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Viviane Barci de Moraes, egressa da Unip (uma universidade sem grande renome), mas esposa de Sua Excelência Toda-Poderosa Seu Nome Seja Honrado nas Alturas Alexandre de Moraes, acionou o STF em nome de um empresário do ramo da mineração já elogiado por Lula, o senhor Lucas Prado Kallas, que certamente, entre todos os escritórios de advocacia do país, escolheu logo o de Viviane Barci de Moraes por sua competência técnica, notório saber jurídico e porque espera que sua causa seja julgada com imparcialidade, perícia e busca fria e desinteressada por justiça.
Apenas Viviane Barci de Moraes está cadastrada nos autos, mas o pedido também é assinado por Giuliana Barci de Moraes e Alexandre Barci de Moraes, filhos de Viviane e de Sua Suprema Potestade Rei dos Píncaros e Ínferos Alexandre de Moraes.
Sem querer fazer futurologia, mas aposto os R$ 8 que ficaram na minha conta bancária depois de passar janeiro pagando imposto para a Janja que os Barci de Moraes vão sair ganhando. Alguém aposta contra?
Para adicionar insulto à injúria (nunca entendi essa expressão, já que injúria e insulto são a mesma coisa, mas enfim, não tenho notório saber jurídico e meu sobrenome não é Barci de Moraes), o empresário Lucas Prado Kallas, elogiado por Lula, foi acusado de usar um plano de recuperação ambiental como fachada para expansão da exploração de minério.
Naqueles idos de 2022 que definiram a eleição mais polêmica da história do Brasil, até Joe Biden e Emmanuel Macron (duas figuras capazes de dar sono em Fidel Castro) gastaram meses alertando o planeta de que Bolsonaro era um perigo para o meio ambiente, de que o Pantanal estava pegando fogo, de que precisávamos urgentemente de Marina Silva falando em nanomísseis e limiteis extensíveis para ser (sic), tudo para evitar que Bolsonaro acabasse com o meio ambiente montado em um dragão cuspindo fogo na floresta amazônica. Agora, negociata que aumente a exploração de minério? Bom, Lula já está eleito. Todo mundo que fala em meio ambiente já pode dizer a verdade e que se danem os minérios.
Mas o principal é sempre um Moraes, Sua Glória é Inveja dos Anjos, julgando ação de três outros Moraes, contratados provavelmente para apascentar a Divina Fúria do primeiro Moraes. Como não notar que todos estes fatos encadeados são bem pouco, digamos, Moraes?
Fachin já chegou a usar o termo “filhofobia” (sic, mas também poderia ser pqp) para reclamar de quem desconfia de “conflito de interesses” por ele ter uma filha advogada. Descobrimos que parentes de ministros atuam em mais de 1,9 mil casos em tribunais superiores.
Oito ministros do STF têm parentes advogados com processos na Corte. Cinco ministros do STF aparecem como sócios em 11 empresas. Esses parentes de ministros, por sua vez, têm 70% dos seus casos em trâmite justamente no STF e STJ
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O STF, por sua vez, afirma que “ministros cumprem normas sobre impedimento de familiares” (sic). Deixe-me adivinhar: eles mesmos julgaram que podem julgar casos de quem bem entenderem, então está julgado e dentro das regras julgadas por eles mesmos? E quem irá julgar os julgadores, que julgam que podem julgar o que bem entendem? Já sabemos a resposta, nem precisamos consultar Sua Eminência Iminente, Alexandre de Moraes.
Há muita repetição do termo “democracia” no século XXI, talvez porque você precise repetir demais alguma coisa justamente quando ela não é verdadeira. A democracia liberal, que está em seus estertores pelo mundo inteiro, precisa constantemente repetir as palavras “democracia”, “democrático”, “democraticamente” e quejandos para justificar cada vez mais concentração de poder draconiano, ditatorial, extremo e (claro) supremo em um pequeno convescote de pessoas poderosas, sempre julgando-se inocentes e democráticos (afinal, quem poderia julgá-los?) e sempre mirando sua fúria contra quem não faz parte do convescote, como as pessoas de outros sobrenomes, além de B. M.
Assim, as pessoas que mais repetem clichês palermas como “a democracia venceu” são as primeiras na fila a esbulhar a separação de poderes (algo bem anterior à democracia e que até ditaduras possuem, aliás). Ou seja, é mais possível que você tenha um julgamento justo, com o inocente sendo considerado inocente e indenizado, e o culpado sendo punido, na monarquia czarista ou em um tribunal tribal no meio do mato do que entre nossas Sumidades Supremas, que falam em “democracia” a cada três frases, sempre dizendo “Meu Próprio Poder” como sinônimo perfeito de “democracia”.
Se, para justificar seus poderes extremos, excessivos e supremos, precisam da teatralidade de tribunais e escritórios, é apenas pela forma, e não pela substância. Desde a Inquisição, sabe-se que uma mesma pessoa não pode ser a acusadora e a julgadora. Aliás, foi para isso que inventaram a Inquisição: para inquirir, investigar, separar o dono do poder de quem sentencia.
Bem ao contrário do que se pensa, foi a Inquisição que deu uma base ao Direito moderno, perdurando por quase um milênio, que o STF tratou de jogar no lixo. Aliás, foi a Inquisição que inventou uma coisa chamada… inquérito, que é justamente uma pergunta que a autoridade policial tenta responder, investigando.
O STF inventou o “inquérito” que é, tão somente, o próprio STF decidindo que vai investigar e julgar, sendo o próprio STF a própria suposta vítima. Tudo secreto, claro — o que deixaria Torquemada de cabelos em pé.
Por que alguém contrata o parente de um ministro do STF em uma causa julgada pelo STF? Eu sei, você sabe, todo mundo sabe. Mas, como é o STF que manda no Brasil sozinho, é melhor não dizer nem escrever. Basta lembrar de como foi a posse de Sua Suprema Lei Feita Carne Alexandre de Moraes quando foi empossado no TSE: nunca se viu uma partida em que quase todos os aplausos da plateia foram para o juiz, e não para o atacante de um dos times.
O simples fato de um parente de ministro do STF acionar o STF já deveria ser bem pior do que o “tchau, querida”, depois que se descobriu que o “Bessias” (logo, logo, no STF) seria usado para proteger Lula da cadeia com o termo de posse, “só caso necessário”. As ruas deveriam estar lotadas. Não existe separação entre poderes, não existe conflito de interesses, há apenas a vontade de quem manda e mais nada.
Tudo isso só não ocorre, justamente, porque agora todo o poder emana do STF. E não contratamos seus parentes para nos defender.




