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Grupo pró-bolsonarista 300 do Brasil em frente ao STF (Supremo Tribunal Federal) no dia 30 de maio.
Manifestação em frente ao STF no dia 30 de maio foi o estopim para ordens de prisão e censura a apoiadores do governo| Foto: ESTADÃO CONTEÚDO

O absurdo que está acontecendo no Brasil, de um único ministro do STF impondo censura (com a conivência silenciosa da maior parte de seus pares), ignorando a Constituição, promovendo prisões arbitrárias, estipulando o que as pessoas podem ou não ler ao proibir publicações da imprensa ou de perfis em redes sociais, traz à lembrança o tirano Napoleão de A Revolução dos Bichos, um dos livros clássicos de George Orwell.

Muitos têm dito que outra obra do mesmo autor está muito atual - 1984, com seu “Big Brother” controlando todos e tudo -, mas é da Revolução dos Bichos que tenho lembrado com frequência. Na história da granja inglesa, em que os animais expulsam os homens e implantam seu próprio sistema de gestão, o protagonista, aos poucos, vai virando um ditador inescrupuloso que persegue quem ousa emitir qualquer opinião da qual discorde.

Ao escrever essa obra prima literária, uma sátira à ditadura stalinista, o jornalista indiano Eric Arthur Blair, que estudou e fez carreira na Inglaterra, onde ficou conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, escancarou para o mundo como os tiranos agem. Entre outros absurdos, Napoleão – o ditador bicho -, decidia o que os demais animais da fazenda podiam ou não dizer (censura); afastava, à força, quem tivesse postura crítica (algo como os atuais bloqueios de perfis no Twitter e Facebook) e, com atitudes assim, espalhava o medo, calando eventuais insurgentes contra o regime em vigor.

Eu nem ia mencionar que o protagonista desse livro é um porco para não correr o risco de dizerem que estou associando o animal à figura de quem quer que seja, mas acho que vale lembrar, até porque esse foi um dos motivos para o livro ter sido censurado por vários editores na época em que Orwell terminou de escrever a história, em 1945.

O escritor teve enorme dificuldade para encontrar quem se dispusesse a publicar A Revolução dos Bichos. Alegavam, segundo o próprio Orwell, que não bastasse a analogia à revolução russa, causava grande desconforto a associação entre o porco Napoleão e Stalin.

Passados mais de 100 anos da revolução que derrubou a monarquia da Rússia e deu poder ao partido bolchevique de Lenin (precursor do partido comunista) e 75 anos da publicação do livro, em pleno Brasil de 2020 sentimos desconforto ao ver a ditadura mostrando suas garras de novo. Aqui e agora, de forma oblíqua, através de quem deveria promover a Justiça e o respeito às leis.

Revolução dos Bichos e Censura

A história dos bichos revoltosos, vitoriosos, e depois tiranizados por seus pares, já vinha me martelando a cabeça há semanas até que resolvi recorrer ao livro para recapitular alguns pontos daquela leitura adolescente. Acabei caindo no prefácio original, que Orwell tinha escrito para apresentar a obra aos leitores quando finalmente alguém decidiu publicá-lo, mas que acabou omitido nas primeiras edições. Ou seja, o livro foi publicado; mas o prefácio, censurado. E o que dizia esse prefácio, afinal?

Pra começo de conversa o título (do prefácio) é “A liberdade de imprensa”. Reedições do século XXI trazem esse importante relato do autor com as explicações que ficaram perdidas por décadas. Ali Orwell explica brevemente como concebeu a ideia do livro e alonga-se sobre os motivos que o tornaram impublicável para alguns.

A cereja do bolo é a confissão de um editor que tinha concordado com a publicação, mas voltou atrás após consultar o Ministério da Informação da Inglaterra. Orwell comete a ousadia de trazer no prefácio um trecho da carta que recebeu desse editor, explicando sobre como mudou de ideia após ouvir um "importante funcionário do Ministério da Informação".

"Agora vejo o quanto a publicação do livro no momento atual pode ser considerada de extrema inconveniência. Se a fábula tratasse de ditadores e ditaduras em geral, não haveria problema em publicá-la, mas ela corresponde tão completamente aos fatos ocorridos na Rússia soviética e a seus dois ditadores que só pode se aplicar à Rússia, excluindo as demais ditaduras", diz o editor na carta. E segue.

"Outra coisa: seria menos ofensivo se a casta predominante na fábula não fosse a dos porcos. Creio que a escolha dos porcos irá ofender muita gente, especialmente as pessoas mais suscetíveis, como sem dúvida é o casos dos russos”

Trecho de carta do editor que recusou-se a publicar o livro A Revolução dos Bichos, revelado no prefácio original escrito pelo próprio autor, George Orwell

No prefácio original de A Revolução dos Bichos Orwell ainda traz um desabafo também muito atual: “Obviamente não desejamos que nenhum departamento de governo tenha poder de censura sobre livros que nem contam com patrocínio oficial. Mas aqui o principal atentado contra a liberdade de pensamento e de expressão não é a interferência direta do ministério ou de qualquer outro organismo oficial. Se os donos e diretores das editoras se empenham em manter certos tópicos longe da página impressa, não é porque tenham medo de processos judiciais, mas porque temem a opinião pública.”

Por enquanto, no Brasil, os Napoleões e os ministros da Informação ainda não conseguiram amedrontar quem pensa, escreve ou publica. Sigamos firmes na vigilância e na postura crítica.

Termino lembrando que esse clássico da literatura mundial contemporânea, assim como 1984, e tantos outros títulos que tratam de regimes autoritários, é proibido até hoje em países governados por ditadores, como a China, por exemplo. Ditadura é ditadura. Para fazer valer seu poder, os ditadores calam qualquer opinião contrária.

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