| Foto: lilacruz/Pixabay
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“A Child in a foul stable,
Where the beasts feed and foam;
Only where He was homeless
Are you and I at home;
We have hands that fashion and heads that know,
But our hearts we lost − how long ago!
In a place no chart nor ship can show
Under the sky’s dome”
 (G. K. Chesterton, The House of Christmas)

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Era o entardecer do dia 24 de dezembro do ano da graça de 2006. Enquanto procurava uma posição que aliviasse minimamente a dor na coluna e o formigamento nas pernas, isso depois de dez horas espremido numa canoa indígena, distraía-me com a profusão de cores que a misteriosa luminosidade do crepúsculo, potencializada pelo plúmbeo de nuvens pesadas, lançava sobre as águas do Purus e os tabocais da margem. O ruído do motor-rabeta de 7hp cessara já há uns dez minutos, e a pequena embarcação deslizava rio abaixo ao sabor da corrente, apenas mantida no prumo por alguns remos preguiçosos, segundo a modalidade de navegação que, no português regional, é chamada de “bubuia”.

Ali reunidos na pequena casquinha de noz que descia vagarosamente o leito barrento do velho Trindade – como o Purus era conhecido no século 16, graças à imensidão de sua embocadura, que formava três ilhas fluviais –, estávamos eu e 11 índios, com nossas bagagens a tiracolo. Completavam a carga viva daquela arca perdida um cachorro sarnento, um filhote de macaco prego (que uma indiazinha pegara para criar) e alguns jabutis, pobres criaturas comprimidas sob o estrado de paxiúba, dividindo o exíguo espaço com uma dezena de cachos de bananas, que, junto com os infelizes quelônios, seriam vendidos no vilarejo mais próximo.

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Na condição de tripulantes indesejados, havia, é claro, os infernais carapanãs e piuns, que, interrompendo o gesto vital de coçar os membros aferroados, em vão tentávamos espantar. Ah, os insetos do Purus... Quantos não foram os viajantes por eles levados às raias da loucura? Os ecologistas urbanos decerto ignoram, mas a natureza selvagem é tudo menos um paraíso. Antes, pelo contrário: a natureza coça. Estou certo, aliás, de que foram os piuns e os carapanãs que, no início do século 20, levaram Alberto Rangel a chamar a Amazônia de Inferno Verde.

Os habitantes da floresta não são como os Na’avi do filme Avatar, e não mantêm qualquer atitude reverente diante da natureza. Para eles, a floresta é tão banal e profana quanto, para nós, o seria um elevador ou um sinal de trânsito

Mas, para além dos malditos insetos, o fato é que, depois de quatro meses de trabalho de campo na Amazônia acreana, morando numa aldeia indígena sem eletricidade, banheiro e água encanada, eu ansiava por um pouco de conforto: um refrigerante gelado, uma torneira com água corrente, uma cama com lençóis limpos. Estava com saudade de casa e do Rio de Janeiro, onde planejava passar o réveillon com a família. Ao mesmo tempo, contemplava já nostálgico a paisagem que deixava para trás, e que procurava fixar na memória, com toda a força dos sentidos.

O silêncio do motor desligado ressaltava os luxuriantes sons da floresta, àquela altura já tão familiares – o coaxar incessante dos anuros, o grito gutural do bugio (ou “capelão”), o canto dolente do urutau. À minha esquerda, um casal de araras passou voando baixo, e, sabe-se lá por quais mecanismos do espírito, seu grasnado estridente causou-me um nó na garganta, trazendo-me à lembrança a intensidade de sensações dos primeiros dias daquela jornada etnográfica. Sim, teria muitas saudades do Purus e de seus habitantes (à exceção dos insetos), mas, àquela altura, sentia a necessidade vital de deixá-los.

