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O primeiro turno está aí e 85,4% do eleitorado é composto por católicos, evangélicos e espíritas. Segundo o Censo de 2022, respectivamente, 56,7%, 26,9% e 1,8% dos brasileiros têm sua fé baseada nos princípios, doutrinas e dogmas professados por estes três grandes grupos religiosos.
De outro lado, uma pesquisa recente do Datafolha revelou que 44% dos eleitores brasileiros são identificados com a direita e 39%, com a esquerda.
O confronto destes dados estatísticos indica que, para uma boa parte do eleitorado, a fé professada não exerce influência na escolha do partido, muito embora determinadas correntes partidárias defendam abertamente princípios absolutamente contrários aos defendidos por estas religiões.
Exemplo claro é a defesa da vida.
Os estatutos e documentos dos principais partidos políticos de esquerda no Brasil asseguram a ampliação de políticas públicas relacionadas aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, nome pomposo que significa nada mais, nada menos, do que aborto.
O PSB, por exemplo, nas diretrizes de seu Programa e Manifesto do Partido Socialista Brasileiro, nos itens 403 e 421, defende a implementação destas políticas de aborto.
O PSOL, em seu programa partidário, no item 3.1, afirma que a autonomia dos corpos é condição essencial para a liberdade e o direito de decidir da mulher, asseverando explicitamente que o partido tem como objetivo a legalização do aborto assegurado pelo SUS.
O PCdoB detalha, em suas Diretrizes Programáticas, sua posição, apoiando abertamente a descriminalização e a legalização do aborto, tal como se pode ver, por exemplo, no documento da Conferência Nacional sobre a Questão da Mulher, parágrafo 18, itens “B” e “E”.
No programa do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCB), no item 12 da alínea “C”, defende-se a “descriminalização e legalização do aborto garantindo o direito ao acolhimento, ao procedimento seguro e ao acompanhamento adequado, de forma gratuita pelo Estado”.
Na Cartilha Mulher e Trabalhismo do Partido Democrático Trabalhista (PDT), a legenda defende que o “debate sobre aborto e direitos reprodutivos não pode ser sequestrado por moralismos religiosos. Trata-se de uma questão de classe, saúde pública e justiça social. Mulheres pobres são as principais vítimas da criminalização, enquanto mulheres ricas acessam serviços seguros de forma clandestina e impune” (página 55).
O Partido Verde (PV), em seu programa 7, alínea “g”, defende a “legalização da interrupção voluntária da gravidez com um esforço permanente para redução cada vez maior da sua prática através de uma campanha educativa de mulheres e homens para evitar a gravidez indesejada”.
O PT, nas Resoluções do 3º Congresso do Partido dos Trabalhadores, página 83, reafirma seu compromisso “na defesa da autodeterminação das mulheres, da discriminalização (sic) do aborto e regulamentação do atendimento à (sic) todos os casos no serviço público evitando assim a gravidez não desejada e a morte de centenas de mulheres, na sua maioria pobres e negras, em decorrência do aborto clandestino e da falta de responsabilidade do Estado no atendimento adequado às mulheres que assim optarem”.
Por sua vez, em sentido diametralmente oposto, estão as orientações e os ensinamentos das três vertentes religiosas que predominam em nossa sociedade.
Allan Kardec, no Livro dos Espíritos, na questão 358, afirma que o aborto é uma transgressão às leis divinas que interrompe o processo de evolução espiritual.
Ao ministrar aulas sobre o livro do Gênesis, Lutero observou “Quão grande é, portanto, a maldade da natureza humana! Quantas mulheres há que impedem a concepção e matam e expulsam fetos tenros, embora a procriação seja obra de Deus!”
João Calvino, em seu comentário sobre Êxodo 21, 22, escreveu que o “feto, embora encerrado no ventre de sua mãe, já é um ser humano (*homo*), e é um crime quase monstruoso privá-lo da vida que ele ainda não começou a desfrutar. Se parece mais horrível matar um homem em sua própria casa do que em um campo, visto que a casa de um homem é o seu refúgio mais seguro, certamente deve ser considerado mais atroz destruir um feto no ventre antes que ele venha à luz”.
Na Igreja Católica, em seu Catecismo, parágrafo 2272, e no Código de Direito Canônico, no cânon 1398, diz-se que: “quem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae”.
Apesar de o pecado ser um ato pessoal, também podemos ser responsabilizados por atos de terceiros quando cooperamos formalmente para o resultado, conforme está no parágrafo 1868 do mesmo Catecismo da Igreja Católica.
Votar em um partido que promete a legalização do aborto somente seria aceitável a um católico por total ignorância ou caso houvesse uma razão muito grave, proporcional à ofensa que o aborto provoca ao 5º mandamento.
Assim, se você é católico e leu esta coluna até aqui, não há mais como fugir desta responsabilidade.
Mas o grande problema de hoje é o eleitor moderno.
Relativistas, nossos eleitores não acreditam em uma verdade universal. Pensam que os ensinamentos de sua religião não contêm uma verdade própria. Espírita, católico ou evangélico, o eleitor moderno pincela as partes que ele acha interessantes no credo daquela religião e, assim, ele mesmo define os limites em que ela afeta sua existência.
Os conteúdos fundamentais da fé e da moral são subvertidos a se encaixarem na verdade (com v minúsculo) do nosso eleitor moderno. Senhor de si mesmo, não é ele quem adere à religião professada, mas sim a religião que se amolda ao que ele entende por verdade.
Mas isso tem solução, e ela está em uma prática de um santo católico, Padre Pio, cuja festa a Igreja celebrou no último dia 23 de setembro. Mesmo sendo católico, o recurso vale para todos.
Enérgico e impetuoso, Padre Pio era conhecido por uma intensa vida mística, uma profunda humildade e, ao mesmo tempo, por uma extrema preocupação com aqueles fiéis que não se emendavam, que permaneciam no erro, deixando de se converter.
Conforme alguns relatos, houve casos em que Padre Pio esbofeteou o rosto daqueles que não se arrependiam sincera e profundamente pelos erros cometidos. O tapa na cara dado por Padre Pio em alguns de seus filhos espirituais foi uma ferramenta de choque voltada para o despertar da consciência, o combate à tibieza e à verdadeira conversão.
Lógico que não estamos aqui estimulando a violência com aqueles que ainda não aderiram à fé que professam. O tapa para uma verdadeira conversão não precisa ser físico, até mesmo porque os tempos são outros e nós estamos longe de termos os dons que Padre Pio possuía.
Uma boa forma de esbofetear o eleitor moderno é fazê-lo confrontar seus próprios limites. Revelar a realidade através de vídeos e fotografias dos diferentes procedimentos abortivos já seria o bastante para quebrar sua indiferença e fazer com que ele reconheça que há uma verdade objetiva, a qual independe do seu querer.
O choque das imagens dos membros esquartejados, do tórax quimicamente carbonizado pela Assistolia Fetal ou do corpinho completamente formado e sem vida jogado no lixo hospitalar já serve como um excelente remédio para uma verdadeira contrição e mudança real para uma vida autêntica, livre de hipocrisias.
Neste domingo, então, exerça sua cidadania sem máscaras. Acolha os ensinamentos de sua fé e defenda os princípios e valores em sua unidade indivisível ou se renda à outra proposta, não sem antes se livrar do disfarce de ser meio-católico, meio-evangélico ou meio-espírita.
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Metodologia da pesquisa citada
O Datafolha não questionou aos entrevistados como eles se definiam. Em vez disso, são apresentadas perguntas sobre questões políticas, sociais e econômicas. Com isso, é feita uma escala para classificar o eleitor como de esquerda ou de direita.
O instituto ouviu 2.004 eleitores presencialmente nos dias 17 e 18 de junho, em 139 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95%. A pesquisa foi financiada por recursos próprios e recebeu o registro BR-09956/2026 no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Defensor Público Federal atuante no movimento pró-vida, integrante da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família, associado-fundador e membro da diretoria da Associação de Juristas Católicos de Brasília, autor de artigos científicos e acadêmicos na área de defesa dos nascituros. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



