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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern

A muralha da "democracia"

O escândalo Vorcaro é o menor dos escândalos de Moraes

A única diferença do escândalo Vorcaro é que ficou difícil para a mídia continuar passando pano para a "defesa da democracia" de Moraes. (Foto: EFE/Andre Borges)

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Se lermos a história atual do país pela ótica da grande mídia, o ocorrido é mais ou menos o seguinte: todas as instituições estavam funcionando, quando Bolsonaro resolveu dar um golpe de Estado contra a democracia e, por odiar as instituições funcionando tão bem, até que foi barrado democraticamente por Alexandre de Moraes. O problema é que, de repente, Alexandre de Moraes aceitou, quase a contragosto, R$ 131 milhões de Daniel Vorcaro para o escritório de sua esposa defendê-lo e, como o contrato foi feito com mensagens de visualização única, aí foi longe demais.

Parece mesmo que Moraes, A Democracia Feita Carne, estava sempre quieto no seu canto, democraticamente cuidando da Justiça e da democracia, quando Débora do Batom, Filipe Martins, Clezão, Silvinei Vasques e, claro, Jair Bolsonaro, o maior fascista da história do fascismo, resolveram lhe dar um golpe, radicalizados pelo gabinete do ódio das redes sociais, que precisam ser regulamentadas ao ponto de o X passar 38 dias fora do ar no Brasil para garantir a democracia (a notificação a Elon Musk foi feita por “reply” em português, democraticamente).

É o que lemos no jornalismo. Dora Kramer comentou o período de censura, em que todos os brasileiros foram ameaçados de multa diária de R$ 50 mil (mesmo sem terem sido citados em processo nenhum e terem de se informar da proibição pela própria mídia): “Viram? Ninguém morreu de abstinência em 38 dias necessários para se cumprir a lei.” No próprio X.

Em agosto de 2021, a revista Veja publicou a famosa capa “A Muralha”, retratando Moraes como um muro da democracia, contra pessoas que, enfim, criticavam a conduta do próprio Moraes. Em dezembro do mesmo ano, a revista Istoé considerou o mesmo Moraes “O brasileiro do ano” – no mesmo ano, a Istoé faria uma capa comparando Bolsonaro a Hitler, mostrando extrema criatividade. Alexandre de Moraes ainda foi destaque no New York Times, apareceu na francesa Le Nouvel Obs e na britânica The Economist. Também fez um ensaio fotográfico para a New Yorker que gerou comparações com Benito Mussolini no Brasil e nos EUA – muitas das fotos foram apagadas.

Em 23 de dezembro de 2021, Barbara Gancia comemoraria a homenagem da Istoé a Moraes com palavras doces: “Quer saber? A revista do João Doria (não é do Doria? Então deve ser do tio ou primo) tem razão. Temos de dar a mão à palmatória. Apesar da troglodice dos seus métodos, Xandão ocupou a linha de frente na luta contra a selvageria e ajudou a conter a destruição da nossa democracia”.

Talvez seja o caso de incluir o tweet de Gancia como tema de redação de todos os vestibulares de português, com o tema “Discorra o que significa conter a destruição da nossa democracia apesar da troglodice dos seus métodos”.

Joel Pinheiro da Fonseca escreveu uma coluna na Folha: “Nossa democracia só sobreviveu graças a Alexandre de Moraes e às Forças Armadas”. Ainda bem que o ministro da troglodice usou o Exército para conter as velhinhas do terço e os caminhoneiros. Já Tati Bernardi escreveu uma coluna mais sutil na mesma Folha: “Xandão, pega no meu cartão”, na qual classifica o ministro da troglodice como “o grande responsável pela libido do nosso país”, explicando suas “emoções pélvicas” causadas por Moraes.

Agora, com o escândalo Vorcaro, Demétrio Vecchioli afiança que Moraes “foi fundamental para a democracia” (o disco mais riscado da história do país), mas sua posição ficou “insustentável”. Afinal, “Talvez o ministro tenha respondido às mensagens do Vorcaro reveladas pelo Estadão como um incisivo: ‘eu jamais farei isso, pare de me mandar mensagem desse tipo’” (sic). Mas (sempre tem um mas), “ele escolheu enviar mensagens de visualização única, o que já é muito pouco republicano”.

Ou seja, Alexandre de Moraes, que só pensa naquilo (em democracia), estava democraticamente conversando coisas democráticas com Daniel Vorcaro, mas, quando Vorcaro pedia algo, Moraes respondia: “Senhor Daniel, em nome da Democracia, pare de me pagar R$ 3 milhões por mês, eu te imploro em nome da Democracia!!!”, mas, como mandou mensagens deste teor em visualização única, não poderemos usar tais mensagens contra os golpistas.

Noves fora que Moraes (o Alexandre, não Viviane Barci) editou pessoalmente o contrato de R$ 131 milhões (há outro, de R$ 50 milhões). O escritório emitiu nota afiançando que Moraes (Alexandre) foi consultado “na condição de marido da sócia”. Precisamos falar sobre a situação de ministros do STF em condição de marido.