Com esse misto de sentimentos, pensei em Euclides da Cunha. Cem anos antes, servindo ao Barão do Rio Branco na condição de chefe da delegação brasileira da Comissão Mista Brasil-Peru de Reconhecimento do Alto Purus, o autor de Os Sertões passara exatamente por aquele ponto, só que no sentido contrário, rumo às cabeceiras do rio, na trilha do pioneiro William Chandless – geógrafo inglês que, na segunda metade do século 19, fora enviado pela Royal Geographical Society of London para explorar e cartografar a região. No lusco-fusco da hora, quase cheguei a vê-lo, e a sentir o balançar das ondas produzidas pelos batelões e canoas de sua comitiva espectral. Tive ganas de gritar-lhe, como se fossem minhas, as palavras que, por ocasião da viagem, Euclides registrou em carta ao colega José Veríssimo: “Ainda desta vez nada lhe poderei contar, senão que estou bom, embora pressinta que os longos dias de ansiedade, de misérias e triunfos, passados nas cabeceiras do Purus me prejudicaram a vida. Misérias e triunfos… ‘somente à viva voz lhe poderei contar como fundi aquelas coisas antinômicas, numa batalha obscura e trágica com o deserto’”.

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Entre misérias e triunfos, partíramos da aldeia na noite de Natal por uma conjunção absolutamente circunstancial de fatores, a começar pelo fato de que, apenas na véspera, a principal liderança da tribo (tamine) – em cuja família eu fora “adotado” – conseguira comprar de um regatão um pouco de gasolina para o motor do barco, há muito ocioso por falta de combustível. Embora houvesse na região índios convertidos desde o século 19 – por meio de contatos frequentes com missionários católicos e linguistas protestantes, que chegaram a traduzir trechos dos Evangelhos para as línguas indígenas locais –, a verdade é que, na aldeia onde residi, o cristianismo era uma presença residual, quando muito incorporado sincreticamente aos mitos e ritos daquilo que, cum grano salis, poderíamos chamar de a “religião” nativa por excelência: o xamanismo.

Ocorre que, à época, o cristianismo não era menos residual para mim, então um típico intelectual acadêmico, agnóstico e secularista por automatismo, e ademais imerso naquela experiência extrema de alteridade cultural. Em suma: tanto quanto para os meus anfitriões, o Natal era a última coisa que me passava pela cabeça. E se, conquanto ignorando o Aniversariante, talvez pudesse ainda lembrar-me remotamente do Papai Noel, os índios nem isso, já que nunca o haviam visto mais gordo (muitos, diga-se de passagem, jamais haviam ouvido falar nem sequer no Pelé). Portanto, deixamos a aldeia em 24 de dezembro porque, naquele contexto, tratava-se de um dia como outro qualquer. Poderia ter sido na véspera. Poderia ter sido uma semana depois. Mas calhou de ser na data em que, a milhares de quilômetros dali, o aroma de perus assados e rabanadas fritas tomava conta dos lares ocidentais.

Disse acima que o motor-rabeta do nosso barco havia parado, e o leitor pode estar se perguntando o motivo. Não, os índios não o haviam desligado para “curtir o som ambiente” e “entrar em contato com a natureza”, como o faríamos nós, românticos urbanoides adeptos do fugere urbem, deslumbrados (não sem alguma razão, reconheça-se) ao menor afastamento da cidade grande. Ao contrário do que parece imaginar o senso comum ecologista, os habitantes da floresta não são como os Na’avi do filme Avatar, e não mantêm qualquer atitude reverente diante da natureza. Para eles, a floresta é tão banal e profana quanto, para nós, o seria um elevador ou um sinal de trânsito. O motor do barco parara porque o pouco de combustível comprado pelo nosso tamine havia sido, real e literalmente, pouco. Acostumados com uma cultura material escassa em comparação com a nossa, e dotados de um espírito algo estoico, os índios com quem vivi não se destacavam pela providência e, sem se desesperar, costumavam lidar com os problemas à medida que esses surgiam. Portanto, quando nossa gasolina acabou – sugerindo a possibilidade de que a viagem fluvial até o município de Manoel Urbano, que normalmente levaria dois a três dias, poderia durar o dobro ou o triplo do tempo –, todos encararam o incidente de maneira natural, até blasé. Todos menos eu.

