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Pesquisa exclusiva da Market Analysis em parceria com o Family Talks revela algo forte sobre internet: 72% dos brasileiros apoiam a adoção, no Brasil, de uma legislação semelhante à australiana para restringir o uso de redes sociais por menores de 16 anos. Ao mesmo tempo, 61% dizem que são as famílias quem devem decidir a relação entre os filhos e internet.
A pesquisa vai muito além desses números, contraditórios entre si. Mostra um país acuado diante da tecnologia, convencido de que a família deve proteger seus filhos, mas cada vez mais disposto a entregar ao Estado o controle da porta de entrada da internet.
O estudo ouviu 1.011 brasileiros adultos, das cinco regiões do país, de todas as classes socioeconômicas, entre 1.º e 16 de janeiro de 2026. A amostra foi organizada com cotas cruzadas de região, idade, sexo e classe social, para garantir representatividade dos diferentes grupos demográficos. A pesquisa foi realizada pela consultoria Market Analysis em parceria com o Family Talks, uma ONG brasileira, classificada como OSCIP, que atua no fortalecimento das famílias no debate público.
O Family Talks surgiu a partir da Associação de Desenvolvimento da Família, criada em 1978, e passou a atuar com advocacy desde 2017. Sua frente de trabalho envolve relações governamentais, produção de pesquisas e atuação na opinião pública, sempre com a tese de que famílias fortalecidas são uma estratégia central de proteção social. Isso importa porque a pesquisa não parte de uma visão que despreza a família. Ao contrário, ela coloca a família no centro do problema. Justamente por isso, o resultado é tão relevante.
Segundo o levantamento, 58,8% dos entrevistados afirmam que as redes sociais prejudicam mais do que beneficiam crianças e adolescentes. Entre aqueles que enxergam prejuízo maior, o apoio à regulação cresce. A conclusão é intuitiva: quanto mais a pessoa percebe dano concreto à saúde mental, ao desenvolvimento, ao bem-estar e à rotina dos jovens, mais ela aceita uma intervenção estatal sem nem questionar as consequências.
Não basta dizer que os pais precisam acompanhar a vida digital dos filhos. É preciso perguntar se eles sabem como fazer isso. Vamos ao mínimo do mínimo. É preciso que os pais saibam diferenciar configuração de privacidade de controle parental
A pesquisa também mostra que esse apoio é amplo e transversal. Não aparece apenas entre pais, mães, conservadores, progressistas, pessoas com filhos ou grupos específicos. Homens e mulheres, pessoas com e sem filhos e diferentes perfis de uso digital demonstram apoio expressivo à ideia de restringir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais. O tema, portanto, já deixou de ser uma preocupação de nicho. Virou um consenso social em formação.
O Brasil segue uma tendência internacional. Na Austrália, cerca de 70% dos adultos apoiam a proibição do uso de redes sociais por menores de 16 anos. Uma pesquisa da Ipsos realizada em 2025, em 30 países, indicou que, em média, 71% defendem restrições para crianças abaixo de 14 anos. Na Europa, países como França, Espanha e Portugal discutem ou implementam medidas semelhantes. Nos Estados Unidos, o debate mistura consentimento parental, saúde mental, segurança online e responsabilização das plataformas. Nada disso torna a solução simples.
No Brasil, há ainda o Projeto de Lei 1827/2026, protocolado na Câmara dos Deputados, que propõe restrições ao acesso de menores de 16 anos às redes sociais. A pesquisa mostra que uma proposta desse tipo encontraria terreno fértil na opinião pública. E aqui começa o problema.
O dado mais revelador talvez não seja o apoio de 72% à regulação. É o fato de que 61,2% dos entrevistados atribuem majoritariamente aos pais a responsabilidade por minimizar os prejuízos das redes sociais na vida de crianças e adolescentes. Ou seja, a maioria acredita que a responsabilidade é da família, mas apoia que o Estado intervenha para controlar o acesso.
“Há uma aparente contradição nos dados. De um lado, existe o consenso de que a responsabilidade por manter crianças e adolescentes seguros na internet é principalmente dos pais, como se fosse um direito e uma obrigação exclusiva da família manter o domínio sobre essa situação, evitando qualquer intervenção externa. De outro, reconhece-se que as famílias têm poucos recursos para lidar sozinhas com um problema dessa dimensão”, explica Fabián Echegaray, diretor da Market Analysis.
