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Casal caminha pela deserta praça Duomo, Milão, Itália, 31 de março de 2020, durante lockdown para conter a propagação da infecção do novo coronavírus
Casal caminha pela deserta Piazza del Duomo, em Milão, na Itália, em 31 de março de 2020, durante lockdown para conter a propagação da infecção do novo coronavírus.| Foto: Miguel Medina/AFP

“A nossa civilização preocupou-se em aliviar o sofrimento e prover o bem-estar humano numa escala universal sem precedentes na história, mas que, ao mesmo tempo, ameaça nos aprisionar em formas potencialmente alienantes e desumanizadoras” (Charles Taylor, prefácio a The Rivers North of the Future: the testament of Ivan Illich, de David Cayley)

“Pois, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á” (Mateus 16,25)

Tão logo o coronavírus chegou à Itália, e assim que as primeiras medidas restritivas começaram a ser implementadas, teve início ali um fenômeno que, decerto familiar àqueles resilientes brasileiros integrantes do grupo de risco, não é mais que uma lembrança esmaecida no alucinado Brasil dos nossos dias: um debate livre e franco.

E não, não falo apenas de debate num sentido pragmático, acerca, por exemplo, de estratégias de enfrentamento do coronavírus. Embora também esse tenha ocorrido, por certo, refiro-me aqui a um debate de outro tipo: uma controvérsia intelectual sem nenhuma finalidade prática ou utilidade imediata, e que, no contexto de uma pandemia, muita gente talvez tenha considerado (não sem alguma razão) até mesmo nociva, por alienada e diversionista.

Giorgio Agamben alertava para o risco do recrudescimento do autoritarismo estatal diante do que também ele via apenas como uma “gripezinha”

O fato, todavia, é que debate houve. E houve, não em algum rincão obscuro e periférico da vida intelectual italiana, mas, ao contrário, em seu coração mesmo. Tendo por origem as observações que um dos mais prestigiados intelectuais italianos vivos, o filósofo Giorgio Agamben, fez no blog Quodlibet a respeito da reação governamental à pandemia, a celeuma que se seguiu foi, embora nem sempre brilhante, sem dúvida acalorada e briosa.

O texto original de Agamben intitula-se L’invenzione di un’epidemia (“A invenção de uma epidemia”). Nele, o filósofo critica o que chamou de medidas emergenciais “frenéticas”, “irracionais” e “inteiramente infundadas” adotadas pelo governo para conter “uma pretensa epidemia de coronavírus”. Baseando-se numa declaração emitida à época pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNR), segundo a qual, além de não haver uma epidemia de Sars-CoV-2 na Itália, a infecção reportada gerava sintomas leves de gripe (do tipo influenza) em quase 90% dos casos, Agamben pergunta: “Se essa é a situação, por que a imprensa e as autoridades se empenham tanto em espalhar um clima de pânico, propiciando assim um verdadeiro estado de exceção com sérias limitações ao movimento e a suspensão da rotina em regiões inteiras?”

O filósofo sugere dois fatores explicativos para essa “resposta desproporcional”. O primeiro seria uma tendência contemporânea universal de usar o estado de exceção como paradigma normal de governo. O segundo, um estado de medo que, nos últimos anos, se entranhou nas consciências individuais, e que se traduziria numa necessidade autêntica por situações de pânico coletivo para as quais a peste fornece o pretexto ideal. “Portanto” – conclui –, “num onipresente círculo vicioso, as limitações à liberdade são aceitas em nome de um desejo por segurança criado pelos mesmos governos que ora agem para satisfazê-lo”.

Em suma: Agamben alertava para o risco do recrudescimento do autoritarismo estatal diante do que – três semanas antes de Jair Bolsonaro! – ele também via, por assim dizer, apenas como uma “gripezinha”.

L’invenzione di un’epidemia foi publicado no dia 26 de fevereiro, quando a Itália tinha ainda somente três mortes por coronavírus confirmadas. Já no dia seguinte, 27 de fevereiro, surgiu a primeira de uma série de críticas ao comentário de Agamben: um texto intitulado Eccezione viral (“Exceção viral”), publicado no blog Antinomie, de autoria do filósofo francês Jean-Luc Nancy, e que ditou o tom das reações subsequentes. Um apanhado da controvérsia pode ser lido no European Journal of Psychoanalysis sob a rubrica “O coronavírus e os filósofos”.

Questionando a caracterização da Covid-19 como uma gripe qualquer, Nancy lembra Agamben que, para essas, já há vacina. E que, segundo outras fontes oficiais, a mortalidade estimada do coronavírus seria até 30 vezes maior. Ademais, aponta o erro do colega italiano em não perceber que aquilo que ele via – talvez com certa nostalgia burguesa – como estado de exceção já virara regra num mundo em que interconexões técnicas de toda sorte atingiram uma intensidade inédita na história humana. “Há uma espécie de exceção viral – biológica, científico-computacional, cultural – que é pandêmica”, escreve Nancy, donde o título do texto. “Governos são apenas executores sombrios, e culpá-los dessa forma soa mais como manobra diversionista do que como reflexão política.”

Quão humanamente digna resta sendo uma vida em que você pode apanhar e ser algemado por sentar num banco de praça? Perseguido, preso e arrastado como um animal feroz por pisar na areia da praia?

