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O espancamento até à morte de João Alberto Silveira Freitas por seguranças de uma loja do supermercado Carrefour e um policial militar temporário, em Porto Alegre, na véspera do Dia da Consciência Negra, expõe a situação de barbárie em que vivem parcelas da população brasileira. O assassinato de um homem negro retrata também a violência diária a que são submetidas determinadas pessoas em situações de conflito, especialmente negros e pobres.

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Autoridades e representantes de diversos setores da sociedade civil classificaram o caso como crime decorrente do racismo sistêmico e estrutural existente no país. A Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil também classificou o caso como consequência de racismo.

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Apesar de a delegada Roberta Bertoldo, encarregada do caso na 2ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa de Porto Alegre, ter dito, sem apresentar justificativa, de que o caso não se enquadraria como racismo, o próprio Carrefour atribuiu o violento episódio ao racismo. A empresa anunciou que vai destinar a receita obtida nesta-feira (20) pelos supermercados da rede para projetos de combate ao racismo.

A chefe da Polícia Civil, Nadine Anflor, afirmou ao jornal Folha de S. Paulo que a motivação racista será investigada e existe, sim, racismo estrutural no país.

Logo após a divulgação das imagens da abordagem violenta dos seguranças do supermercado, e da consequente morte de Silveira Freitas, o caso passou a ser comparado nas redes sociais com o assassinato de George Floyd, um homem negro sufocado até à morte por um policial nos Estados Unidos, em maio deste ano. “Não consigo respirar”, disse Floyd, enquanto era contido.

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes disse que "o bárbaro homicídio praticado no Carrefour escancara a obrigação de sermos implacáveis no combate ao racismo estrutural". Gilmar Mendes, também ministro do STF, e que aderiu a hashtag "#vidasnegrasimportam", publicou que "o episódio só demonstra que a luta contra o racismo e contra a barbárie está longe de acabar."

Os vídeos que se espalharam rapidamente pela internet mostram parte das agressões e o momento em que o cliente é atendido por socorristas. Em uma das sequências, o homem negro é atingido por golpes violentos, é derrubado e ferido por uma sequência de socos de um dos autores da agressão, ao mesmo tempo em que é imobilizado por outro homem.

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Além da crueldade, o ato bárbaro revela covardia dos agressores. Enquanto dois homens espancam Silveira Freitas, outros tentam impedir que as pessoas gravem imagens com celular ou que interfiram para conter o espancamento. Uma mulher usando um crachá, que também seria funcionária do supermercado, aparece ao lado dos agressores, filmando a ação como se estivesse registrando uma cena comum.

A morte gerou revolta e reação de diversos segmentos da sociedade. Artistas, atletas, políticos e ativistas se manifestaram. Em São Paulo, houve um ato no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Em Porto Alegre, houve manifestação na porta do supermercado onde Beto morreu, às 18 horas. Ocorreram protestos também dentro de lojas do Carrefour, como a da 402 Sul em Brasília, em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Fortaleza e Belo Horizonte.

Autoridades e candidatos que passaram ao segundo turno também se manifestaram. Pelas redes sociais, o governador Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul, disse que o caso deixa a todos "indignados" pelo "excesso de violência que levou à morte de um cidadão, negro".

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Os candidatos a prefeito de Porto Alegre, Manuela D´Avila (PCdoB) e Sebastião Melo (MDB) reagiram. “O racismo que estrutura as relações de nossa sociedade precisa ser enfrentado de frente. As mulheres e homens brancos precisam assumir a sua responsabilidade na luta antirracista”, escreveu no Twitter Manuela. “Um absurdo! As cenas são chocantes. Justamente no dia Nacional de luta contra o racismo. Medidas rigorosas devem ser tomadas imediatamente!”, tuitou Melo.

No começo da noite, o presidente Jair Bolsonaro, sem se referir ao caso, disse que "aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e promovendo conflitos, atentam não somente contra a nação, mas contra nossa própria história". O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, classificou como "lamentável" o caso, mas disse não ver racismo no episódio. “Não. Para mim, no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil, não existe aqui”, disse em entrevista.

Em nota, a Organização das Nações Unidas (ONU) contradiz Mourão. Para a organização, a morte de João Alberto Silveira Freitas, "é um ato que evidencia as diversas dimensões do racismo e as desigualdades encontradas na estrutura social brasileira".

Em nota, a Organização das Nações Unidas (ONU) contradiz Mourão. Para a organização, a morte de João Alberto Silveira Freitas, num Carrefour em Porto Alegre, "é um ato que evidencia as diversas dimensões do racismo e as desigualdades encontradas na estrutura social brasileira".

“Milhões de negras e negros continuam a ser vítimas de racismo, discriminação racial e intolerância, incluindo as suas formas mais cruéis e violentas. Dados oficiais apontam que a cada 100 homicídios no país, 75 são de pessoas negras", acrescentou a ONU.

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O Carrefour, por meio de sua assessoria de imprensa, classificou a morte como brutal e anunciou que romperá o contrato com a empresa responsável pelos seguranças. Informou também que vai demitir o funcionário responsável pela loja na hora do ocorrido.

Antes do espancamento e morte na loja de Porto Alegre, o Carrefour havia anunciado para esta sexta-feira o lançamento de um manifesto pela diversidade. O material defende a inclusão de pessoas de diferentes raças, identidades de gênero, orientações sexuais e crenças. O episódio bárbaro da morte de Silveira Freitas prova que as ações das empresas devem ir além de manifestos. São necessárias medidas diretas para impedir atos que repetidamente têm ocorrido em estabelecimentos públicos e privados do Brasil.

A sociedade brasileira deve exigir apuração rigorosa de casos de violência como esse e punição aos culpados, direta e indiretamente. O Judiciário tem obrigatoriamente de cumprir o seu papel. Sem isso, o ‘câncer’ da violência e da discriminação social e racial impedirá a construção de um país digno.

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