Essa aparente contradição é, na verdade, o retrato de um país que não sabe mais como exercer liberdade diante de problemas complexos. A família quer continuar sendo reconhecida como responsável, deseja conservar a autoridade moral sobre os filhos e também ter a última palavra sobre a educação deles. Mas a resposta é oposta quando a pergunta deixa o campo dos princípios e entra na rotina concreta de uma criança com celular na mão, algoritmos agressivos, vídeos infinitos, pornografia, jogos, influenciadores, desafios, dopamina barata e uma indústria inteira desenhada para capturar atenção.
A internet chegou ao Brasil antes da educação necessária para lidar com ela. Isso, infelizmente, gerou o contexto em que famílias sentem que falham ao proteger os filhos e, no desespero, acabam aceitando a tutela do Estado
A família olha para si mesma e percebe que não dá conta. A casa brasileira foi invadida por sistemas tecnológicos que nenhum pai, isoladamente, projetou, compreende ou consegue enfrentar em igualdade de condições. A responsabilidade continuou sendo da família, mas o poder real migrou para empresas que organizam a atenção, a recompensa, a comparação social e a exposição pública de crianças e adolescentes em escala industrial. Falando francamente, os próprios adultos sentem que não conseguem se proteger de manipulações virtuais.
O problema é que, ao se sentir impotente, a família pede socorro ao Estado. Não sairá de graça. Para ser socorrida, a família precisa aceitar ser tutelada. O debate sobre restrição de idade nas redes sociais costuma começar com uma frase simples: crianças precisam ser protegidas. É uma frase verdadeira. A dificuldade está no mecanismo escolhido para executar essa proteção.
Para impedir que uma criança acesse determinada plataforma, é preciso identificar quem é criança. Para identificar quem é criança, é preciso identificar quem é adulto. E, a partir daí, a política de proteção infantil passa a produzir uma consequência que quase nunca aparece com clareza no debate público: todos os adultos podem ser obrigados a ceder todos seus dados para monitoramento com a finalidade de provar quem são para ter acesso à rede.
A promessa é proteger menores de idade mas a consequência é criar uma infraestrutura permanente de identificação de usuários adultos. Essa identificação pode envolver documento, biometria, verificação por terceiros, cruzamento de bases, reconhecimento facial, comparação de dados ou outros mecanismos técnicos que ainda serão vendidos como neutros, seguros e inevitáveis. O problema é que nada disso é neutro e se trata de coleta massiva de dados.
Quem guardará esses dados? Por quanto tempo? Com que finalidade? O que será coletado além da idade? Quem audita o sistema? O que acontece se houver vazamento? Quem responde se uma base com documentos, rostos, perfis e hábitos de navegação for exposta? O usuário poderá recusar? Poderá contestar erro? Haverá rastreabilidade entre identidade civil e conteúdo acessado? O Estado poderá requisitar esses dados? Empresas poderão usá-los para outros fins? Plataformas poderão combinar essa verificação com seus próprios bancos de dados comportamentais?
É muito fazer a população aceitar controle quando a justificativa é a proteção da infância. Quem levanta objeções passa a parecer insensível ao sofrimento de crianças e adolescentes. Mas uma sociedade livre precisa ter coragem de fazer perguntas incômodas justamente quando a justificativa moral parece irrecusável. Medidas de vigilância raramente são apresentadas como vigilância. Elas costumam chegar embaladas como segurança, cuidado, eficiência, combate ao crime, proteção de vulneráveis ou modernização administrativa.
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Nesse caso específico, a proteção de crianças pode ser é necessária. Só que entrou no pacote sem discussão uma coisa bem diferente, a identificação e cessão de dados compulsória de adultos. Mais grave ainda é o fato de que a medida pode não entregar o que promete. Crianças e adolescentes burlam regras. Usam contas de familiares. Mentem a idade. Migram para plataformas menos reguladas. Entram por dispositivos de terceiros. Procuram brechas.
Quanto maior a restrição formal, maior pode ser o incentivo para circular por ambientes ainda menos visíveis aos pais. O risco é criar uma política que não protege plenamente as crianças, mas normaliza a identificação de todos os adultos. Nesse caso, o ônus real da medida não recai apenas sobre as plataformas. Recai sobre a sociedade inteira.
