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Covid-19

Caso Fauci põe na mira os “donos da ciência” no Brasil

O divulgador científico Átila Iamarino, a microbiologista Natalia Pasternak e o médico Drauzio Varella foram alguns nomes que incentivaram medidas sanitárias oficiais e desaconselharam o “tratamento precoce” durante a pandemia de Covid-19.
O divulgador científico Átila Iamarino, a microbiologista Natalia Pasternak e o médico Drauzio Varella foram alguns nomes que incentivaram medidas sanitárias oficiais e desaconselharam o “tratamento precoce” durante a pandemia de Covid-19. (Foto: Reprodução/TouTube/@AtilaIamarino, @globoplay, @BBCNewsBrasil)

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Autoridades e cientistas brasileiros têm se manifestado a respeito dos diários do médico Anthony Fauci divulgados na última semana pelo Senado dos Estados Unidos. Entre as revelações dos documentos estão articulações políticas e divergências internas sobre medidas sanitárias e tratamentos contra Covid-19.

No Brasil, o caso voltou os holofotes para médicos, cientistas e divulgadores que ganharam projeção ao defender medidas oficiais e tratar determinadas posições como consenso científico. As dúvidas privadas de Fauci, no entanto, reacenderam questionamentos sobre o excesso de certeza com que essas figuras se manifestaram e sobre a desqualificação de opiniões divergentes, que eram classificadas como negacionismo ou desinformação.

“Me pergunto se agora finalmente posso publicar os numerosos estudos que fui impedido de publicar na época devido a ameaças de perseguição”, afirmou o endocrinologista e pesquisador Flavio Cadegiani em seu perfil na rede X. A postagem foi realizada após Fauci ser interrogado no Congresso dos EUA e se negar a responder 111 perguntas sobre seu trabalho como um dos principais conselheiros do presidente Donald Trump e do ex-presidente Joe Biden durante a pandemia.

Postagem do endocrinologista e pesquisador Flavio Cadegiani em seu perfil na rede X.Postagem do endocrinologista e pesquisador Flavio Cadegiani em seu perfil na rede X. (Foto: Reprodução/X/@FlavioCadegiani)

Em meados de 2020 e 2021, Cadegiani testou medicamentos contra a Covid-19 no Brasil, e a revista médica The BMJ, do Reino Unido, informa que um dos estudos realizados teria constatado taxa de recuperação de 81,4%. As pesquisas, no entanto, foram consideradas “violações de ética médica e direitos humanos”, e o endocrinologista foi alvo de investigações por recomendação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP).

No entanto, “muita coisa que era tratada como verdade absoluta agora está sendo provada como falsa”, aponta a médica e cientista Raíssa Soares em sua página no Instagram. A pesquisadora baiana também defendia o uso de medicamentos na tentativa de salvar pacientes com Covid-19 e foi criticada por cientistas, agências de checagem e integrantes da CPI da Covid no Senado Federal.

O relatório final da comissão do Senado elaborado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL) e aprovado pela comissão presidida por Omar Aziz (PSD-AM) chegou a pedir indiciamento de Raíssa e de outros médicos que também defenderam o chamado “tratamento precoce” na pandemia.

“O tempo passa. A verdade aparece. E eu sigo com a consciência tranquila de quem não abandonou seus pacientes”, relatou a médica esta semana em suas redes, onde afirma já ter atendido mais de 9.500 pacientes recuperados da doença.

Em maio de 2021, inclusive, o YouTube retirou do ar uma entrevista de Raíssa concedida à Gazeta do Povo, alegando que o material contrariava sua política sobre informações médicas relacionadas à Covid-19. Na época, a médica era secretária de saúde da cidade de Porto Seguro (BA) e afirmou fazer parte de um grupo de mais de 10.000 médicos favoráveis ao tratamento precoce que, mesmo com evidências científicas, não tinham espaço no debate público sobre o tema e eram, inclusive, denunciados.

