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China ameaça Taiwan em novo vídeo mostrando poderio militar
O ditador chinês, Xi Jinping.| Foto: Nicolas Asfouri/Pool/AFP

As eleições americanas parecem, enfim, estar chegando a termo. Embora o (ainda) presidente Donald Trump tenha mais algumas batalhas legais e políticas por travar, a verdade é que Joe Biden – a quem, doravante, só chamarei de presidente-eleito sabe-se lá como – se acerca da Casa Branca. Para a satisfação do governo chinês, uma vez que, como sugeriu a revista Forbes em matéria do ano passado, Biden é “o único homem capaz de salvar a China em 2020”.

Diante desse cenário iminente, convém recordar um fato que, embora tenha viralizado na internet há algumas semanas, foi pouco ou nada comentado na imprensa brasileira. Refiro-me a um vídeo de meados de novembro (censurado nas mídias sociais chinesas, por óbvio), em que um professor chinês de Relações Internacionais, Di Dongsheng, gabava-se da influência de Pequim sobre Wall Street e comemorava a presumida vitória de Biden. Segundo Dongsheng, vice-diretor da Escola de Relações Internacionais da Universidade Renmin, a despeito de eventuais rusgas, as relações entre China e EUA foram de vento em popa no período compreendido entre os anos de 1992 – quando Bill Clinton venceu as eleições, fazendo de sua administração uma verdadeira mãe para a China – e 2016, ano da vitória de Trump, cuja administração marcou o fim de décadas de apaziguamento com a ditadura comunista chinesa.

Nas palavras do intelectual chinês: “Na época, os conflitos eram equacionados e absorvidos no tempo, como um casal faz com os seus desentendimentos, resolvidos na alcova. Acertávamos tudo em questão de dois meses. E por quê? Direi agora algo talvez um pouco explosivo: apenas porque tínhamos gente nossa no topo. Dispúnhamos de velhos amigos nos mais altos círculos de poder e influência na América... Durante os últimos 30 anos, nos valemos do poder central nos EUA. Desde os anos 1970, Wall Street exerce uma grande influência sobre os assuntos domésticos e internacionais daquele país. Então, era algo com que podíamos contar. O problema é que, depois de 2008, o status de Wall Street decaiu. E, sobretudo, depois de 2016... Wall Street não consegue enquadrar Trump... Mas agora, estamos vendo, Biden foi eleito. E a elite tradicional, a elite política, o establishment, todos são muito próximos de Wall Street. Trump falou outro dia que o filho de Biden tem uma fundação. Sim. E quem o ajudou a construir a fundação? Entenderam?”

Aproveitando-se de suas fragilidades internas, a ditadura chinesa infiltrou-se com sucesso nas altas esferas de poder das democracias ocidentais

Dongsheng afirma com todas as letras aquilo que, na grande imprensa brasileira, e a despeito da abundância de informações a respeito, continua sendo desprezado como teoria da conspiração: a ideia de que, aproveitando-se de suas fragilidades internas, a ditadura chinesa infiltrou-se com sucesso nas altas esferas de poder das democracias ocidentais. O problema é tão real e urgente que, em dezembro de 2017, até mesmo o progressista Washington Post publicou matéria a respeito, na qual se lia: “Washington está despertando para os gigantescos escopo e escala das operações de influência conduzidas pelo Partido Comunista Chinês dentro dos EUA, com penetração em várias das nossas instituições. O objetivo principal da China é, no mínimo, defender o seu sistema autoritário contra ataques, e, se possível, exportá-lo para o mundo às custas da América. A campanha de influência estrangeira é parte da empreitada chinesa pela conquista do poder global, o que inclui expansão militar, investimento estrangeiro direto, acumulação de recursos e influência sobre leis e normas internacionais. Mas essa última parte do plano chinês é a mais opaca e mal compreendida. A estratégia de Pequim consiste em, primeiro, bloquear toda discussão crítica sobre o governo chinês, e, então, cooptar influenciadores americanos para promover a narrativa chinesa”.

