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Casamento abalado: Guedes não convence Bolsonaro e busca culpados por fracasso
| Foto: Isac Nobrega/PR

Paulo Guedes disse que o “cartão vermelho” não era para ele e culpou a mídia pelo fracasso do Renda Brasil, enterrado – ao menos por ora – por Jair Bolsonaro.

O presidente se irritou com as notícias de que, para viabilizar o programa social, a equipe econômica estudava congelar aposentadorias e pensões e limitar benefícios de idosos e deficientes pobres.

Bolsonaro detesta a imprensa, e costuma dobrar a aposta quando se sente contrariado por ela. Se insinua que o presidente cancelou tudo por causa das manchetes, não é só a inteligência do povo que Guedes subestima.

“É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”, cantava Raul Seixas: “Convence as paredes do quarto e dorme tranquilo, sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo”.

Apontar culpados pode acalmar o sono, mas não resolve o problema. Famoso pela eloquência nas palestras, o antigo "superministro" não consegue convencer o próprio chefe a abraçar a revolução econômica liberal que promete desde antes da eleição. Crítico mordaz da social-democracia, a quem atribui os males econômicos do país, se vê podado por um presidente que passou a defender mecanismos típicos do Estado de bem-estar social.

Há um mês, num daqueles episódios de morde-e-assopra, o chefe do Executivo disse ter apenas 0,1% de poder de veto sobre as decisões da Economia. Foi o suficiente para abater todas as alternativas que lhe apresentaram para turbinar o Bolsa Família – e fazendo questão de constranger publicamente os envolvidos. Também tem descartado várias privatizações, observando que é um direito seu.

Como bem lembrou a correspondente em Brasília Jéssica Sant’Ana, Bolsonaro já havia vetado o congelamento de benefícios do INSS no ano passado. Na época, o próprio Guedes admitiu: “Nós íamos desindexar tudo. Mantivemos indexação do salário mínimo e dos benefícios previdenciários [na PEC do Pacto Federativo] a pedido do presidente Bolsonaro”. Outras ideias do ministro para financiar o Renda Brasil, como extinguir o abono salarial e o seguro-defeso, também foram barradas, semanas atrás.

O novo veto só reforça a fragilidade do casamento de conveniência dos dois, celebrado num altar de verniz liberal, uma união instável que estremece cada vez que Bolsonaro sente o perfume da popularidade ou cede aos caprichos da reeleição.

A aprovação ao governo, vale ressaltar, aumentou por causa do auxílio emergencial – que só começou em R$ 600 por determinação do presidente, pois Guedes não queria mais de R$ 200 e o Congresso pressionava por R$ 500. Não fosse por isso, dificilmente estariam melhorando as projeções para o PIB, das quais agora o ministro se orgulha.

Sabe-se que é impossível ampliar o Bolsa Família – pagando valores maiores a mais gente e suavizando o tombo que virá após o fim do auxílio emergencial – sem burlar o teto de gastos ou adotar medidas impopulares.

Sabe-se, também, que não há como desamarrar o Orçamento sem mexer com os interesses do funcionalismo ou sem “desindexar-desvincular-desobrigar” ao menos parte dos gastos públicos, como quer o ministro.

Bolsonaro, claro, deve saber disso tudo. E provavelmente conhecia o teor de boa parte dos planos do Ministério da Economia que mandou suspender, pois eram de conhecimento público havia semanas ou meses. Se acaso não sabia, é porque lhe sonegam informação – o pessoal que resume o noticiário para ele e o próprio ministro da Economia.

Muita gente séria vê inconsistências, megalomania ou mesmo equívocos completos nas propostas de Guedes. Até o chefe, a esta altura, deve estar mais do que desconfiado das chances de seu vendedor de sonhos entregar o que promete.

Mas, se acha mesmo que pode fazer história, cabe ao ministro convocar uma discussão de relacionamento, olho no olho, e convencer Bolsonaro a aderir a seus planos. E abandonar o jogo de cena em que um se faz de desinformado e o outro busca culpados na imprensa e no Congresso, ou dá de ombros e abandona soldados pelo caminho – Marcos Cintra, por exemplo, perdeu o comando da Receita por defender em público a nova CPMF, hoje exaltada em toda palestra do ministro.

Se o presidente não aderir, talvez seja o caso de repensar a relação.

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