É claro que as empresas de tecnologia têm responsabilidade. O design das redes sociais não é um fenômeno natural. Ele foi criado para capturar atenção, estimular permanência, produzir dependência, explorar comparação social e transformar comportamento em dado comercial. Não há inocência empresarial nesse processo. As plataformas não podem continuar tratando crianças como usuários comuns, enxergando a ação das famílias como obstáculo e admitindo manipulações psicológicas como parte do modelo de negócio.
Reconhecer a responsabilidade das empresas é muito diferente de aceitar qualquer solução estatal apresentada como proteção. O debate sério precisa distinguir claramente regulamentação de tutela ilimitada do Estado.
Voltando ao estudo do Family Talks, a grande questão é a razão do desespero que leva famílias a se dizerem responsáveis pelos filhos nas redes sociais mas toparem terceirizar isso ao Estado.
Existe uma razão forte, sobre a qual poucas pessoas pensam. “Três em cada dez adultos brasileiros são analfabetos funcionais, segundo dados recentes. Todas as estratégias de capacitação familiar e educação midiática, hoje, estão baseadas em materiais para leitura, consultas, cartilhas, enfim, quase sempre materiais que exigem um nível educacional que a maioria das pessoas não têm. Enquanto não houver medidas públicas e privadas para capacitação digital das famílias, para que o ambiente doméstico esteja preparado para lidar com a internet, a sociedade vai pesar a mão na legislação, o ônus das empresas vai aumentar e a proteção às crianças na internet não necessariamente será melhor.”, diz Rodolfo Canônico, diretor-executivo do Family Talks.
O debate brasileiro sobre segurança digital costuma presumir uma família ideal: pais com tempo, repertório, domínio de leitura, conhecimento técnico, estabilidade emocional, capacidade de acompanhar plataformas, paciência para estudar cartilhas, disposição para assistir palestras e tranquilidade para conversar longamente com os filhos sobre cada risco online. Provavelmente há famílias assim, mas não são a maioria nem a média do Brasil.
Não basta dizer que os pais precisam acompanhar a vida digital dos filhos. É preciso perguntar se eles sabem como fazer isso. Vamos ao mínimo do mínimo. É preciso que os pais saibam diferenciar configuração de privacidade de controle parental. Também precisariam compreender o que é algoritmo de recomendação e qual a lógica de monetização dos influenciadores. Para além disso, é necessário identificar fenômenos como manipulação emocional, aliciamento, desafio perigoso, conteúdo sexualizado, vício comportamental, golpe, chantagem e exposição indevida.
Pedir que a família proteja os filhos sem capacitar a família é apenas transferir culpa. Só que essa transferência de culpa interessa a muita gente.
O paradoxo brasileiro é este: a família continua sendo invocada como base moral da sociedade, mas, na prática, é tratada como incapaz. Quando o discurso é abstrato, todos defendem a autonomia familiar. Mas na hora em que a solução exige trabalho, método e formação, muitos optam pela canetada estatal. Não há política pública capaz de substituir inteiramente a presença de adultos preparados, atentos e capazes de orientar.
O Estado pode apoiar a família. Empresas podem ser obrigadas a reduzir danos. Escolas podem participar da formação. Organizações da sociedade civil podem produzir conhecimento e ferramentas. Mas nada disso funcionará se a família for reduzida a espectadora de um sistema decidido por técnicos, políticos, plataformas e burocratas.
Um povo verdadeiramente livre precisa de educação sólida, leitura, repertório, memória histórica, responsabilidade moral e princípios capazes de orientar escolhas quando o medo aparece. Sem isso, a tecnologia não emancipa. Apenas entrega a pessoas despreparadas instrumentos que elas não compreendem, diante de empresas que as compreendem muito bem e de governos sempre interessados em ampliar seu alcance.
A tecnologia poderia ampliar a liberdade das famílias brasileiras. Poderia dar acesso a conhecimento, cultura, trabalho, comunidade, organização e voz. Mas, sem educação, sem formação moral e sem capacidade de julgamento, a mesma tecnologia vira motivo para pedir mais Estado, mais vigilância, mais identificação e mais controle.
A internet chegou ao Brasil antes da educação necessária para lidar com ela. Isso, infelizmente, gerou o contexto em que famílias sentem que falham ao proteger os filhos e, no desespero, acabam aceitando a tutela do Estado sem pensar nas consequências.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos









