| Foto: Felipe Lima

“Melhor que o verão é o Lula na prisão”, dizia uma faixa no rabo de um teco-teco sobrevoando a orla de Balneário Camboriú no primeiro dia do ano. Como se não bastassem as ruidosas manifestações dos veranistas, minutos depois o próprio patrocinador do teco-teco, o empresário  Luciano Hang, desfilou a passos largos ao longo da praia, com rasgados sorrisos, para colher selfies, cumprimentos e aplausos do maior reduto eleitoral de Jair Bolsonaro no Sul do Brasil.

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Dias antes, uma provocativa pesquisa Datafolha tentou pautar um debate nacional sobre modelo de regime: entre democracia e ditadura, o resultado apontou a preferência de 62% pela primeira opção. Se a mesma pesquisa fosse feita em Balneário Camboriú, Luciano Hang seria coroado Imperador Absoluto do Brasil Maravilha. Obviamente o cognominado “Veio da Havan” não tem o physique du rôle para o figurino de Rei Momo. Mas, em compensação, tem gordura suficiente na conta bancária para garantir a fuzarca política por muitos e muitos carnavais.

Com tantas praias paradisíacas para um curitibano compensar a falta de vitamina D, o meu destino não muda

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Sempre nas vésperas do verão constato a falta de imaginação de minha parte. Com tantas praias paradisíacas para um curitibano compensar a falta de vitamina D – ilhas gregas, Seychelles, Caribe, Tailândia, Bahamas, Bombas ou Bombinhas –, o meu destino não muda: Camboriú, o maior balneário do Paraná que, por um acidente geopolítico, encontra-se sob jurisdição de Santa Catarina.

Mas fazer o quê? – pergunta o curitibano, ajeitando guarda-chuva e galocha no porta-mala do automóvel, enquanto o vizinho de apartamento já se encontra num engarrafamento monstruoso um pouco além de São José dos Pinhais. Balneário Camboriú é o calvário rodoviário e o destino praiano dos paranaenses desde o século passado, quando a Ilha do Mel já estava caindo de moda. Um dos primeiros grandes edifícios do balneário tem nome de pé-vermelho: Edifício Londrina. Os primeiros comerciantes que botaram o pé naquela areia eram empreendedores com pronúncia de leitE quentE, uma gente que conhecia o mar da folhinha de calendário. E o melhor governador de Santa Catarina foi Roberto Requião, que duplicou a Rodovia da Morte entre Curitiba e Joinville com a venda das ações da Telepar.

De pai pra filho desde 1928, quando o único hotel de Balneário Camboriú era o Strand Hotel (ou Hotel do Jacó), os paranaenses gostam de pegar siri com os catarinas. Os mais abastados, desde o verão de 1957, ostentam no currículo familiar suas seguidas temporadas no Hotel Fischer.

Vítima do próprio sucesso, com todos os seus defeitos Balneário Camboriú é uma das cidades do Brasil mais completas para se viver

Graças à ousadia do alemão Adolfo Fischer (1903-1990), tachado de louco por construir um hotel de classe internacional num deserto como era o Pontal Norte, o Fischer foi o primeiro hotel de luxo de Balneário Camboriú. Quando inaugurado, tinha quatro pavimentos, 26 quartos luxuosos, 18 apartamentos e suítes raras até mesmo em Florianópolis. Tinha capacidade para 108 hóspedes, servidos por dois refeitórios, sala de estar com lareira, terraço ao ar livre, auditório para crianças e serviço de bar. Foi o primeiro hotel do litoral a ter banheiro em todos os quartos.

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O Fischer fechou suas portas em 2009, ficando para a história do Paraná os Diários de um crítico, do professor e crítico literário Temístocles Linhares. Em 1960, quando se podia esbarrar com o ex-presidente Jango Goulart caminhando na praia deserta, Temístocles sofreu na estrada tanto quanto sofrem os seus conterrâneos de hoje: “Desde ontem aqui, nesta bela praia catarinense, que visito pela quarta vez, em companhia da família. Confortavelmente instalado em meu hotel, desta vez o Fischer, situado num dos extremos da enseada, fico longe da multidão que se aglomera no centro. Ainda não pude descansar quanto desejava, pois várias providências tive de tomar em relação ao meu Dodge, que sofreu bastante na viagem, em virtude das péssimas condições em que se achavam as estradas deste Estado em consequência do mau tempo. Foram quinze ou vinte dias de chuvas consecutivas que as arruinaram completamente. Nunca vi tanto buraco na minha vida. O carro, contudo, se portou airosamente. Venci os duzentos e tantos quilômetros que nos separam de Curitiba sem nenhum desarranjo. Mas aqui verifiquei os resultados: o carro com falta de alguns parafusos e porcas, cujo problema não consegui resolver na oficina local. Apesar disso, vi o sol em todo o seu esplendor a se derramar pela praia inteira, coisa que sempre agrada à gente, depois de vê-lo tão arredio e arisco, como sucedeu nestes últimos vinte dias de céu cinzento e carregado de nuvens”.

Vítima do próprio sucesso, com todos os seus defeitos Balneário Camboriú é uma das cidades do Brasil mais completas para se viver. Com uma área territorial de 46,4 km2, o município tem na sua orla um aglomerado de edifícios de dar inveja a qualquer prefeito com mania de grandeza. Um paredão imobiliário odioso, convenhamos, onde o sol nasce para todos; mas o pôr do sol é só para os que têm apartamento de cobertura.

Há pouco tempo, uma arquiteta curitibana foi a um congresso de urbanismo, quando levantaram essa questão do sol que se esconde atrás do concreto no meio da tarde. Embaixo de críticas, ela pediu a palavra para contar que, por ter um apartamento frente ao mar em BC há mais de 30 anos, nunca sentiu falta do sol no período da tarde: “Depois das 15 horas, o que precisamos é de muita sombra e água fresca” – ainda hoje sustenta a urbanista.

Afora os privilégios naturais, assim como em Curitiba os atrativos artificiais fazem de Balneário Camboriú uma cidade de causar amor e ódio. Com tudo e mais um pouco, além de uma multicolorida paisagem humana, só o que falta para o maior balneário do Paraná é uma monumental estátua da atriz Vera Fischer, a nossa musa desde os tempos áureos do Hotel Marambaia. Mas isso seria o de menos, para quem já tem a Estátua da Liberdade do “Veio da Havan”.