| Foto: Divulgação/Página pessoal de Francia Márquez/Facebook
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Muitos são os destaques na mídia sobre a eleição do ex-guerrilheiro Gustavo Petro para a presidência da Colômbia. Vale destacar que Petro não é o primeiro ex-integrante de guerrilha a ganhar uma eleição presidencial na América do Sul. Antes dele, José Mujica governou o Uruguai. As maiores novidades na Colômbia são a vitória, pela primeira vez na história do país, de candidatos progressistas, e a eleição de uma mulher negra para a vice-presidência, a ex-trabalhadora doméstica Francia Márquez.

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Até chegar a essa posição, Francia pavimentou uma estrada de superações, trabalho duro, estudos e ativismo político e social.  Na juventude, trabalhou como garimpeira e foi empregada doméstica. Ao mesmo tempo em que trabalhava, procurava estudar.

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A mãe de Francia atuava como parteira e trabalhava na roça no povoado de Yolombó, município de Suárez, em Cauca, estado (departamento) localizado na região sudoeste da Colômbia, de frente para o Oceano Pacífico. Seu pai também é agricultor e operário.

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Francia foi mãe muito jovem, aos 16 anos de idade, solteira. Formou-se técnica agrícola pelo Serviço Nacional de Aprendizagem (SENA). Com poucos recursos, conseguiu se formar em direito, em 2020, pela Universidade Santiago de Cali.

A vice-presidente eleita ganhou reconhecimento da população colombiana por meio de sua atuação em causas sociais, políticas e comunitárias. Seu ativismo tem foco na defesa dos espaços de vivência e reconhecimento dos povos étnicos, afrodescendentes e indígenas na construção do país.

 Sou parte de um processo, de uma história de luta e resistência que começou com meus ancestrais trazidos em condição de escravidão. Faço parte da luta contra o racismo estrutural, faço parte daqueles que lutam para continuar fazendo nascer a liberdade e a justiça. Das que guardam a esperança de uma vida melhor, das mulheres que usam o amor materno para cuidar do seu território como espaço de vida, das que levantam a voz para travar a destruição dos rios, das florestas e dos charcos.

Francia Márquez ao narrar parte de sua biografia.

Depois de atuar por décadas em organizações e entidades sociais, como a Organização Processo de Comunidades Negras, Associação de Conselhos Comunitários do Norte de Cauca, Mobilização de Mulheres Negras para o Cuidado à Vida e os Territórios Ancentrais, a partir de 2015 Francia passou a ter representatividade nacionalmente. Em 2015, ela recebeu o Prêmio Nacional de Defensores dos Diretos Humanos na Colômbia. No mesmo, a organização sueca Diakonia outorgou a ela o Prêmio Nacional como Defensora de Direitos Humanos.

A partir daí sua voz ganhou eco internacional. Em 2018 recebeu o Prêmio Goldman Environmental, em São Francisco, Califórnia (EUA). No ano seguinte entrou para a lista das 100 mulheres mais influentes do mundo, elaborada pela rede britânica BBC. No ano passado, já a caminho da disputa nas eleições de 2022, assumiu a presidência do Comitê Nacional de Paz, Reconcilação e Convivência do Conselho Nacional de Paz, que deu impulso à implementação dos acordos estabelecidos entre o governo e a guerrilha Farc.

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Francia Márquez é defensora da filosofia Ubuntu, originária do continente africano, que significa que eu sou porque nós somos. “Esse compromisso com a vida nos ensina a nos ver e a construir coletivamente, a reconhecer que sou na medida em que você é, que nossa humanidade está entrelaçada com a natureza, que fazemos parte dela”, diz ela.

Com base no fundamento de que “sou porque somos”, esse pensamento se propõe a construir a partir das periferias, da diversidade, das diferenças, das maiorias excluídas e violadas. Defende uma economia que “não obtém seus lucros da morte, do exílio dos despossuídos, do aprofundamento das desigualdades e desigualdades, da violência armada e política, do aprofundamento da crise ambiental climática” e baseia-se na distribuição, conservação e cuidado ambiental, o que “contribui para gerar condições de igualdade, equidade e justiça, uma economia colocada a serviço da vida, e não a vida colocada a serviço da economia”.

“Obrigado por ter plantado a semente da esperança. Depois de 200 anos, conseguimos um governo do povo. O governo de ninguém e ninguém da Colômbia”, declarou Francia em agradecimento à sua eleição.