A ciência não pode ser construída por narrativas ou por autoridades incontestáveis. Ela exige debate, revisão permanente e liberdade para que diferentes perspectivas sejam analisadas

Nise Yamaguchi, médica oncologista e imunologista criticada durante a pandemia e indiciada pela CPI da Covid-19

“Quando autoridades públicas são questionadas sobre decisões que impactaram milhões de vidas, é dever das instituições investigar os fatos com seriedade e permitir que a sociedade tenha acesso às informações”, alertou no último domingo (2) a especialista Nise Yamaguchi, também criticada durante a pandemia e indiciada pela CPI da Covid-19.

Médica oncologista e imunologista, ela relata que hipóteses científicas passaram a ser tratadas como conteúdo proibido, e que muitos profissionais da saúde que levantaram questionamentos ou sugeriram estratégias diferentes foram desacreditados ou silenciados.

“A ciência não pode ser construída por narrativas ou por autoridades incontestáveis. Ela exige debate, revisão permanente e liberdade para que diferentes perspectivas sejam analisadas”, escreveu Nise.

CFM tem sido alvo de perseguição e intimidação, afirma membro

A controvérsia alcançou, inclusive, o Conselho Federal de Medicina (CFM). Um membro do CFM procurado pela reportagem nesta segunda-feira (3) afirmou que o órgão tem sido alvo de perseguição e intimidação e, por isso, não deve se manifestar a respeito do Caso Fauci.

“Aqui no Brasil o tema [da Covid-19] está criminalizado”, disse. “As pessoas hoje têm medo”, continuou o membro do Conselho que preferiu não ser identificado.

Em abril de 2020, quando ainda havia poucas respostas consolidadas sobre a nova doença, o CFM publicou o Parecer 4/2020 a fim de reconhecer a autonomia médica no tratamento de pacientes com Covid-19. O documento não recomendava a cloroquina ou a hidroxicloroquina, mas reconhecia que o médico poderia, sim, prescrevê-las, em caráter excepcional, após esclarecimentos ao paciente e consentimento dele.

No entanto, o Conselho passou a ser pressionado a revogar o parecer, e uma petição com milhares de assinaturas pediu que o órgão condenasse o chamado “tratamento precoce”, embora o CFM sustentasse que nunca havia recomendado qualquer combinação de medicamentos como política pública.

A posição colocou o Conselho e seus dirigentes como alvos da CPI da Pandemia e de procedimentos do Ministério Público Federal (MPF). Em São Paulo, um inquérito civil foi instaurado para apurar se o CFM teria agido irregularmente, e outro procedimento foi aberto pelo MPF no Rio Grande do Sul.

Juristas consultados pela Gazeta do Povo em outubro de 2021, entretanto, afirmaram que as acusações contra o Conselho Federal de Medicina eram frágeis, e que a abertura de um inquérito contra Mauro Ribeiro só poderia ser explicada por preferências políticas.

Vídeo de Nikolas Ferreira sobre o tema tem 40 milhões de visualizações  

Apesar do receio em tratar do tema atualmente no Brasil, parlamentares como o deputado federal Nikolas Ferreira se posicionaram sobre o Caso Fauci nas redes sociais e foram imediatamente criticados por opositores como Tabata Amaral (PSB-SP).

Em vídeo com cerca de 40 milhões de visualizações até esta quinta-feira (6), Nikolas criticou a “nítida diferença” entre as conversas privadas de Fauci e suas decisões públicas quanto à pandemia”.

Para isso, o deputado reuniu falas de autoridades norte-americanas e afirmou que o médico norte-americano mentiu sobre a transmissão, imunidade natural, vacinas, distanciamento e máscaras. Nikolas citou ainda trechos do diário que tratariam a hidroxicloroquina como “segura”.

“Mas, depois que o Trump endossou o medicamento e a mídia explodiu, o Fauci volta atrás”, relatou o parlamentar mineiro, ao criticar a perseguição realizada a empresários durante a pandemia e a omissão de veículos de comunicação, artistas e influenciadores diante das imposições autoritárias do Estado. “Nunca foi pela ciência”, finalizou.

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