Não consegui evitar o lúgubre pensamento de estar vivendo, talvez, o meu último Natal. Sim, foi preciso aquele momento de desespero para que o espírito natalino começasse a ressurgir na minha mente

Acima de nossas cabeças, armava-se uma proverbial tempestade amazônica. Sem gasolina, o nosso plano de acampar, armar as redes e pernoitar numa praia do rio teria de ser abandonado. Como não era aconselhável navegar à noite pelo Purus – ainda mais em período de vazante, quando os galhos submersos, repontando à flor das águas, representavam um grave risco de acidente e naufrágio –, precisaríamos atracar na margem e dormir dentro do barco, sentados por falta de espaço. Embora tivéssemos lona para a cobertura, a tempestade decerto nos deixaria ensopados. Com as costumeiras “friagens” das noites amazônicas, a situação não seria nada agradável. E, claro, atracados na margem, havia sempre o risco de alguma onça faminta resolver se engraçar. Para piorar, tínhamos pouca comida e água potável.

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Quando as primeiras gotas grossas de chuva tamborilaram na lona preta, esforcei-me por disfarçar minha angústia. Rodeado como estava por bravos filhos do Norte, não podia fazer feio, sobretudo porque, à minha frente, a pequena indiazinha, neta do tamine, ria e se divertia com seu filhote de macaco-prego. Veio-me, então, à lembrança um pequeno livro da biblioteca da família, que li por volta dos 10 anos. Chamava-se O Pastor, e era uma obra menor do escritor britânico (e, descobriu-se mais tarde, agente do MI6) Frederick Forsyth, autor de best-sellers como O Dia do Chacal e O Dossiê Odessa. Embora nem de longe corresse o mesmo risco do protagonista, aflito como estava, não consegui evitar o lúgubre pensamento de estar vivendo, talvez, o meu último Natal. Sim, foi preciso aquele momento de desespero para que o espírito natalino começasse a ressurgir na minha mente. Oscar Wilde tinha razão: “How else but through a broken heart/May Lord Christ enter in?”.

Para quem não conhece, o livro de Forsyth conta a história de um jovem piloto britânico da Royal Air Force (RAF) que, na congelante noite de Natal de 1957, decola em seu caça Vampire da Vestfália para a Inglaterra, a fim de aproveitar sua licença de fim de ano ao lado da família. Ao cruzar a fronteira entre Alemanha e Holanda, sobrevoando o Mar do Norte, o avião sofre uma pane elétrica: a bússola pifa, bem como o indicador de inclinação e o de velocidade vertical. Pior de tudo: o rádio não dá qualquer sinal de vida. Solitário dentro da carlinga aquecida, e absorto em seus pensamentos, o piloto demora a perceber a gravidade da situação. Sem saber qual direção seguir, o Vampire logo adentra o cerrado nevoeiro da costa britânica, e o combustível restante só dá para mais meia hora de voo. Certo de que iria morrer, o jovem inglês vislumbra a sombra de uma aeronave contra as nuvens. De fato, um caça-bombardeiro DeHavilland Mosquito dos tempos da Segunda Guerra, com as iniciais JK gravadas na fuselagem, vem em seu socorro. Trata-se provavelmente de um “pastor” – tal como eram chamados os aviões de resgate que conduziam pilotos em apuros para um pouso seguro. Ajudado assim pelo “pastor”, o piloto consegue pousar em segurança num campo desativado da RAF.

Já em terra firme, pergunta ao único funcionário do campo – sujeito embriagado, mas perspicaz o suficiente para acender as luzes da pista ao ouvir o ronco do motor Goblin – quem era aquele que o havia guiado no céu. O funcionário estranha a pergunta pois, segundo ele, o Vampire era o único avião ali. Conta ter sido ordenança de um piloto irlandês morto 14 anos antes, no Natal de 1943, quando o seu DeHavilland Mosquito caíra no mar morto. O irlandês, chamado Johnny Kavanagh (donde o “JK” da fuselagem), fora um dos melhores pilotos de sua época, e, antes de morrer, trabalhara justamente como “pastor”. A conclusão é que o jovem piloto inglês fora salvo por um avião-fantasma.

