Grupo de manifestantes pró-China pisa em uma foto da presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, em frente ao Consulado Geral dos Estados Unidos em Hong Kong, China, 3 de agosto de 2022.| Foto: EFE/JEROME FAVRE
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Nancy Pelosi, a presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, segue em sua viagem pela Ásia. Passou por Cingapura, seguiu para Taiwan, de lá para o Japão e, enquanto essa coluna é escrita, está na Coreia do Sul, onde visitou a Zona Desmilitarizada na fronteira e não foi recebida pelo presidente sul-coreano, Yoon Suk-yeol. Principalmente, sua visita à ilha de Taiwan causou grandes protestos do governo de Pequim e uma onda de sensacionalismo em alguns comentaristas políticos, como se o apocalipse se aproximasse.

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Em outubro de 2021, quase um ano atrás, publicamos aqui em nosso espaço uma coluna chamada “A China está pronta para invadir Taiwan?”. Caso o leitor não a tenha lido na época, está convidado para a leitura. O que motivou a coluna naquela ocasião foi uma declaração do ministro de Defesa de Taiwan, Chiu Kuo-cheng, afirmando que, em 2025, a China poderá invadir e dominar a ilha. Naquela coluna também revisitamos algumas das razões históricas da disputa entre China e Taiwan.

Além de questões históricas, é importante ressaltarmos uma questão política e legal. Na prática, existem duas Chinas. A República Popular da China, a China continental, terceiro maior país do mundo, com um regime do partido comunista local e cuja capital é Pequim. E a República da China, país insular, também chamada de Taiwan ou de Taipei, nome de sua capital. Legalmente, entretanto, existe apenas uma república chinesa, e ambas as repúblicas chinesas adotam uma política chamada de Uma Só China.

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Para a China comunista, Taiwan é uma província rebelde. Para Taiwan, o governo comunista é ilegítimo. E quem tem relações com um país, obrigatoriamente, não reconhece o outro. Por isso, quando uma autoridade estrangeira visita a ilha, Pequim protesta, afirmando que isso viola a política de Uma Só China, dando alguma forma de reconhecimento ao governo rebelde de Taiwan. No caso da visita de Pelosi, os protestos foram os mais agudos da História.

A visita de Pelosi

Pelosi é a terceira pessoa na linha sucessória dos EUA, e uma visita desse tipo não ocorria desde a década de 1990. Pelosi também é conhecida por sua histórica oposição ao governo de Pequim. Principalmente, como presidente da Câmara dos Deputados, ela pode colocar em pauta e votação temas como maiores vendas de armamentos para Taiwan e maior cooperação política com o governo da ilha. Ainda assim, o risco de uma hostilidade generalizada começar por causa de uma visita como essa é, como visto, ínfima.

Sim, caso uma hipotética Terceira Guerra Mundial comece nas próximas décadas, ela certamente começará no Mar do Sul da China. A região é foco de tensão das potências mundiais que podem fazer um conflito local tornar-se mundial, além de ser via essencial para o comércio mundial e onde abundam disputas fronteiriças. E não, não é salutar um exercício militar de grandes proporções colocando em possível contato próximo forças adversárias, abrindo janelas para algum desastre.

Quando a China dispara mais de uma dezena de mísseis balísticos em direção a Taiwan e inicia uma série de manobras militares com munição real que praticamente bloqueiam a ilha, ela está exibindo os músculos, mostrando seu desagravo e, não se pode esquecer, dando satisfações ao público interno, meses antes do 20º Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês. Daí a ser o prelúdio de uma invasão vai um pélago. Por exemplo, um jornalista chinês chegou a bradar a possibilidade do avião de Pelosi ser interceptado.

Muitas pessoas, pelo mundo inteiro, reproduziram isso praticamente de forma acrítica, como se fosse sequer plausível, e não uma bravata de um jornalista de um jornal ligado ao governo chinês feita justamente para desinformação e confusão. A China pode um dia invadir Taiwan? Sim, mas quando estiver pronta, especialmente o seu programa de construção de porta-aviões. As principais possibilidades de um conflito ali estão cobertas justamente naquela coluna de quase um ano atrás.

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Síndrome de Francisco Ferdinando

No ramo da política internacional e dos conflitos entre os países, análises sensacionalistas ou rasteiras, entretanto, sempre ganham espaço, talvez por dois motivos. O primeiro é um certo fetiche com o apocalipse, com a ideia de uma iminente Terceira Guerra Mundial nuclear que vai destruir o mundo. Esse fetiche é, inclusive, bastante rentável. Rende manchetes que tomam as redes sociais, rendem clique, rendem também “dicas” de como gerenciar seu dinheiro na véspera da hecatombe.

O segundo motivo é uma espécie de “síndrome de Francisco Ferdinando”, uma fixação com a ideia de que um único evento será o desencadeador de um conflito mundial. Busca-se esse evento, esse novo atentado de Sarajevo, a todo custo. Quando a Turquia abateu um caça russo, quando o embaixador russo na Turquia foi assassinado, quando um míssil balístico norte-coreano sobrevoou o Japão, quando indianos e chineses entraram em confronto na fronteira, quando da invasão da Ucrânia, etc.

Todos esses momentos seriam, supostamente, um assassinato do arquiduque versão século XXI. Quando, curiosamente, isso é fruto de uma simplificação histórica. O assassinato de Francisco Ferdinando foi sim o gatilho de uma crise que durou um mês, entre o assassinato e a primeira declaração de guerra. Uma das várias crises que fazem parte da complexa trama de fatores que, acumuladas por décadas, contribuíram para a eclosão da Grande Guerra, longe de ser apenas o assassinato do arquiduque.

Duas excelentes obras recentes abordam como essa visão de “síndrome de Francisco Ferdinando” é apenas simbólica. Uma é Os Sonâmbulos, de Christopher Clark, em que ele analisa como a Europa caminhou para a guerra no mês que separa o atentado do conflito. A segunda é Os Três Imperadores, de Miranda Carter, que aborda as relações pessoais entre três monarcas, Jorge V do Reino Unido, Nicolau II da Rússia e Guilherme II da Alemanha, três primos, e como isso pode ter contribuído para o conflito.

Não podemos esquecer da grande diferença daquele mundo para o de hoje, o risco de um conflito nuclear. O mesmo risco que fez as superpotências da Guerra Fria desarmarem crises gravíssimas. O que não faltam são exemplos históricos que justificam uma análise parcimoniosa dos eventos e das graves crises atuais entre as potências, e impõe o afastamento das “análises” que, como Pedro, gritam que o lobo está vindo toda hora. No caso, o “lobo” é o conflito nuclear.

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Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]