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acordos de abraham
Da esquerda para a direita: primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, o presidente dos EUA, Donald Trump, o ministro das Relações Exteriores do Bahrein, Abdullatif al-Zayani, e o ministro das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos, Abdullah bin Zayed Al-Nahyan| Foto: SAUL LOEB/AFP

Na última terça-feira (15), os governos dos Emirados Árabes Unidos, do Bahrein e de Israel assinaram acordos para normalizar suas relações. A assinatura foi feita em Washington e contou com a presença de Donald Trump, que afirmou que se trata do “nascimento de um novo Oriente Médio”. O acordo entre Israel e EAU já foi abordado aqui nesse espaço, em coluna anterior, e agora se faz necessário pensar: o que significa a adesão do Bahrein ao processo de normalização de relações?

Não seria apropriado colocar o Bahrein como um ator divisor de águas ou proponente de mudança profunda no cenário regional, um game changer, com o perdão do anglicanismo. Não se trata de uma potência, embora o pequeno país de milhão e meio de habitantes proporcione seus dotes, como o fato de ser um grande centro financeiro, indo além da exploração de hidrocarbonetos, e sua localização geográfica, no coração do golfo Pérsico, entre a península árabe e o Irã.

Não se trata de acordo de paz

Principalmente, é uma vitória para o premiê israelense Benjamin Netanyahu, ainda encurralado por processos de corrupção, pelos efeitos da pandemia do novo coronavírus e por delicadas negociações sobre o orçamento do país, que quase dissolveram a coalizão de governo, formada com Benny Gantz, que abandonou seus parceiros eleitorais. Netanyahu transmite a ideia de um “processo de paz” e chamou os acordos de “acordos de paz”, algo ecoado por parte da imprensa mundial.

Isso, entretanto, é propaganda. Netanyahu tem seus motivos e está em seu lugar de fazer tal propaganda, mas é necessário ir além do slogan. Israel e Bahrein nunca estiveram em conflito. No caso do acordo entre Israel e os EAU, ainda se pode dizer que os emirados apoiavam algumas facções da guerra civil no Líbano, no lado oposto ao israelense. Em relação ao Bahrein, são países distantes geograficamente e o Bahrein nunca foi um ator presente no chamado conflito árabe-israelense.

Inclusive, em alguns dos principais episódios desse conflito, como na Guerra dos Seis Dias de 1967, o Bahrein sequer era país independente, emancipando do império britânico apenas em 1971. O que ocorreu entre Israel e Bahrein foi um procedimento institucional e burocrático de normalização de relações, só que chamar de "acordo de paz" fornece um verniz muito mais bonito e que pode ser capitalizado politicamente. Ninguém diria que Israel "fez a paz" com o Brunei, por exemplo, outro país de maioria muçulmana com quem não tem relações e não teve conflitos.

O termo "acordo de paz" permite que Netanyahu sustente um discurso de que esse estabelecimento de relações seria parte da normalização das relações entre Israel e "os árabes" como um todo, incluindo os palestinos, e amenizar o que é, na verdade, uma decisão crua muito bem calculada em termos econômicos e na rivalidade mútua com o Irã. Algo que ele, inclusive, deixou claro em seu discurso em Washington, direcionando suas críticas ao regime de Teerã.

É claro que normalização de relações são bem-vindas e podem ser comemoradas, mas sem cair em propaganda e em slogan, mantendo o realismo no horizonte. Essa diferença de importância nos acordos, vistos com muito mais destaque pelo governo de Israel, pode ser notada na presença dos signatários. Enquanto Israel estava representado por seu chefe de governo, quem assinou os acordos pelos países árabes foram os respectivos chanceleres,  Abdullah bin Zayed al-Nahyan dos EAU e Abdullatif Al Zayani do Bahrein.

Importância do Bahrein

Como dito por uma política israelense de oposição ao governo, “fazer a paz” é algo que se faz com os vizinhos. Especificamente, Palestina e Líbano. Novamente, não se trata de desmerecer os acordos, apenas colocar na devida escala. Um acordo com o Bahrein não possui o mesmo peso que o acordo entre Israel e Egito em 1979 ou que o acordo entre Israel e Jordânia no início dos anos 1990. Um aspecto, entretanto, que não se pode perder de vista é que o acordo pode ser o preâmbulo de algo maior.

Bahrein e Arábia Saudita possuem relações estreitas. Isso é um eufemismo para o fato de que os Saud já realizaram intervenções militares no Bahrein e o farão de novo se acharem conveniente. O Bahrein é uma monarquia absoluta sunita, como várias no golfo, mas com a particularidade da maioria da população ser xiita. As ilhas foram disputadas entre árabes e persas nos séculos XVIII e XIX, e há a preocupação saudita em impedir que o Irã expanda sua influência no país ou conquiste mais simpatia da população.

Isso também quer dizer que o Bahrein não assinaria um acordo com Israel sem, no mínimo, anuência saudita. Recentemente, os Saud autorizaram o uso de seu espaço aéreo por aviões civis israelenses, viabilizando os voos entre Tel-Aviv e Dubai. Esse acaba sendo o fator mais interessante do acordo entre Israel e Bahrein, se isso significa que um acordo entre israelenses e sauditas estaria mais próximo. Provavelmente, Omã e Marrocos serão os próximos países que normalizarão suas relações com Israel. Depois desses, restam os de negociação mais delicada. E também que podem render mais benefícios.

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