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Em um podcast recente no Daily Wire (“Friendly Fire: Fauci’s Fabrications”), os apresentadores discutiam o filme da Odisseia de Christopher Nolan, sabendo que a próxima pauta seria a descoberta dos diários de Anthony Fauci, o imunologista americano que inventou a necessidade de “distanciamento social”, do uso de máscaras de pano, do lockdown e outras medidas inócuas, apesar de tirânicas, durante a pandemia de Covid-19. Ainda no bloco sobre A Odisseia, um apresentador, Michael Knowles, comentou que falavam sobre o maior enganador da humanidade. Fiquei realmente na dúvida se ainda era o bloco sobre A Odisseia.
Desde 2020, tivemos uma nova definição de “científico”. Um dado é científico quando ele é acreditado piamente (na verdade, demonicamente) por jornalistas. Jornalistas, é forçoso reconhecer, como jornalista, não são exatamente as pessoas com maior domínio sobre exatas e biológicas que podemos imaginar – quase todos chutaram tudo “C” nas provas de matemática, física e química no vestibular para jornalismo.
Mesmo sendo pessoas bem pouco científicas, jornalistas tornaram-se a pedra de toque para reconhecer algo como permitido de ser dito – basicamente, se concorda com Anthony Fauci e Átila Iamarino, aquele que jurou que 3 milhões de pessoas morreriam no Brasil até agosto de 2020 pela Covid-19 – e aquilo que deve ser proibido até mesmo de ser mencionado. Talvez pensado.
O mais curioso da ditadura científica propagada desde 2020 é que ela é zero por cento científica
É apenas pensamento totalitário baseado em fofoca e ilações malucas – como o distanciamento social, que Fauci escreveu em seu diário que “lhe ocorreu” como medida para conter a pandemia (spoiler: não servia para nada).
É só ver o caso no Brasil do próprio Átila Iamarino, que tinha muitos seguidores por ficar comentando filmes de super-heróis no YouTube. De repente, foi alçado a maior cientista do Brasil. Sua produção acadêmica? A mais simples de todas. Mas, veja, ele tem muitos seguidores no YouTube. Quer maior autoridade reconhecida pela comunidade científica do que a quantidade de seguidores no YouTube?
Iamarino fez uma científica regra de três com as projeções do epidemiologista britânico Neil Ferguson, que fez o governo decretar a malfadada, estúpida e autoritária quarentena. Comparando as populações do Reino Unido e do Brasil, afirmou que 1 milhão de pessoas morreria até agosto de 2020 no Brasil – imbecilidade que ninguém no planeta ousou afirmar.
Átila Iamarino fez outra live antes daquele fatídico agosto. Perguntado se mantinha a previsão, Iamarino soltou, cientificamente: “Não. 3 milhões.” Claro, não sem culpar Bolsonaro. Apesar de agosto ter alcançado 104 mil mortes, ninguém “cobrou” Iamarino pelos 3 milhões – mais de 1% da população brasileira – nem de que lugar tirou a previsão.
Como Átila foi criticado por um erro tão ginasiano e pela histeria coletiva, menos científica do que o teletransporte do Noturno dos X-Men? Ganhando uma coluna na Folha de S.Paulo, na qual pregou o “autoritarismo necessário” contra quem recusava uma vacina experimental – que, como sabemos hoje, é pior do que todas as “teorias da conspiração” da época haviam propagado.
Não, espere: enquanto deixava um tweet fixado no seu perfil xingando o então presidente Bolsonaro, Átila Iamarino fazia propaganda na TV para o TSE, alertando que havia um vírus pior em circulação: as fake news. Ninguém o cobrou pela maior fake news da história brasileira, criada por ele próprio, pela defesa do autoritarismo, e não há nenhuma autoridade para cobrar o TSE por utilizar alguém fazendo propaganda contra um dos candidatos para sua própria propaganda. Como considerar as eleições de 2022 imparciais?
O próprio Ferguson, o médico britânico que criou o estudo original que gerou a quarentena, renunciou ao cargo do governo após ser flagrado furando a quarentena que impôs ao planeta para se encontrar com sua amante.
Enquanto isso, jornalistas pregando o “quarentene-se”, um luxo para quem vive em casas grandes de bairros caros, eram vistos furando a quarentena, alegando que “não eram grupo de risco” ou simplesmente aproveitando a cidade vazia
Gregório Duvivier, que saiu com a filha, foi reportado apenas como alguém “desopilando” durante a ditadura sanitária pela grande mídia – ele próprio estaria esbravejando contra a “extrema direita furadora de quarentena” dias depois.
Felipe Neto, outro “científico” com quase 50 milhões de seguidores no YouTube, também foi visto jogando futebol para dar uma relaxada de tanto tempo trancado em sua mansão. Felipe Neto havia propagado um “estudo” afiançando que bastaria o Brasil passar 50 dias totalmente trancado para que a pandemia estivesse controlada. Talvez os pobres tivessem morrido de fome enquanto isso, mas “a economia a gente vê depois”. Mas não se preocupe com a contradição de Felipe Neto. Afinal, ele garantiu que não se aproximou de ninguém jogando futebol porque era goleiro (quem estava driblando não era de sua responsabilidade) e que passou álcool nas mãos o tempo todo. Ah, bom. Assim sim. Deve ter ajudado a segurar as bolas, inclusive.
E o que falar de Novak Djokovic, que foi apelidado de Novak Djocovid na época por se recusar a tomar a vacina experimental e, sendo um sérvio que conhece a ditadura comunista na sua própria família, criticou as medidas estúpidas, anticientíficas e totalitárias durante a pandemia? Foi impedido de jogar o Aberto da Austrália de 2022 por decisão do ministro da Imigração, Alex Hawke, que alegou “riscos para a saúde e ordem pública” (sic), porque sua “presença” (sic) poderia encorajar o movimento antivacina. Djokovic foi detido, deportado e proibido de entrar na Austrália por três anos.
Bernard Tomic pôde jogar o Aberto da Austrália e ainda falou à árbitra que estava com Covid. Não foi detido nem deportado. Já o polêmico Nick Kyrgios desistiu do ATP 250 de Sydney após também se infectar, mas afirmou que esperava estar 100% para a final do torneio. Sem deportação, sem detenção, sem proibição.
Um ano antes, a tenista espanhola Paula Badosa foi tratada como delinquente na Austrália pelo crime de ter o vírus. Já no ano seguinte, tenistas que testaram positivo para a Covid puderam jogar o Aberto da Austrália.
“Acredite na ciência”, como diz o slogan contraditório dos jornalistas e youtubers.

Flavio Morgenstern é escritor, jornalista e roteirista. É formado em Literatura Alemã e estuda as relações entre linguagem e poder, além da decadência da modernidade, especialmente desde a Primeira Guerra Mundial. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