Tendo aberto o comentário referindo-se a Agamben como “um velho amigo”, o filósofo francês encerra-o com uma curiosa nota pessoal. Conta que, há 30 anos, quando médicos decidiram que ele precisaria de um transplante de coração, “Giorgio” foi um dos poucos a lhe sugerir que os ignorasse. “Se tivesse seguido o seu conselho”, conclui Nancy, “eu provavelmente teria morrido pouco tempo depois”.

Diante do que hoje sabemos da Itália – com os seus mais de 21 mil mortos até o momento –, é inevitável constatar que a percepção de Jean-Luc Nancy sobre a gravidade do Sars-CoV-2 estava correta; e a de Giorgio Agamben (bem como a de Bolsonaro), equivocada. Todavia, há algo no alerta do filósofo italiano (algo aparentemente inapreensível por Nancy) que permanece válido, a despeito da letalidade do novo vírus. E válido, sobretudo, para os brasileiros, que temos assistido a toda sorte de arbitrariedade, oportunismo político e abuso de autoridade cometidos sob o pretexto de combate à pandemia – que, nesse contexto, adquire um ar de necessidade, quase como se nossas classes política e jornalística parodiassem, em seu íntimo, os versos de Kaváfis: “Sem o vírus o que será de nós? Ah! Ele era uma solução”.

Em resposta às críticas, Agamben aprofundou o seu argumento no artigo Chiarimenti (“Esclarecimentos”), publicado no mesmo Quodlibet no dia 17 de março (quando os mortos na Itália já haviam subido para 297). Nesse novo texto, o filósofo destaca a degradação das relações humanas que as medidas draconianas de combate à pandemia arriscavam produzir. Em particular, demonstrava preocupação com uma perigosa desumanização e crudelização do sentido da vida, reduzida a mera sobrevivência físico-corpórea.

Escreve Agamben: “O medo é um péssimo conselheiro... Resta evidente que os italianos estão preparados para sacrificar praticamente tudo – condições normais de vida, relações sociais, trabalho, amizades, até mesmo convicções políticas e crenças religiosas – para evitar o risco de ficar doente. A vida crua, e o medo de perdê-la, não é algo que une os homens, mas que, ao contrário, os opõe e aparta. Outros seres humanos, tal como os da praga descrita por Manzoni, hoje são vistos apenas como contaminadores potenciais a serem evitados a todo custo. Os mortos – os nossos mortos – não têm direito a um funeral, e não está claro o destino dos cadáveres dos nossos entes queridos. O nosso próximo foi apagado, e é estranho que as igrejas permaneçam caladas sobre isso (grifos meus). O que será das relações humanas num país que vai se acostumando a viver desse modo sabe-se lá por quanto tempo? E o que é uma sociedade cujo único valor é a sobrevivência?... Os homens acostumaram-se a tal ponto a viver em condições de crise e emergência permanentes que parecem não notar que sua vida foi reduzida a uma condição puramente biológica, tendo perdido não apenas a dimensão social e política, como até mesmo a do sentimento e a da compaixão. Uma sociedade em estado permanente de emergência não pode ser livre. Vivemos, de fato, numa sociedade que sacrificou a liberdade em favor das assim chamadas 'razões de segurança', e que, por consequência, condenou a si própria a um estado permanente de medo e insegurança”.

Como disse acima, a reflexão do filósofo italiano é de especial interesse para o Brasil contemporâneo. Também nós não teremos deixado, em função da pandemia, que nossa vida fosse amputada de toda dimensão espiritual e transcendente, reduzida pelos traficantes do pânico a uma condição puramente biológica? Quão humanamente digna resta sendo uma vida em que você pode apanhar e ser algemado por sentar num banco de praça? Perseguido, preso e arrastado como um animal feroz por pisar na areia da praia? Literalmente asfixiado pelo braço da lei por querer trabalhar? Caçado como um criminoso por rezar dentro da própria casa? Se, involuntariamente, importamos da China o vírus, estaremos condenados a, dessa vez por vontade própria, importar de lá também a concepção totalitária da relação entre Estado e sociedade, entre o governo e os indivíduos? No regime comunista chinês, também é possível sobreviver, mantendo o organismo vivo e respirando, com a condição de que permaneça calado, imóvel e diminuto – como um Penjing.

Por fim, imagino que a provocação de Agamben em relação ao silêncio das igrejas possa ser especialmente perturbadora aos religiosos em geral, e católicos em particular. Pois não é nada trivial ver igrejas fechadas em plena Páscoa ou fiéis sem poder receber a Eucaristia. Não terá sido essa uma concessão excessiva à razão médico-epidemiológica? Uma atenção desmedida às exigências da matéria em detrimento das do espírito? Não é de surpreender, obviamente, que magistrados fanaticamente secularistas e jornalistas marxistas-leninistas – aos quais a pandemia tem servido de pretexto para extravasar arraigados preconceitos antirreligiosos – recusem às igrejas o estatuto de “serviços essenciais”. Mas os religiosos deveriam ser os últimos a endossar-lhes o juízo. Afinal, se a missão de salvar vidas é, decerto, nobilíssima, a de salvar almas não é de somenos. Quando mais não seja porque haverá sempre quem tema menos a doença do que o Inferno.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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