O nosso “pastor” apareceu quando a chuva já engrossara e as trevas desciam sobre o rio. No intervalo entre um trovão e outro, escutamos a jusante o “pec pec pec” caraterístico do motor-rabeta. Era um ribeirinho do Purus, que, do alto do barranco onde vivia em seu casebre sobre pilotis (como é hábito na região), nos avistara atracando na margem oposta. A mais ou menos 100 metros de nós, o homem desligou o motor e fez sua pequena canoa deslizar sobre o espelho d’água, até encostar suavemente no nosso batelão. Cumprimentou-nos à moda regional indígena – “Salve, parente!” –, e perguntou se tínhamos problemas. Nosso tamine saudou-o e pediu gasolina para comprar. O “pastor” respondeu positivamente e acrescentou: “Vamos lá em casa, que a noite já abriu a boca. Podem pernoitar e, amanhã cedo, comprar a gasolina para seguir viagem”. Só Deus sabe com que alívio recebi aquelas palavras gentis.

Atravessamos o rio de bubuia e atracamos no porto do bom samaritano (ou, no caso, acreano), que, a motor, naturalmente chegara antes, e já nos esperava no alto do barranco. Até que desembarcássemos todos, com as bagagens e os animais, e subíssemos o barranco lamacento à luz de lanternas, não sem alguns tombos (quase todos meus), demoramos uma boa meia hora. Quando chegamos ao platô, cansados, famintos e cobertos de lama, a escuridão já era total, mas a tempestade cessara. O anfitrião nos recebeu com um sorriso largo, apresentando-nos a mulher e os cinco filhos (um deles de colo). Em sua propriedade, havia ainda dois cachorros para auxiliar nas caçadas, um papagaio, três vacas, um pangaré, alguns porcos e uma dezena de galináceos.

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Não dava para entender como, daquele humilíssimo lar, ademais surpreendido por convidados tão famintos, foi possível brotar tanta fartura, e com tamanha qualidade

Fomos abrigados numa choupana contígua à casa principal, construída ao estilo regional, com assoalho de paxiúba e telhado em duas águas, confeccionado em folhas de jarina trançadas. O fundo da casa dava para o curralzinho, de onde podíamos ouvir o ruminar sereno daquelas boas criaturas de Deus. O “pastor” emprestou-nos uma lamparina a óleo, fez um gesto para que nos acomodássemos, e saiu. Com a cálida luminosidade, armamos redes e mosquiteiros. Em seguida, lavamo-nos na cacimba localizada a alguns metros da casa. De volta à choupana, descansávamos, conversávamos e fumávamos quando o nosso benfeitor retornou, sempre de sorriso largo, anunciando o jantar.

Deu-se então o extraordinário. Éramos 12 pessoas esfomeadas, recorde-se. No centro da choupana, onde mais duas lamparinas foram acesas, estendeu-se uma esteira de palha de babaçu, sobre a qual a mulher e a filha mais velha do “pastor” depositaram vasilhas e panelas com feijão, arroz, farinha, macaxeira cozida, carne de boi picadinha e acebolada, bodós fritos e, de sobremesa, um delicioso doce de banana. Tudo regado a água limpa e fresca. Comemos todos até nos fartar, repetindo o prato. Inacreditavelmente, a comida não acabava e, ao contrário, parecia tanto mais abundante quanto mais a devorávamos. Até mesmo Focinho, nosso companheiro canino, recebeu sua porção. Não dava para entender como, daquele humilíssimo lar, ademais surpreendido por convidados tão famintos, foi possível brotar tanta fartura, e com tamanha qualidade.

Quando terminamos de comer, as nuvens já se haviam dissipado, revelando um deslumbrante céu amazônico, pontilhado de tantas estrelas e constelações como jamais vira na vida. Saí da rede para fazer a digestão e fumar um cigarro ao ar livre. Afastado alguns metros da choupana, e próximo à ribanceira, contemplei a placidez do rio e o negrume da silhueta das árvores na margem oposta. Depois, virei-me na direção do curral, onde os animais, em silêncio, pareciam dormir. Olhei para a casa e para a choupana, cuja entrada, de onde escapava a tremeluzente luz da lamparina, e contrastando com a massa de escuridão ao fundo, transmitia uma sensação de conforto e acolhimento. Era uma cena ancestral, como que diretamente transposta de alguma época remota, quiçá a da descoberta do fogo, na qual os primeiros homens, tementes de tudo, espremiam-se no fundo das cavernas em busca de proteção.

