilenos, que sofrem com os baixos valores pagos de aposentadoria – no Chile o sistema de aposentadoria é privatizado –, a proposta de Kast é permitir o saque de 100% dos fundos de pensão para “filiados que tenham menos de cinco anos de contribuição e que não tenham benefício de pensão solidária de qualquer espécie”. Também que as AFPs (administradoras dos fundos de pensões) separem suas atividades em "dois tipos de empresas de linha exclusiva: gestores de investimentos e gestores de cobrança e pagamento de pensões".

O programa tem mais de 800 propostas, com as quais o candidato da “nova direita” (extrema-direita para os adversários) tenta enfrentar seu maior desafio: convencer grande parcela da população chilena que hoje recusa as políticas de centro-direita de Piñera e que, na escolha dos constituintes que estão elaborando a nova Constituição do país, mostrou forte rejeição aos políticos tradicionais, além de tendência à esquerda.

Mas o desafio maior do direitista Kast, ao que tudo indica, será enfrentar um jovem de 35 anos, que retrata o novo na política chilena. Gabriel Boric, fã de rock e de futebol, traz em sua agenda o feminismo, o ambientalismo, a descentralização de poder e profundas reformas em pontos nevrálgicos do país. Um desses pontos é a Previdência. Boric propõe a criação de um sistema público de aposentadoria, com pensão básica universal. Quer também mudanças no sistema educacional, com base em um enfoque de direitos e perspectiva integral; propõe ainda acabar com trabalho precário e planeja uma transformação radical nas telecomunicações do país, incluindo grande parte da população hoje sem acesso aos serviços digitais mais avançados.

Oriundo dos movimentos de massa, o tatuado Boric protagoniza o novo na política chilena. Ele é o rosto mais expressivo das manifestações estudantis que tomaram as ruas de Santiago e outras cidades em 2011 e dos jovens que ocuparam as ruas chilenas no final de 2019.

Uma parada difícil para Kast.

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