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Bandeiras de Taiwan em frente ao edifício do Ministério de Relações Exteriores em Taipei
Bandeiras de Taiwan em frente ao edifício do Ministério de Relações Exteriores em Taipei| Foto: EFE/EPA/RITCHIE B. TONGO

O reconhecimento oficial de Taiwan diminui a cada dia. Curiosamente, esta coluna estava quase pronta quando, na noite dessa quinta-feira, dia dez, saiu a notícia de que a Nicarágua rompeu relações com a República da China, a China Taiwan, estabelecendo laços formais com a República Popular da China, a China continental. A introdução da coluna falava justamente que Nicarágua e Honduras devem, em breve, realizar essa “troca de Chinas”. Agora, resta apenas Honduras como uma questão de tempo, dentre os poucos países que ainda mantêm relações formais com Taiwan.

A nota oficial do governo nicaraguense foi bastante sucinta e pode ser transcrita na íntegra sem prejuízo. “O governo da República da Nicarágua declara reconhecer que no mundo só existe uma única China. A República Popular da China é o único governo legítimo que representa toda a China, e Taiwan é parte inalienável do território chinês. O governo da República da Nicarágua rompe relações diplomáticas com Taiwan e cessa qualquer contato ou relação oficial.”. Curto e grosso. É necessário responder duas coisas: os motivos dessa escolha de palavras e os motivos específicos da Nicarágua.

Uma Só China

Essa escolha de palavras não se deve apenas ao fato de China e Taiwan não se reconhecerem. O Brasil, por exemplo, tem relações oficiais com Israel e com a Indonésia, dois países que não se reconhecem. A questão aqui é a política de Uma Só China, adotada por ambas as repúblicas chinesas, cuja origem está na guerra civil do país, cuja fase decisiva começa em 1927. De um lado o Kuomintang, o Partido Nacionalista, de Chiang Kai-Shek. Do outro, o Partido Comunista, de Mao Tse-tung. As duas facções acordam uma trégua entre 1936 e 1945, para lutar contra o inimigo comum japonês.

Depois da Segunda Guerra Mundial, com a derrota japonesa, os dois partidos voltam a guerrear entre si e, em 1949, o conflito chega ao fim, com vitória comunista. O governo do Kuomintang, entretanto, foge para a ilha de Taiwan, onde estabelece sua capital. Imaginava-se que a queda de Taiwan seria apenas questão de tempo e esse pensamento dura até o início da Guerra da Coreia, quando os EUA usam a ilha como base. Nesse contexto, em 1955, o Congresso dos EUA aprovou a Resolução de Formosa, basicamente uma aliança militar. Desde então, existe o impasse que permanece hoje.

Para a China continental, China comunista, República Popular da China, China Pequim, a grafia que o leitor preferir, Taiwan é uma província rebelde que é parte integral do território chinês e cujo governo precisa ser “restaurado”. Para a China Taiwan, República da China ou China Taipé, o governo comunista é ilegítimo e usurpador, e o governo de Taiwan é o legítimo representante de toda a China. Para ambos, quem tem relações com um dos países, obrigatoriamente, não reconhece o outro. É uma decisão dos dois governos chineses, importante frisar.

O que explica a decisão da Nicarágua? A América Central era um dos últimos bastiões pró-Taiwan do mundo. Isso é consequência do fato de que, quando os países iniciaram sua “transição chinesa”, ao final da década de 1960 e início da da década de 1970, os países da região eram governados por ditaduras anticomunistas. Nem a mudança do reconhecimento de Washington, no governo Nixon, mudou a postura desses países. A Costa Rica formalizou suas relações com Pequim em 2007, o Panamá em 2017 e El Salvador em 2018. Os dois últimos, inclusive, durante governos de direita.

Existem, é claro, os motivos macropolíticos que explicam essa transição. A China continental é um dos maiores países do mundo, das maiores economias, uma potência nuclear e possui um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Sob uma ótica realista, faz mais sentido ter relações diplomáticas com Pequim do que com Taipei. Não é à toa que um governo republicano dos EUA trocou sua aliada insular, ideologicamente mais próxima, pela China continental. Existia também a estratégia de atrair Pequim para longe de Moscou, mas isso é outro tema.

O contexto específico da Nicarágua contribui para a decisão. Depois das eleições ilegítimas na Nicarágua em novembro, Daniel Ortega se viu sob mais pressão dos EUA. A maneira de contrabalançar essa pressão é se aproximar da potência rival, a China. Pequim também corteja Manágua desde a década passada, pensando na possibilidade de construir um canal que ligue os oceanos Pacífico e Atlântico, para concorrer com o canal do Panamá e, principalmente, não depender de boas relações com os EUA para transitar navios militares na região. O lago Nicarágua facilitaria essa construção.

Como curiosidade, inclusive, a Nicarágua foi uma das opções para a construção do canal original, no início do século XX. Finalmente, a Nicarágua sofreu bastante com a pandemia, com um governo negacionista e números oficiais maquiados. Receber investimentos chineses para recuperar sua economia não seria nada mal. Já as eleições hondurenhas, também no mês passado, consagraram Xiomara Castro como vencedora, a primeira candidatura de esquerda vencedora da História do país. Ela já sinalizou a “troca de China” como uma possibilidade de seu governo.

Honduras e independência

Ao contrário de Noriega, entretanto, ela não está isolada, e teve sua eleição amplamente reconhecida. Inclusive pelos EUA, que possivelmente vai tentar convencer o novo governo hondurenho em manter relações com Taiwan. Investimentos, questões migratórias e combate ao crime organizado são algumas das opções na mesa. Por outro lado, a coluna não recomenda ao leitor que coloque dinheiro apostando na manutenção dos elos entre Honduras e Taiwan. Na verdade, de certo modo, a mudança entre reconhecimento chinês é um processo quase irreversível.

Bandeiras de países aliados de Taiwan em frente ao complexo de embaixadas em Taipei, 10 de dezembro
Bandeiras de países aliados de Taiwan em frente ao complexo de embaixadas em Taipei, 10 de dezembro| EFE/EPA/RITCHIE B. TONGO

Foram vários reveses para Taiwan nos últimos anos. Hoje, apenas catorze estados reconhecem o país insular. O Paraguai é o único sul-americano, por razões comerciais. Guatemala, Belize e Honduras na América Central. São Cristóvão e Neves, São Vicente e Granadinas, Santa Lúcia e Haiti no Caribe. Ilhas Marshall, Nauru, Palau e Tuvalu, todos pequenos países insulares do Pacífico. Eswatini como o único africano e a Santa Sé fecham a lista. Nenhuma grande potência, convenha-se. E quase todos eles possuem argumentos para realizar a “troca chinesa”.

Deve-se pensar caso chegue o dia em que nenhum país do mundo reconheça Taiwan. Os independentistas taiwaneses, que compõem o atual governo, inclusive, podem usar isso como mais um elemento para sustentar que a ilha precisa abandonar a política de Uma Só China. Fazer isso implicaria abrir mão do “restante” da China, mas declarar total independência, o que não seria aceito por Pequim. Curiosamente, o crescente isolamento de Taiwan desafia o status quo, e romper com esse status quo poderia implicar em um conflito. A bola agora está com Honduras.

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