No Natal de 2006, estive numa manjedoura em plena selva amazônica. E que, ali, presenciei uma versão em escala reduzida do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes

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Em meio à penumbra, percebi a chama de um isqueiro aceso e, ato contínuo, ouvi a voz do “pastor”, que, sentado no banco de madeira defronte à sua casa, convidava-me para um bate-papo. O restante da tropa já se havia recolhido, e os ruídos noturnos da floresta tomaram conta do ambiente. Sentei-me ao seu lado e, pitando vagarosamente nosso fumo Arapiraca, conversamos por algum tempo. Ele quis saber sobre o Rio de Janeiro e a minha família. Eu, sobre a sua história de vida. Finda a conversa, despedimo-nos com um aperto de mão e fomos dormir. Na entrada da choupana, agradeci-lhe mais uma vez pela acolhida e a maravilhosa refeição. Ao que respondeu o bom acreano: “Não agradeça a mim, mas a Deus, pois é Ele que tudo provê”. No firmamento, uma estrela brilhava mais que todas.

No dia seguinte, partimos logo que o sol raiou, a fim de recuperar o tempo perdido. Tínhamos ainda pela frente, no mínimo, um dia e meio de viagem. Descendo e subindo o barranco, acomodamos toda a bagagem e os animais de volta no barco. Com a gasolina comprada, o tamine encheu o tanque do motor. Levamos ainda um galão de reserva, bem como garrafões com água potável. Despedimo-nos calorosamente do anfitrião e sua amável família, e, finalmente, embarcamos ainda antes das 8 horas. O genro do tamine puxou a correia de ignição, dando partida no motor. Que alegria ouvir o inconfundível “pec pec pec” do rabeta, e sentir soprar a brisa do rio à medida que nos afastávamos da margem. Naquele horário, o céu sem nuvens replicava-se no espelho d’água de maneira perfeitamente simétrica, apenas para, em seguida, desfazer-se nas marolas por nós causadas. Olhei para trás, ainda a tempo de acenar para o “pastor” e sua família, que, retribuindo o aceno, nos olhavam do alto do barranco, mas, qual fantasmas, logo desapareceram assim que o batelão dobrou a volta grande do rio.

No restante da viagem, não parei de pensar no inusitado daquele episódio. Sabia que algo de misterioso e transcendente se passara ali. Contudo, mesmo correndo o risco de decepcionar o leitor com tal anticlímax, devo admitir que aquele não foi o meu Caminho de Damasco. Não experimentei, na ocasião, nada remotamente parecido com a súbita conversão de São Paulo. Mantendo a analogia espacial, diria que minha futura conversão se pareceu mais com o leito sinuoso do Purus, repleto de percalços, hesitações e desbarrancamentos. Precisei ainda de muitos anos, e do acúmulo de outras experiências com o sagrado (inclusive a leitura de apologetas como Corção, Chesterton e Santo Agostinho), para atinar com o sentido de tudo aquilo. Só então, juntando as peças do quebra-cabeça, pude discernir o quadro geral, e compreender o que antes ignorara por completo: que, no Natal de 2006, estive numa manjedoura em plena selva amazônica. E que, ali, presenciei uma versão em escala reduzida do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes.

Sim. Naquela noite feliz, Cristo renasceu para os homens dos quatro cantos da Terra, como fazia há mais de 2 mil anos. Mas também, pela primeira vez, e sem que eu suspeitasse, nasceu especialmente para mim. E a luz acolhedora que, vista das trevas, supus oriunda das lamparinas a óleo, era, de fato, a luz da Natividade dourando a humilde choupana ribeirinha, então transubstanciada num reluzente presépio. Assim nasceu Cristo. Assim nascem os cristãos. Um Feliz Natal a todos!