A infiltração chinesa em instituições políticas e econômicas americanas ficou ainda mais evidenciada com o vazamento recente de dados pessoais de membros do Partido Comunista Chinês, pelo que ficamos sabendo da existência de quase 2 milhões de integrantes do partido infiltrados em empresas (Boeing, Qualcomm e Pfizer, para citar apenas três) e órgãos governamentais, incluindo o consulado americano em Shangai. Como observou o ex-chefe de inteligência nacional de Trump, Richard Grennell: “A China foi capaz de infiltrar em nossas universidades e corporações gente cuja lealdade destina-se unicamente ao Partido Comunista. Nossa querida comunidade sino-americana tem nos alertado sobre essa tática há muitos anos, mas a classe política ignorou esses alertas”.

Como mostra o jornalista Bill Gertz no livro sobre o qual começamos a falar no artigo anterior, a eleição de Trump representou uma virada de 180 graus na estratégia de enfrentamento à China. Já em 2017, o presidente americano começou a reverter a tendência de agentes públicos a minimizar as ameaças da China e o avanço chinês em busca de supremacia global. Trump foi o primeiro presidente, desde que os comunistas chegaram ao poder no país asiático em 1949, a confrontar diretamente Pequim, desfazendo décadas de comércio desigual e subvenção tecnológica. Ele associou diretamente a segurança nacional à segurança econômica dos EUA, fazendo desta o pilar da nova política para com a China. Impôs bilhões de dólares em tarifas como parte de negociações duras concebidas para punir a ditadura comunista por décadas de comércio injusto e transferência ilegal de tecnologia. Em 2019, Trump enfrentava abertamente Xi Jinping, e a economia chinesa começara a retrair em face da pressão americana.

Como disse o secretário de Estado Mike Pompeo em entrevista a Gertz: “Por muito tempo, assistimos passivamente à China avançar sobre o mundo, levando malas de dinheiro e tentando exercer influência por meio de empresas controladas pelo Estado... Em todos os casos, o governo chinês avançou em seus meios de ação, e frequentemente sem uma resposta americana à altura. Agora, estamos fazendo um esforço e recorrendo a todas as ferramentas à disposição para responder a essas ameaças ao povo americano”.

Com Biden – o “único capaz de salvar a China”, segundo a caracterização já citada da revista Forbes –, é evidente que todo esse esforço tende a ser desfeito, e as coisas devem voltar ao estágio pré-Trump. Segundo analistas do Center for American Progress (CAP), “a estratégia de poder de longo prazo da China inclui construir relacionamentos com – e tirar vantagens de – governos, instituições, negócios e indivíduos proeminentes ao redor do mundo. Hackear as informações pessoais de milhões de pessoas é um jeito de fazer isso” (vejam, aliás, esta matéria recente do The Guardian). E eles acrescentam mais uma informação interessante: “Dadas as ambições chinesas e o desejo do país de ser visto sob uma luz favorável no palco mundial, o Partido Comunista Chinês parece valorizar muito a negabilidade plausível”.

“Negabilidade plausível” (plausible deniability) é uma expressão em língua inglesa notabilizada pela CIA nos anos 1960, cujo sentido indica a capacidade que os superiores têm de negar a sua participação em – ou mesmo conhecimento de – maus atos praticados por subordinados. É curioso que os analistas do CAP tenham usado o termo para se referir à China. Na entrevista que deu ao apresentador Tucker Carlson, da Fox News, Tony Bobulinsky, ex-sócio da família Biden, revelou detalhes dos negócios dos Biden com empresas chinesas (e, consequentemente, com o Partido Comunista Chinês). Certa vez, Bobulinsky perguntou a Jim Biden, irmão do presidente-eleito sabe-se lá como, se ele não tinha medo de que o envolvimento da família com a CEFC China Energy comprometesse a carreira política de Joe. Ao que Jim respondeu negativamente, recorrendo à expressão em questão: “negabilidade plausível”.

Mas Jim Biden talvez pudesse ter acrescentado: e negabilidade midiática.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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