| Foto: Marcos Tavares/Thapcom
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Estes cientistas e suas maravilhosas contradições. Tempo atrás uma revista de circulação nacional publicou amplo atestado de reabilitação dos queijos, manteigas e – hurra! – a carne vermelha, essa inimiga pública número um dos veganos. Muita gente comemorou a anistia do bife mal passado, quase sangrando, com dois ovos fritos na manteiga.

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No abalizado perdão ao filé mignon, há pelo menos 20 anos na lista dos bandidos mais sanguinários, consta que a metade da gordura que compõe a carne vermelha é oleica, ou seja, a mesma do saudabilíssimo azeite de oliva. A outra metade é saturada, que, como o vinho, quando degustada com moderação, é essencial para o espírito do bem viver. Não o vinho tinto, diga-se, porque há quem considere o vinho branco a bebida mais parecida com o vinho.

Como um assunto puxa outro, assim como uma minhoca puxa as outras, para muitos é excitante a descoberta de cientistas ucranianos de que a tragédia de Chernobyl mudou a rotina sexual de algumas espécies de minhocas: trocaram a reprodução assexuada pela “procriação carnal”. Depois do PUM! de Chernobyl, as minhoquinhas receberam fortes doses de radiação e partiram para o pecado, reproduzindo-se por via sexual. Antes amontoadas na mais pura inocência, agora se reproduzem em altas orgias, pois a bandalheira permite transmitir aos descendentes os genes mais resistentes às radiações e aumentar as chances de sobrevivência. Enfim, a ordem entre as minhocas agora é essa: ou dá, ou vai pro anzol!

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Só com muitas minhocas na cabeça se justifica qualquer criatura rejeitar a vacina russa por incompatibilidade ideológica

Depois da revolução sexual das minhocas de Chernobyl, os cientistas ucranianos chegaram a outras descobertas fundamentais para a reprodução das espécies: o orgasmo de um porco dura 30 minutos; os humanos e os golfinhos são as únicas espécies que copulam por prazer; o louva-a-deus macho não consegue copular com a cabeça presa ao corpo, pois a fêmea inicia o ritual de acasalamento arrancando fora a cabeça do macho; alguns leões copulam mais de 50 vezes por dia.

É preciso tirar o chapéu para esses adoráveis malucos da ciência, cujas pesquisas mostram que eles têm muito mais coisas na cabeça, além de pipetas, bactérias, vírus e minhocas. Nesta pandemia podemos compreender com mais alcance a frase de Isaac Newton: “O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano”. Com o novo coronavírus, por exemplo, não sabemos de onde surgiu tanta gente com minhoca na cabeça. É uma pandemia de minhocas por este mundo afora. Ou um oceano de minhocas, como diria Newton.

Estes adoráveis malucos da ciência, por mais que avancem no desenvolvimento da vacina para a Covid-19, nunca vão explicar o que leva uma criatura com a cabeça cheia de minhoca a sair na rua com um cartaz escrito em letras garrafais: “Cloroquina ou ivermectina sim, vacina não!”.

Só com muitas minhocas na cabeça se justifica qualquer criatura rejeitar a vacina russa por incompatibilidade ideológica. Se o protesto ocorresse na Rússia, onde os voluntários compulsórios do Exército Vermelho já testaram o vírus com a opção de passar uma quarentena perpétua na Sibéria, seria compreensível a rejeição. Em Moscou, o comediante Maxim Galkin ironizou uma entrevista de Vladimir Putin, ao comentar o cronograma para respirar durante o abrandamento do lockdown: “É verdade que às vezes nós cortamos o oxigênio para algumas pessoas, mas não para as massas. Pelo menos não por enquanto. Vamos apenas acrescentar uma palavra e chamá-lo de ‘cronograma para se respirar livremente’”.

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Assim como em Moscou, em Curitiba as autoridades estão ansiosamente aguardando o Sputnik V cruzar o hemisfério e pousar no Palácio Iguaçu. Nesse dia, como já se diz nas redes sociais, o governador Ratinho Júnior vai anunciar aos paranaenses a boa nova: “Tenho a satisfação de informar a chegada do Sputnik V. Por ser do grupo de risco, meu pai Ratinho foi o primeiro a ser vacinado. Até agora ele não apresenta kalker reakzão ou efeikto sekundariski если вы можете это прочитать, это потому, что вы понимаете русский”.

Enquanto a vacina não chega, a paranoia seria cômica se não fosse trágica. Por certo muitos podem achar que tudo isso é coisa de cronista com minhocas na cabeça, mas pelos cálculos dos cientistas é preciso movimentar 76 músculos para franzir a testa diante de tanta gente com minhocas na cabeça.