Também ignorem-se as quatro vezes em que Moraes pressionou Gabriel Galípolo, presidente do BC, para defender a aquisição do Master pelo BRB (transferindo a dívida aos aposentados de Brasília), em como pediu vista em uma ação de interesse do banco, adiando a decisão por um ano (o que nenhum advogado conseguiria), sendo relator de outra ação de interesse do banco, ainda não julgada. E noves fora, claro, as mensagens mostrando que Moraes discutia com um réu/cliente como frustrar investigações e até fugas para evitar prisão.

As negociatas de Daniel Vorcaro não começam acidentalmente com Moraes, que só era um democrata agindo democraticamente em nome da democracia contra perigosos golpistas

Na verdade, bem ao contrário desta visão do jornalismo da velha mídia, as negociatas de Daniel Vorcaro não começam acidentalmente com Moraes, que só era um democrata agindo democraticamente em nome da democracia contra perigosos golpistas como a Débora e seu batom, contra Filipe Martins e sua não-viagem aos EUA, contra o Clezão, contra o Silvinei, que fez operação contra compra de voto (Alexandre argumentou que isso prejudicaria um dos candidatos!).

Na tal suposta “minuta”, não há nenhum metadado indicando que Filipe Martins soubesse do tal documento. Já nos documentos de Vorcaro, os metadados indicam edição direta de Alexandre de Moraes. Quantos anos de cadeia serão necessários?

Tudo o que Moraes fez além do escândalo Vorcaro foi mil vezes mais ditatorial – porque destruiu vidas, matou a liberdade no Brasil por décadas vindouras, destruiu o processo legal, esquartejou a presunção de inocência, violentou a separação entre poderes – ou seja, assassinou os pilares da democracia liberal que julga defender. Hoje, qualquer decisão do Brasil – até o presidente definir o chefe da Polícia Federal, que a Constituição diz ser prerrogativa do presidente – tem de ser decidida por Moraes. A presidência da Câmara e do Senado, o que pode ser dito numa campanha eleitoral, tudo é decidido pelo grupo de Moraes no STF.

Bem pior do que o escândalo Vorcaro é Moraes decidir o destino de um assessor que não viajou para os EUA (como se crime fosse viajar) e que não fez uma busca no LinkedIn (como se crime fosse), isso tudo para punir por uma minuta que ninguém viu – minuta essa que surgiu em oitivas conduzidas… por Moraes, “a muralha da democracia”, o “responsável pela libido no Brasil”, o da “troglodice dos métodos”.

Pouco importa que o réu tenha trocado sua versão cinco vezes: importa que… bem, censurar, criar inquérito de ofício com base em norma de prédio que nada tem a ver com censura, usar o TSE para censurar um dos lados, conduzir buscas e apreensões ilegais, transformar a denúncia do radiolão em atentado contra a democracia, impor multas milionárias a pobres, fazer inquérito até sobre leite condensado e se aproximar de uma baleia, censurar canais de direita, desmonetizar a partir do TSE… tudo isso foi chamado de “defesa da democracia”.

A única diferença no escândalo Vorcaro é que, quando se fala de dinheiro, fica ruim para a mídia passar pano. Aí a mídia não tem como dizer que vidas destruídas, suicídios, depressões, prender por não-viagens, censurar, destruir o devido processo legal seja “defesa da democracia”.

Não tem mais como chamar a degustação de MacCallan de muralha da democracia. Não tem como dizer que fazer um textinho de Claude dizendo que é um relatório da PF contra Mendonça termina com “ninguém morreu de abstinência”. Querer saber o que Moraes respondeu a Vorcaro, perguntando se deve sair do país antes de segunda, fica um pouco contraditório com dizer que ele foi alvo de um “golpe de Estado” (spoiler: todo mundo do 8 de janeiro foi vítima de coisas bem piores bem antes, a começar por serem julgados pelos promotores e supostas vítimas do processo).

Lembrar que Alcolumbre quer saber “se as suíças virão” para a festinha não move muitas “emoções pélvicas”, nem faz nenhum jornalista mandar Xandão pegar no seu cartão, porque seu Xandão é responsável pela libido do país. Falando em cartão, contratos assomando a R$ 200 milhões, com modificação feita pelo “Ministro Alexandre de Moraes” no docx, também parecem pouco com “defesa da democracia”, que exige redes sociais fora do ar (e ameaças de multa a todos os brasileiros pela mídia), buscas e apreensões e quebras de sigilo contra grupos de empresários e jornalistas de direita.

Nem mesmo Paulo Gonet pedindo anulação de investigação que o cita (crime punido pelo Artigo 40 da Lei nº 1.079/1950) parece que foi um fortalecimento das instituições contra “golpistas” que iriam “acabar com a democracia”. Vai que eles destruíssem a separação entre poderes e fossem além de suas competências? É por isso que precisam punir não-viagens para os EUA e escrever com batom com décadas de cadeia.

A única diferença do escândalo Vorcaro é só que ficou difícil para a mídia continuar passando pano. Em todo o restante, foi o escândalo mais leve de toda a ficha corrida de Alexandre de Moraes.

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